Em entrevista ao Diário do Transporte, Marcos Maciel Filho explica como inovação, governança e digitalização estão redefinindo a sustentabilidade econômica dos sistemas de ônibus no Brasil
ALEXANDRE PELEGI
Os sistemas de transporte público vivem uma equação cada vez mais pressionada: custos crescentes, receitas insuficientes e dependência estrutural de subsídios. No Brasil, essa conta já representa cerca de R$ 12 bilhões por ano para cobrir déficits operacionais em sistemas urbanos de ônibus — um dado que ajuda a dimensionar o tamanho do desafio.
Para entender como tecnologia e gestão podem atuar diretamente nesse cenário, o Diário do Transporte conversou com Marcos Maciel Filho, CEO da Empresa 1, empresa pioneira em bilhetagem digital no país. Ao longo da entrevista, ele detalha como inovação, automação e controle de dados estão mudando não apenas a operação, mas a própria lógica financeira do transporte público.
“O debate não pode ser só sobre mais recursos”
Logo no início da conversa, Maciel chama atenção para um ponto central: o setor costuma olhar para o problema pelo lado da escassez de recursos — quando, na verdade, a eficiência pode estar na forma como esses recursos são utilizados.
“O transporte público enfrenta uma pressão crescente sobre os orçamentos. Hoje, cerca de 30% dos custos do transporte urbano por ônibus são cobertos por subsídios públicos. Isso mostra o peso do setor sobre as contas municipais. Mas o debate não pode se restringir à busca por mais recursos. O diferencial está na forma como esses recursos são geridos”, afirma.
Segundo ele, cada ganho operacional — seja na redução de fraudes ou na otimização da operação — pode ser revertido diretamente em melhoria do serviço.
“Cada real economizado pode voltar para a frota, para a infraestrutura ou para a experiência do passageiro. É isso que muda o jogo.”
A trajetória da Empresa 1 acompanha a própria transformação do setor no Brasil. Maciel relembra que a virada começou ainda no fim dos anos 1990, com a substituição do vale-transporte em papel pela bilhetagem eletrônica.
“Ali começou uma nova era de controle financeiro e operacional. A digitalização trouxe transparência e capacidade de gestão que antes simplesmente não existiam”, explica.
Hoje, essa evolução se aprofunda com novas camadas tecnológicas que ampliam o controle e reduzem custos.
“A digitalização reduz custo invisível”
Um dos pontos mais fortes da entrevista é quando o CEO detalha o impacto da digitalização sobre aquilo que ele chama de “custos invisíveis” da operação.
“Quando você digitaliza processos, você reduz infraestrutura física, diminui a circulação de dinheiro em espécie e corta custos administrativos. Isso tem impacto direto no equilíbrio do sistema”, afirma.
Ele cita como exemplos:
- compra de créditos via aplicativo
- recarga por WhatsApp
- pagamento via PIX diretamente no validador
- terminais de autoatendimento
“São soluções que melhoram a vida do passageiro e, ao mesmo tempo, tornam o sistema mais eficiente”, diz Maciel.
Dados em tempo real e eficiência operacional
Se do lado do passageiro a experiência evolui, do lado da operação a transformação é ainda mais profunda.
“Hoje temos validadores embarcados que não apenas autorizam a passagem, mas coletam e transmitem dados em tempo real. Isso permite uma gestão muito mais eficiente da frota”, explica.
Segundo ele, o impacto é direto em três pontos críticos: redução de ociosidade, controle de consumo de combustível e manutenção preditiva.
“É uma mudança estrutural. Você sai de uma gestão reativa para uma gestão baseada em dados.”
Outro tema abordado com destaque é o impacto das fraudes — especialmente no uso de gratuidades.
“A biometria facial tem um papel fundamental nesse controle. Ela permite identificar irregularidades imediatamente e reduzir perdas que pressionam o sistema”, diz.
Para Maciel, esse ponto é central na discussão sobre subsídios.
“Quando você reduz fraudes, você reduz a necessidade de aporte público. É uma equação direta.”
“Tecnologia é também governança”
Mais do que ferramentas, o CEO reforça que a tecnologia tem um papel institucional.
“A inovação no transporte público gera produtividade, mas também transparência e governança. Isso devolve previsibilidade ao orçamento público.”
E essa previsibilidade, segundo ele, abre espaço para decisões estruturantes.
“Uma cidade que consegue economizar na operação ganha margem para investir em corredores exclusivos, integração tarifária e melhoria da experiência do usuário — ou até em outras áreas, dependendo da necessidade.”
Escala e impacto no Brasil
Maciel detalha dados da atuação da Empresa 1, o que ajuda a entender o alcance dessa transformação:
- presença em mais de 150 cidades
- gestão de 90 datacenters
- 18 milhões de cartões ativos
- 20 milhões de certificações de crédito por dia
- 218 milhões de imagens biométricas mensais
“Isso mostra que estamos falando de soluções já consolidadas, com impacto real no dia a dia das cidades.”
Ao final da entrevista, Maciel faz uma síntese que conecta todos os pontos.
“O desafio do transporte público não é apenas financeiro. É estrutural. E a tecnologia, quando combinada com boa governança, deixa de ser um acessório e passa a ser parte da solução.”
Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes
