Estudos apontam aumento de acidentes e indicam que redução no tempo de viagem pode trazer usuários de volta aos ônibus
ARTHUR FERRARI
A Semove manifestou preocupação com o crescimento do uso de motocicletas por aplicativos para transporte de passageiros na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Segundo a entidade, a expansão desse tipo de serviço tem contribuído para a perda de passageiros do transporte coletivo e pode agravar desafios relacionados à mobilidade urbana.
O alerta foi apresentado durante o seminário “Motocicletas e Mobilidade Urbana: Impactos e Desafios”, promovido pela Associação Comercial do Rio de Janeiro, na quinta-feira (16). O encontro reuniu especialistas, representantes do poder público e operadores de transporte para discutir os efeitos do crescimento do uso de motos nas cidades.
Durante o evento, a professora da Coppe, Marina Baltar, apresentou os resultados do “Estudo sobre motivações e racionalidades na escolha pela motocicleta como meio de transporte individual na Região Metropolitana do Rio de Janeiro”. A pesquisa contou com 2,6 mil entrevistas e buscou identificar as razões que levam usuários a optar por motocicletas em vez do transporte público.
Os dados apontaram que 47% dos entrevistados relataram já ter sofrido quedas ou sinistros viários, enquanto 99% afirmaram ter algum tipo de preocupação com a segurança. Mesmo assim, muitos passageiros justificam a escolha pela maior autonomia e pela redução do tempo de deslocamento.
Segundo o levantamento, há possibilidade de reversão desse cenário. Cerca de 78% dos entrevistados afirmaram que voltariam a utilizar ônibus caso houvesse redução no tempo de viagem. Entre eles, 42% indicaram que uma diminuição de apenas cinco minutos já seria suficiente para mudar a decisão.
A pesquisa aponta que a requalificação do transporte coletivo seria uma das principais estratégias para recuperar passageiros. Entre as medidas sugeridas estão a implantação de corredores exclusivos e faixas preferenciais para ônibus, ampliação dos horários de operação, melhorias na comunicação com os usuários e maior segurança nos pontos de embarque.
De acordo com Eunice Horácio, “Ao optar pela moto, o passageiro deixou um sistema de transporte que não o atendia completamente. Para trazê-lo de volta, precisamos oferecer o que ele busca: viagens mais rápidas e previsíveis. Do ponto de vista de segurança viária, o transporte coletivo é mais seguro, mas, mesmo assim, os passageiros têm arriscado suas vidas com o uso crescente de motos. É preciso requalificar o transporte público, investindo em faixas exclusivas e preferenciais para ônibus e não para motos e fortalecendo políticas sociais que levem à redução do valor das tarifas. Para ser considerado organizado e eficiente, o transporte deve ser coletivo e não individual. Moto não é transporte público. E o uso indiscriminado sem regulamentação ou controle não contribuiu para uma cidade acessível e inteligente”, afirmou.
Além do alerta apresentado no seminário, a entidade também destacou dados nacionais sobre a mudança no comportamento dos passageiros. Levantamento da Confederação Nacional do Transporte aponta que, entre 2017 e 2024, a participação dos ônibus no deslocamento da população brasileira caiu de 45% para 31%. No mesmo período, o uso de automóveis particulares passou de 22% para 30%, enquanto motocicletas cresceram de 5% para 11%. Já os aplicativos de transporte aumentaram de 1% para 11%.
No Rio de Janeiro, levantamento da Semove indica que metade dos passageiros pagantes deixou de utilizar ônibus municipais e intermunicipais nos últimos dez anos.
A discussão ocorre no contexto do primeiro Dia Internacional do Transporte Público, iniciativa da União Internacional do Transporte Público, celebrado nesta sexta-feira (17), com o objetivo de promover reflexões sobre políticas públicas e estratégias para fortalecer a mobilidade urbana.
Segundo Richele Cabral, “Aprovar o Marco Legal do Transporte é um dos caminhos viáveis para sair desse impasse, que deve ter também o apoio e a participação direta de municípios e estados na valorização do sistema público de transporte. Caso contrário, corremos o risco de não trazer o passageiro de volta e assistir ao colapso da mobilidade urbana nas grandes cidades”, afirmou.
A entidade defende que a aprovação do Marco Legal do Transporte Público pode criar fontes de financiamento adicionais, estabelecer metas de qualidade e melhorar a eficiência do sistema, com o objetivo de tornar o transporte coletivo mais competitivo frente aos modos individuais.
Arthur Ferrari, para o Diário do Transporte
