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Dia do Motorista: profissão enfrenta escassez de mão de obra, doenças ocupacionais e pressão crescente nas estradas e cidades

Falta de profissionais já afeta empresas de ônibus e transportadoras. Especialista Liana Variani diz que melhorar relacionamento entre trabalhadores e empregadores é o principal caminho para harmonizar ambiente, ampliar produtividade, proporcionando segurança jurídica

ADAMO BAZANI

O Dia do Motorista, celebrado em 25 de julho, costuma ser marcado por homenagens a quem transporta milhões de passageiros e praticamente toda a produção brasileira, num país extremamente rodoviarista.

Mas, por trás das comemorações, a realidade de motoristas de ônibus e caminhoneiros nem sempre traz motivos para festejar, apesar de a profissão despertar paixão ainda em muita gente, muito embora, bem menos que no passado.

Longas jornadas, trânsito intenso, pressão por horários, violência urbana, risco constante de acidentes, dificuldades para descanso e uma série de problemas de saúde fazem parte da rotina desses profissionais. O resultado é um mercado que sofre para atrair novos trabalhadores justamente quando o Brasil enfrenta uma crescente falta de motoristas.

A advogada especializada em direito trabalhista empresarial, Liana Variani, analisa que muitas destas situações chega a um extremo: processos e mais processos na Justiça. Ou em outro extremo: afastamentos por doenças ocupacionais e até internações.

“Quando a relação trabalhista acaba no Tribunal ou no Hospital, algo está muito errado e não adianta caçar culpados. É necessário construir. Para que haja a produtividade que o empresário precisa até para continuar mantendo os empregos e investimentos e para alcançar a dignidade e a valorização que o trabalhador necessita, o melhor caminho é encontrar soluções juntos, um consenso que vem pela melhoria nas relações de trabalho” – disse Liana Variani

A escassez de profissionais já preocupa empresas de transporte de passageiros e de cargas.

No transporte rodoviário interestadual de passageiros, o déficit de motoristas chega a aproximadamente 30%, segundo dados divulgados pela Abrati (Associação Brasileira das Empresas de Transporte Terrestre de Passageiros). Atualmente, o segmento conta com pouco mais de 60 mil motoristas, mas seriam necessários cerca de 86 mil profissionais para atender à demanda.

Isso, mantendo a atual escala 6 x1. As empresas estimam que, se passar no Congresso o fim da escala 6 x1, e a redução da jornada de 44 horas semanais para 40 horas, será preciso contratar mais e aí, a falta de mão de obra vai se agravar.

Já representações de trabalhadores argumentam que uma menor carga sem redução nos salários teria como consequência um estímulo a mais, o que reverteria, em parte, a falta de profissionais, já que dirigir voltaria a ser mais interessante.

No transporte de cargas, entidades do setor estimam que o Brasil já tenha um déficit superior a 120 mil caminhoneiros, reflexo principalmente do envelhecimento da categoria, da baixa entrada de jovens na profissão e do alto custo para obtenção das habilitações profissionais.

Uma profissão cada vez mais exigente

Embora existam diferenças entre dirigir um ônibus urbano, um coletivo rodoviário ou um caminhão de longa distância, muitos dos desafios são semelhantes.

Entre os principais estão:

Nos centros urbanos, motoristas de ônibus ainda convivem diariamente com conflitos no trânsito, cobranças de usuários, riscos de agressões e necessidade de manter a atenção durante horas em vias congestionadas.

Já os caminhoneiros enfrentam longas viagens, infraestrutura insuficiente em muitas rodovias, falta de pontos de parada adequados e longos períodos longe da família.

“Os problemas como um todo já são conhecidos por empregadores e trabalhadores. Muitas vezes, o que não se discute ou se discute muito pouco é a situação específica de cada empresa. Por isso equipes externas, terceirizadas, de análise de riscos jurídicos e ocupacionais ser tornam cada vez mais necessárias. É a solução ponto a ponto para solucionar o todo” – explicou Liana Variani

As doenças que mais afastam motoristas

As condições de trabalho têm reflexo direto na saúde: do empregado e financeira da empresa.

Boletim divulgado recentemente pelo Ministério da Saúde aponta que jornadas prolongadas, privação de sono, alimentação inadequada, sedentarismo e dificuldade de acesso aos serviços de saúde aumentam significativamente os riscos de adoecimento entre caminhoneiros e motoristas de ônibus.

Entre os principais problemas de saúde encontrados na categoria estão: dores lombares e outros problemas de coluna; lesões musculares e articulares; hipertensão arterial; diabetes; obesidade; distúrbios do sono; apneia do sono; ansiedade; depressão; estresse crônico; doenças cardiovasculares.

O Ministério da Saúde também chama atenção para o fato de que muitos caminhoneiros deixam de realizar acompanhamento médico periódico justamente por permanecerem longos períodos nas estradas. Entre os profissionais cadastrados na Atenção Primária, 41% não receberam atendimento entre 2022 e 2025.

Outro levantamento do próprio Ministério mostra que, entre 2012 e 2023, foram registrados quase 44 mil casos de doenças e agravos relacionados ao trabalho envolvendo caminhoneiros, incluindo acidentes de trabalho, transtornos mentais e intoxicações relacionadas à atividade profissional.

Por que faltam motoristas?

Fato é que todo mundo quer um salário melhor, mas, segundo Liana Variani, a questão vai além da salarial.

“Estimular o trabalhador, valorizar o profissional é investimento também, além de humanização. Além disso, mostrar ao trabalhador que as empresas também passam por suas dificuldades. Não adianta ter uma visão maniqueísta, de que as representações trabalhistas são o bem e os empresários são o mau. Na verdade, ambos dependem uns dos outros. Assim, apesar de todas as externalidades, fatores que às vezes saem de um controle total das empresas, quando se identifica as oportunidades de melhorias, logo se encontra um caminho” – diz Liana Variani

A especialista Liana relaciona os principais fatores que afastam novos profissionais estão:

No transporte coletivo urbano, empresas também relatam dificuldades para contratar motoristas jovens, principalmente nas grandes cidades, onde as oportunidades para outras ocupações são maiores.

Para Liana, muitas destas questões não são necessariamente obrigações legais das empresas de transportes, mas, sempre que possível, ajustes e flexibilidades podem ajudar

“E nem sempre são necessárias grandes alterações. Um bom entendimento entre gestores e trabalhadores, muitas vezes ajuda em muitas questões” – aconselha.

Outras rendas e os “bicos” nos aplicativos:

Os motoristas de ônibus e caminhão argumentam que, diante dos salários que dizem não satisfazer, partem para os chamados “bicos”, em busca de uma renda extra.

O que era eventual, como fazer um carreto nas folgas ou dirigir um ônibus fretado no fim de semana, com o transporte por aplicativo, como Uber e 99, se transformou numa segunda atividade diária.

As empresas de transportes dizem que o excesso de horas ao volante (somando o veículo pesado e o carro de aplicativo) tem trazido problemas, em especial de desgaste físico e acidentes por causa do pouco tempo de descanso e sono insuficiente que provocam baixa atenção.

Ocorre que não há nada na lei brasileira que impeça de o trabalhador ter duas atividades e que, em casos de acidentes, independentemente de o motorista do ônibus ou caminhão estar cansado por causa do acúmulo com o aplicativo, é a empresa do veículo pesado que acaba sendo responsabilizada.

“Isso é uma questão grave, são vidas em jogo, saúde do trabalhador, lesões e mortes no trânsito. Tudo bem que o trabalhador tem direito a buscar renda extra, mas até que ponto isso coloca a segurança em risco. Fora que, o trabalhador adquire uma lesão, desenvolve algum problema de saúde porque passou horas no aplicativo. Quem só paga é a empresa de ônibus ou transporte de carga?” – questiona.

“Dizer que basta melhorar os salários e as condições dos motoristas pode ser importante, mas se a discussão se ativer a isso, é simplificar um problema ainda bem mais complexo. O judiciário, os executivos e os legislativos, a imprensa, todos estão deixando este debate de lado. Até agora só vi o Diário do Transporte levantar o assunto” – relembra.

Nesta semana, o Diário do Transporte trouxe uma reportagem especial que mostra esta realidade na cidade de São Paulo, onde são 29,8 mil motoristas de ônibus municipais e impressionantes 3,5 milhões de condutores de aplicativos cadastrados. Grande parte destes motoristas de ônibus trabalha também com 99 e Uber.

Relembre:

https://diariodotransporte.com.br/2026/07/21/exclusivo-motoristas-de-carros-de-aplicativo-chegam-a-35-milhoes-na-cidade-de-sao-paulo-e-de-onibus-298-mil-muitos-atuam-nas-duas-funcoes-reportagem-especial/

Iniciativas que vêm sendo adotadas por empresas de ônibus para valorizar os motoristas

Independentemente de discussões de classe, de legislação e de obrigações jurídicas, as empresas de transportes de cargas e de passageiros que têm feito além do que diz a “letra fria da lei” registram retornos positivos para todos.

“Todo ser humano precisa se sentir valorizado e acolhido. A lei brasileira tem vários dispositivos que protegem o trabalhador, mas ir além, humanizando as relações, incentivando e reconhecendo tem sido tão benéfico para as empresas como para os empregados. Não é só criar um agradinho pra disfarçar, mas é mostrar ao trabalhador que ele faz parte de um organismo vivo, que ele é importante” – disse.

Entre as ações para valorizar, incentivar os trabalhadores, reduzir riscos jurídicos e até mesmo atrair mão de obra estão:

“Conheço profissionais que só querem seguir em determinada função se for em determinadas empresas. Mas por que isso, se os salários e os direitos trabalhistas são os mesmos? A diferença pode estar no ambiente de trabalho e na valorização” – exemplifica.

A tecnologia ajuda, mas não substitui o motorista

Nos últimos anos, sistemas eletrônicos passaram a auxiliar a condução.

Entre eles estão

Essas tecnologias aumentam a segurança, mas não eliminam a necessidade do motorista, que continua sendo o responsável pelas decisões em situações complexas de trânsito.

 

O que pode melhorar a profissão?

Especialistas em transporte, medicina do trabalho e segurança viária defendem que a solução para a falta de profissionais passa por um conjunto de medidas.

Entre as principais estão:

Também cresce a defesa de programas de formação financiados pelas próprias empresas, que ajudam novos profissionais a obter a CNH adequada e ingressar na carreira. Diversas companhias de ônibus já adotam iniciativas desse tipo diante da dificuldade de contratação.

Mais do que dirigir

Motoristas de ônibus e caminhoneiros não apenas conduzem veículos.

São responsáveis pela mobilidade das cidades, pelo abastecimento da economia, pelo transporte de trabalhadores, estudantes, pacientes, turistas, alimentos, medicamentos e praticamente todos os produtos consumidos diariamente pelos brasileiros.

“Neste Dia do Motorista, mais do que homenagens, o principal desafio continua sendo transformar a profissão em uma carreira novamente atrativa, capaz de garantir qualidade de vida aos profissionais e assegurar a continuidade de um serviço essencial para o funcionamento do País.” – finaliza Liana Variani.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

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