Diário do Transporte esteve na sede da empresa em Madri, Espanha, onde entrevistou o CEO Mario Garcia, o CRO Jesus Martin Oya e o diretor de Produto Ander Telleria, que detalharam a transformação —da mudança de modelo de negócios à inteligência artificial aplicada à operação
ALEXANDRE PELEGI
A transformação da GOAL Systems não ocorreu em uma única frente. Trata-se de um movimento simultaneamente estratégico, tecnológico e comercial — e que só se compreende plenamente quando se conectam as visões de suas principais lideranças.
Para entender essa importante mudança num das principais plataformas globais de tecnologia para planejamento e operação de transporte, o jornalista Alexandre Pelegi esteve na sede da empresa, em Madri, na Espanha, no dia 08 de abril de 2026, onde entrevistou seus principais executivos.
De um lado, o CEO Mario Garcia conduz o reposicionamento da companhia; de outro, o Chief Revenue Officer, Jesus Martin Oya, traduz essa mudança em escala e modelo de negócio; enquanto Ander Telleria, Chief Product Officer, materializa essa transição na arquitetura tecnológica e na evolução dos sistemas.
Juntas, essas três perspectivas revelam um objetivo comum: transformar uma empresa historicamente orientada a projetos sob medida em uma plataforma global de produto, estruturada em dados, integração e inteligência artificial.
De empresa de projetos a empresa de produto
A mudança começa na estratégia — e, como destaca Mario Garcia, exige uma ruptura com o passado.
“Durante muitos anos, a GOAL ofereceu soluções muito específicas para cada cliente. O que fizemos foi mudar essa lógica e criar um produto sólido, escalável”, afirma o CEO.
Na prática, isso significa abandonar um modelo que, embora reconhecido pela qualidade, limitava o crescimento.
“A GOAL tinha uma reputação excelente, mas havia uma necessidade de modernização. Vimos aí uma oportunidade de gerar mais valor”, acrescenta.
Essa transformação, no entanto, não se restringe ao discurso estratégico. Como explica Jesus Martin Oya (foto abaixo), ela foi acompanhada de um ciclo relevante de investimento.
“Investimos dezenas de milhões de euros para redesenhar nossos produtos”, diz o CRO, indicando que a mudança estrutural exigiu não apenas visão, mas também capital e execução.
A base tecnológica: cloud, APIs e arquitetura moderna
Essa nova fase se sustenta em uma profunda reconfiguração tecnológica. Segundo Oya, a GOAL deixou para trás modelos tradicionais baseados em sistemas locais.
“Passamos de sistemas desktop para soluções em nuvem, baseadas em microsserviços e acessíveis via web”, afirma.
Mais do que uma atualização técnica, trata-se de uma mudança de paradigma. “Na nuvem, não há limite para cálculos ou número de usuários”, complementa, reforçando o ganho de escala e elasticidade.
Nesse contexto, a integração passa a ser um elemento central da proposta de valor. Ander Telleria sintetiza essa lógica ao definir o novo produto como nativamente conectado. “O produto é API-native”, afirma — indicando que a plataforma nasce preparada para dialogar com múltiplos sistemas, operadores e fontes de dados.
Um único sistema: do planejamento à operação em tempo real
A evolução tecnológica permite, por sua vez, um avanço funcional importante: a unificação de processos que antes eram fragmentados.
“Criamos um produto que cobre todo o fluxo: planejamento, veículos, tripulação e operação diária — tudo integrado”, explica Telleria.
Esse desenho integrado muda a lógica operacional. Em vez de sistemas estáticos, a plataforma passa a aprender continuamente com a realidade.
“Aprendemos com o que acontece em tempo real e ajustamos automaticamente o planejamento”, acrescenta, apontando para uma operação mais dinâmica e responsiva.
Inteligência artificial: do algoritmo ao “copiloto”
É nesse ambiente que a inteligência artificial deixa de ser promessa e passa a desempenhar um papel concreto no dia a dia das operações.
“A vida é baseada em padrões — e o transporte também”, afirma Telleria, ao explicar como os algoritmos conseguem antecipar comportamentos e apoiar decisões.
Na prática, isso se traduz em ferramentas que ampliam a capacidade dos planejadores. “O planejador pode carregar um edital e gerar cenários automaticamente”, exemplifica Oya.
Ainda assim, a empresa faz questão de delimitar o papel da tecnologia. Como ressalta Mario Garcia, a proposta não é substituir o operador, mas potencializá-lo.
“Nosso papel é ajudar — não substituir o operador”, afirma o CEO, posicionando a IA como um “copiloto” da tomada de decisão.
Brasil: mercado-chave e laboratório global
Dentro dessa estratégia, o Brasil ocupa uma posição central. Para a liderança da GOAL, o país não é apenas um mercado relevante, mas também um ambiente de desenvolvimento.
“O Brasil é fascinante”, resume Mario Garcia.
Essa percepção se conecta diretamente à estratégia de inovação da empresa. Segundo Telleria, soluções desenvolvidas no país têm potencial de ganhar escala internacional.
“Muitas soluções desenvolvidas aqui queremos levar ao mundo”, afirma.
Do ponto de vista comercial, o peso do mercado também é inequívoco. “É o mercado mais importante da América Latina”, reforça Oya, consolidando o papel estratégico da região.
Ao integrar as diferentes visões, fica evidente que a transformação da GOAL Systems não é apenas tecnológica, mas estrutural — e ganha escala justamente na interseção entre estratégia global e complexidade operacional local.
Mario Garcia conduz o reposicionamento estratégico, redefinindo o papel da empresa no mercado global.
Jesus Martin Oya traduz essa estratégia em modelo de negócio e capacidade de escala.
E Ander Telleria transforma essa visão em produto, arquitetura e execução tecnológica.
Nesse contexto, o Brasil deixa de ser apenas um mercado relevante para se consolidar como um verdadeiro laboratório de inovação — onde a complexidade das operações impulsiona soluções mais sofisticadas, integradas e escaláveis, que depois ganham projeção internacional.
Para André Vieira, Diretor Comercial Brasil, o Brasil tem um papel estratégico dentro dessa transformação, “não só pelo tamanho do mercado, mas principalmente pela complexidade das operações, que exige soluções mais eficientes, integradas e escaláveis”.
André explica que existe hoje uma demanda clara por plataformas “que conectem planejamento, operação e dados em tempo real, trazendo mais agilidade e assertividade na tomada de decisão”. E conclui:
“A GOAL vem se posicionando para liderar esse movimento, e o que desenvolvemos no Brasil acaba servindo como referência para outros mercados, reforçando o país como um dos principais motores de crescimento e inovação da companhia no cenário global”.,
Resumo da ópera: o resultado é uma transição consistente e bem definida: de fornecedora de software sob medida para infraestrutura digital global do transporte.
Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes
