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Fim da escala 6×1 nos transportes: será um erro “colocar todos os setores num mesmo balaio”, diz especialista. Câmara de São Paulo vai discutir impactos nas linhas da SPTrans

Audiência Pública em Comissão vai discutir consequências entre trabalhadores, usuários e no planejamento das linhas. Liana Variani diz é hora de “colocar as cartas na mesa”. Viações falam em aumento de tarifas

ADAMO BAZANI

Foi agendada para ocorrer no dia 11 de junho de 2026, na Câmara Municipal de São Paulo, uma audiência pública para debater o possível fim da escala 6×1 nos transportes coletivos da capital paulista.

Até lá, a data pode passar por alterações, mas a estimativa, segundo a Câmara, é de que o encontro ocorra às 16h, pela Comissão de Trânsito, Transporte e Atividade Econômica.

O requerimento para a realização da audiência pública foi feito pela vereadora Luana Alves (PSOL).

Entre os objetivos está discutir os impactos no dia-a-dia dos trabalhadores e as consequências na prestação de serviços aos usuários bem como no planejamento e operação das linhas da cidade de São Paulo.

O DIÁRIO DO TRANSPORTE CONTRIBUI PARA O DEBATE TRAZENDO UMA VISÃO TÉCNICA NEUTRA, O POSICIONAMENTO DOS SINDICATOS DE TRABALHADORES E DAS ASSOCIAÇÕES DE EMPRESAS, DANDO VOZ PARA TODOS OS LADOS – VEJA ABAIXO

O presidente Luís Inácio Lula da Silva, que vai usar o fim da escala 6×1 com a redução da jornada de trabalho sem a diminuição de salários na campanha para a tentativa de reeleição neste ano de 2026, quer pressa na aprovação pelo Congresso para sancionar rapidamente a medida.

Caso mesmo seja aprovado, o fim da escala 6 x1 deve mudar também a organização das empresas, bem como custos, investimentos e distribuição de frota e a busca por mão-de-obra, hoje em escassez, segundo as companhias de ônibus e movimentação de cargas.

“A mudança de jornada de trabalho e das escalas têm impactos em proporções diferentes entre as mais variadas atividades econômicas. Algumas terão de fazer mais mudanças e investimentos que outras e os transportes estão entre elas porque não podem parar. É um momento crucial para a realidade dos trabalhadores e empresas” – disse a advogada especializada em risco empresarial, Liana Variani.

Segundo Variani, é momento de todos colocarem “as cartas na mesa”, exporem suas necessidades, reivindicações e dificuldades.

“As posições entre representantes de trabalhadores e de empresas são opostas neste momento. E é hora de colocar as cartas na mesa para que seja elaborado uma proposta que, se não conseguir agradar a todos (e não vai conseguir mesmo), que pelo menos seja condizente com a realidade do mercado de trabalho. Assim como trabalhadores mais satisfeitos trazem benefícios para as empresas, os trabalhadores precisam entender que empresas com dificuldades, quebradas, em situação extrema também não contratam, não pagam salários, não concedem os benefícios” – diz Liana Variani.

Segundo a advogada, será um erro se todos os setores da economia forem colocados num “mesmo balaio”

“Não dá para tratar a realidade de setores como transportes, saúde, manutenção de redes de telefonia, eletricidade e saneamento da mesma forma que um banco, uma loja de shopping, um cartório. Até mesmo dentro dos transportes há realidades diferentes, como os intervalos intrajornadas e tempo de descanso. A rotina dos transportes de cargas tem uma realidade, do setor de fretamento é outra, dos ônibus urbanos é uma, dos ônibus rodoviários de longa distância é diferente. Se há diferenças gritantes e os setores sofrem por uma norma específica, imagina numa questão de jornada. E quando falo em setores, não é só empresa, é o trabalhador e o cliente final também. Setor é um conjunto” – explica Liana Variani

O relatório do texto preliminar da PEC (Proposta de Emenda à Constituição) deve ser apresentado na próxima segunda-feira, 25 de maio de 2026.

Um dos maiores impasses é sobre qual regra de transição e justamente a diferenciação entre setores da economia.

A autora do requerimento na Câmara Municipal de São Paulo, Luana Alves, disse, em nota, que a categoria dos trabalhadores em transportes coltivos exerce “função estratégica para o funcionamento da cidade, devendo ter asseguradas condições dignas de trabalho”. Segundo ainda a vereadora, “a adoção da escala 6×1 no setor tem gerado preocupações quanto à intensificação da jornada, à sobrecarga de trabalho e aos impactos na saúde física e mental dos trabalhadores”.

Como mostrou o Diário do Transporte, a NTU (Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos), que representa cerca de mil empresas de ônibus em todo o País estima que o fim da escala 6×1 pode representar aumento de 33% nos custos de mão-de-obra às viações, pela necessidade de contratar mais trabalhadores e ampliar frotas para remanejamentos de escalas, o que elevaria as tarifas e as necessidades de subsídios.

Relembre:

https://diariodotransporte.com.br/2026/05/18/empresas-de-onibus-ntu-dizem-que-fim-da-escala-6-x-1-vai-deixar-tarifas-mais-altas-e-ampliar-crise-de-falta-de-motoristas-sindicatos-trabalhistas-apoiam-e-especialista-recomenda-cuidados/

Já a CNT (Confederação Nacional do Transporte), que reúne os empresários dos setores de cargas e passageiros, estima que o fim escala 6 x 1 vai gerar uma necessidade de contratar ao menos 250 mil trabalhadores, em especial, motoristas.

Ocorre que, segundo a entidade, há escassez de profissionais. Será muito difícil cumprir escalas de horários de ônibus, de entregas de cargas, e até mesmo compatibilizar uma eventual regra nova com externalidades ao controle das empresas, como congestionamentos, alagamentos e acidentes que causam atrasos e impedem o cumprimento do planejamento de tráfego.

Em audiência na Câmara dos Deputados, para parlamentares que integram a comissão que deve preparar a versão preliminar do texto da PEC que irá à votação no Plenário, o presidente da Confederação Nacional do Transporte, Vander Costa, disse que, com a redução de jornada, pode haver até mesmo a falta de ônibus para a população porque não haverá motoristas suficientes para dirigir estes veículos.

 “No caso específico do transporte, a gente tem que andar com o ônibus urbano sete dias por semana, não há como tirar o direito do cidadão”, disse. Vander Costa sugeriu uma transição deuma hora a menos a cada ano, durante quatro anos”,

Relembre:

https://diariodotransporte.com.br/2026/05/19/fim-da-escala-6-x-1-e-debatido-na-camara-com-empresarios-setor-de-transporte-teria-de-contratar-mais-de-250-mil-profissionais-diz-cnt/

Centrais sindicais ligadas aos trabalhadores de transportes apoiam a redução da jornada e dizem que, ao contrário do que os empresários alegam, não vai elevar a crise da falta de mão de obra no setor.

O presidente da CNTTL – Confederação Nacional dos Trabalhadores em Transportes e Logística, Paulo João Estausia, em comunicado da entidade, acredita que o fim da escala 6 x1 pode gerar 4,5 mil empregos somente no transporte urbano logo de início

“Além da abertura de vagas em si, reduzir a carga sem reduzir os salários, vai melhorar os ganhos e impactar positivamente na vida do trabalhador em transportes, tornando a profissão mais interessante. Hoje as altas jornadas, os baixos salários e as rotinas estafantes estão entre os motivos que justificam essa falta de mão de obra alegada pelos empresários” – disse.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

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