Do telefone ao algoritmo: fretamento ganha rede digital e muda regras do jogo
Publicado em: 21 de março de 2026
Segundo André Soares, da Fretatech, sistema digital de distribuição integra o mercado e leva o setor a operar com lógica semelhante à da aviação
ALEXANDRE PELEGI
O transporte terrestre por fretamento começa a viver uma transformação estrutural que pode redefinir a forma como o setor se organiza, se comercializa e cresce. A avaliação é de André Soares, da Fretatech, que aponta o surgimento de uma nova camada de infraestrutura digital como elemento-chave dessa mudança.
Paralelo com a aviação: o papel da distribuição
Segundo ele, o setor está seguindo um caminho já percorrido por outras indústrias, especialmente a aviação. “O transporte aéreo só se tornou verdadeiramente global quando criou uma infraestrutura de distribuição. Plataformas como Amadeus, Sabre e Travelport permitiram acesso centralizado à oferta. Isso transformou completamente a indústria”, afirma.
Para Soares, o transporte por fretamento sempre operou sem esse tipo de estrutura. “Durante décadas, o setor evoluiu baseado em relações comerciais diretas, consultas individuais e processos operacionais fragmentados”, explica.
Fragmentação e ineficiência operacional
Na prática, isso significa um modelo pouco eficiente. “Quando uma empresa precisa contratar transporte terrestre por fretamento, o processo geralmente envolve múltiplos contatos com diferentes fornecedores, negociações paralelas e baixa visibilidade de oferta”, diz.
Esse cenário, segundo ele, acaba incentivando a presença de intermediários. “Para evitar essa complexidade, muitas empresas recorrem a intermediários especializados. Embora isso simplifique a operação, também adiciona uma nova camada de intermediação, normalmente com margens comerciais adicionais”, afirma.
O resultado é um mercado relevante, mas com distorções. “Na prática, isso gera menos transparência e custos mais elevados, tanto para quem contrata quanto para quem opera o serviço”, destaca.
Pressão por integração e escala
Ao mesmo tempo, a demanda começa a pressionar por mudanças. “Plataformas digitais, OTAs (Online Travel Agencies, ou agências de viagem online), TMCs e empresas de mobilidade corporativa cada vez mais precisam de integração, escala e eficiência operacional”, afirma Soares.
As TMCs (Travel Management Companies) são empresas especializadas na gestão de viagens corporativas — responsáveis por organizar passagens, hospedagens e deslocamentos para grandes empresas — e figuram entre os principais demandantes de transporte por fretamento. Com operações em escala e necessidade de controle de custos, essas empresas exigem cada vez mais sistemas integrados e acesso rápido à oferta.
O que é o Charter Ground Distribution (CGD)
É nesse contexto que surge o conceito de Charter Ground Distribution (CGD). “Chamamos essa nova camada de mercado de Charter Ground Distribution. É uma infraestrutura de distribuição digital que conecta transportadoras de fretamento a empresas do trade através de uma única rede”, explica.
Na prática, a mudança é significativa. “Isso permite que operadoras, OTAs e TMCs consultem preço e disponibilidade de múltiplos fornecedores através de uma única busca”, afirma.

Ganhos para todo o ecossistema
Os impactos são diretos para todos os agentes do setor. “Para o trade, isso representa acesso centralizado à oferta e maior eficiência na contratação. Para as transportadoras, significa a possibilidade de acessar novos canais de demanda e ampliar sua presença comercial”, diz Soares.
Segundo ele, essa nova infraestrutura já começa a sair do conceito para a prática. “Algumas TMCs e empresas do setor já operam conectadas a essa rede, acessando fornecedores e oportunidades de forma muito mais eficiente”, afirma.
O papel da Fretatech
A Fretatech, empresa da qual Soares faz parte, desenvolveu uma solução própria dentro dessa lógica. “Criamos o CGD Fretatech, um sistema que funciona como um GDS especializado em transporte terrestre por fretamento”, explica.
Ele detalha que a tecnologia permite diferentes formas de acesso. “O sistema pode ser utilizado por meio de um painel operacional ou via integração por APIs, permitindo que plataformas e sistemas incorporem o transporte terrestre diretamente em seus fluxos”, diz.
Vantagem competitiva e risco de ficar fora
Para Soares, o movimento é inevitável e tende a se consolidar rapidamente. “A infraestrutura de distribuição para transporte terrestre por fretamento começa a se consolidar”, afirma.
E há um alerta claro para o mercado. “Como acontece em toda transformação estrutural, empresas que se conectam mais cedo tendem a ganhar vantagem competitiva”, destaca.
Mais do que uma tendência, ele vê uma mudança de paradigma.
“A pergunta que o mercado precisa se fazer não é se essa transformação vai acontecer. As perguntas agora são outras: qual será o impacto competitivo para quem demorar a fazer parte dela e qual o risco de ficar fora dessa nova camada de distribuição?”, conclui.
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O que é a Fretatech
A Fretatech é uma empresa de tecnologia especializada no desenvolvimento de soluções digitais para o mercado de transporte terrestre por fretamento. A companhia atua na criação de plataformas que conectam transportadoras, operadoras, TMCs (Travel Management Companies) e empresas de mobilidade corporativa, com foco em eficiência operacional, integração de sistemas e ampliação de canais de venda.
Entre suas principais iniciativas está o desenvolvimento do CGD Fretatech (Charter Ground Distribution), uma infraestrutura digital que funciona como um sistema de distribuição semelhante aos GDS do transporte aéreo, permitindo a consulta e contratação de serviços de fretamento de múltiplos fornecedores em uma única interface ou via integração por APIs.
Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

