Colapso silencioso: transporte coletivo perde espaço nas cidades brasileiras

Estamos caminhando para isso? Hoje, o crescimento da mobilidade está sendo puxado pelo transporte individual...

Relatórios da ANTP indicam queda contínua da participação e mudança no comportamento de deslocamento

ALEXANDRE PELEGI

Os dados mais recentes do Sistema de Informações da Mobilidade Urbana (SIMOB), da ANTP, referentes a 2023 e 2024, não mostram apenas uma recuperação pós-pandemia. Revelam algo mais profundo: a consolidação de um novo padrão de mobilidade no Brasil — menos coletivo, mais individual e estruturalmente mais ineficiente.

Depois de anos sem publicação, o retorno do SIMOB permite enxergar com clareza o tamanho da ruptura. E ela não é conjuntural. É estrutural.

O SIMOB analisou 533 cidades com mais de 60 mil habitantes, que perfazem 65% da população brasileira. Os resultados representam estimativas consolidadas da mobilidade urbana nas principais cidades do país, permitindo análises comparativas e evolução histórica dos indicadores.(veja ao final do texto mais sobre os dados e metodologia)

A pandemia não foi um desvio — foi uma inflexão

O primeiro dado-chave está na comparação com 2019: o total de viagens caiu cerca de 16%, segundo o SIMOB 2023. Não se trata de uma oscilação cíclica, mas de uma mudança no comportamento da sociedade.

O mais relevante é a assimetria dessa queda:

  • Transporte coletivo: -35%
  • Transporte individual: +2%
  • Modos não motorizados: -18%

Ou seja, a mobilidade não encolheu de forma homogênea — ela se reorganizou.

A pandemia acelerou tendências já latentes: digitalização, trabalho híbrido e maior autonomia individual nos deslocamentos.

2024 confirma: o sistema não volta ao que era

Os dados de 2024 reforçam essa leitura. Há leve crescimento no número total de viagens (+1,3%), chegando a 57,8 bilhões anuais, mas sem alterar o quadro estrutural .

O que cresce não é o sistema coletivo — é o individual:

  • Transporte coletivo: praticamente estagnado (-0,2%)
  • Transporte individual: crescimento consistente (+3,4%)

A mensagem é clara: a retomada da mobilidade está sendo capturada pelo transporte privado.

O colapso silencioso do transporte coletivo

Talvez o dado mais emblemático dos relatórios seja a mudança na divisão modal.

Em poucos anos:

  • Transporte coletivo cai de 28% (2019) para cerca de 21–22% (2023/2024)
  • Transporte individual sobe para cerca de 38–39%

Isso representa uma mudança estrutural no papel do transporte público nas cidades brasileiras.

O coletivo deixa de ser o eixo organizador da mobilidade e passa a ocupar uma posição secundária — especialmente fora dos grandes centros.

E há um agravante: a tendência não estabilizou. Ela continua.

Um sistema mais ineficiente — em todos os sentidos

Os relatórios mostram que o novo padrão é mais caro, mais lento e mais intensivo em energia.

Alguns indicadores sintetizam essa deterioração:

  • O transporte coletivo responde por cerca de 21% das viagens, mas consome 36% do tempo total
  • O automóvel, com cerca de 33% das viagens, consome 58% da energia

Esse desequilíbrio revela duas distorções:

  1. O transporte coletivo perdeu competitividade operacional
  2. O transporte individual impõe alto custo energético e ambiental

Ou seja, o sistema piora simultaneamente do ponto de vista do usuário e da sociedade.

A armadilha do automóvel se consolida

Outro ponto central é o avanço da motorização:

  • Frota total próxima de 49 milhões de veículos em 2024
  • Crescimento em relação a 2023 (Veículos: 47.056.818)

E mais importante do que o volume é o papel estrutural que o automóvel assume:

  • Quase 49% das distâncias percorridas são feitas por transporte individual

Isso indica que o automóvel não é apenas complementar — ele volta a ser dominante.

Mobilidade menor, mais desigual e menos previsível

O índice de mobilidade (viagens por habitante/dia) praticamente não cresce:

  • 1,34 (2023) → 1,35 (2024)

Isso sugere que:

  • Parte das viagens desapareceu
  • Outra parte foi substituída por alternativas digitais
  • E o restante se redistribuiu entre modos

O resultado é uma mobilidade mais fragmentada, menos previsível e mais difícil de planejar.

O maior problema: estamos planejando com base no passado

Talvez o alerta mais importante do SIMOB não esteja nos números, mas na metodologia.

Os relatórios reconhecem que:

  • Os modelos ainda se baseiam em padrões de 2014
  • A pandemia alterou profundamente o comportamento
  • Há aumento do grau de incerteza nos estudos

Ou seja, o Brasil está tomando decisões sobre mobilidade com base em um mundo que já não existe.

O que os dados indicam para o futuro

A leitura conjunta de 2023 e 2024 aponta para três cenários possíveis:

  1. Continuidade da perda do transporte coletivo

Sem intervenção, a tendência é de redução contínua de participação e relevância.

  1. Crescimento estrutural do transporte individual

Motocicletas e automóveis tendem a capturar a demanda residual.

  1. Pressão crescente sobre energia, emissões e espaço urbano

O modelo atual é insustentável no médio prazo.

Conclusão

Os relatórios do SIMOB não mostram uma crise passageira — mostram uma mudança de paradigma.

O transporte coletivo deixou de ser o organizador central da mobilidade urbana brasileira. E, no seu lugar, emerge um sistema mais individualizado, mais desigual e menos eficiente.

O desafio agora não é recuperar a demanda perdida, mas redefinir o papel do transporte público em um cenário onde ele já não é mais dominante.

Sem isso, o Brasil corre o risco de consolidar um modelo de mobilidade incompatível com suas cidades — e com seu futuro.


Base de dados do SIMOB/ANTP

Os relatórios do Sistema de Informações da Mobilidade Urbana (SIMOB), da ANTP, utilizam uma base ampla e representativa das cidades brasileiras.

Dimensão da amostra:

533 municípios com mais de 60 mil habitantes
Critério definido a partir da base de 2014

Cobertura populacional:

142,8 milhões de habitantes (2024)
141,6 milhões de habitantes (2023)
Equivalente a cerca de 65% da população brasileira

Estrutura de análise:
Os dados são organizados por porte de município:

Mais de 1 milhão de habitantes
500 mil a 1 milhão
250 mil a 500 mil
100 mil a 250 mil
60 mil a 100 mil

Metodologia:
O SIMOB utiliza modelos baseados em pesquisas Origem-Destino e variáveis socioeconômicas, com ajustes recentes para refletir as mudanças nos padrões de deslocamento após a pandemia

Confira os relatórios da série, visitando a página do SIMOB, ou vá direto aos respectivos anos aqui: 2023 e 2024.


Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

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Comentários

Comentários

  1. Rodrigo Zika! disse:

    Culpa dos próprios políticos que no passado investiram em avenidas para carros.

    1. Raphael disse:

      E não construísse avenidas como queria que trafegassemos pela cidades? Será que não foi falha da gestão pública em oferecer um serviço de baixa qualidade? Cada uma…

  2. Marcos Henrique Saat disse:

    O que realmente faz as pessoas optarem por transporte coletivo é metrô, monotrilho, VLT e trem metropolitano. Isto é o que a China fez e as cidades com maiores redes de metrô estão lá.

  3. Santiago disse:

    Há décadas que os investimentos em transportes públicos vêm focando essencialmente na renovação periódica das frotas, como se tudo estivesse resumido apenas a isso.

    Ônibus novos, com novas tecnologias e novos itens de conforto, são apresentados à população com muita pompa e propaganda. Porém integrados a sistemas de transportes defasados, mal operados e tecnicamente falidos. Enquanto os gestores (i)responsáveis fingem que tais problemas não existem.

    O resultado a médio prazo é que as pessoas estão migrando, assim que têm uma chance, aos carros e motos próprios ou de aplicativos.
    Não por status ou por luxo, mas pra garantirem um minimo de confiabilidade e dignidade nos seus deslocamentos.

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