Saiba quem é quem na bilionária licitação de ônibus de Campinas (SP)
Publicado em: 26 de fevereiro de 2026
De grandes grupos empresarias com tentáculos em várias cidades a empresas que foram alvos de investigações e rompimentos por irregularidades, nos bastidores, clima é de “guerra”
ADAMO BAZANI
Colaborou Arthur Ferrari
Estão em jogo dois contratos bilionários para a operação de ônibus em Campinas, maior cidade no interior paulista, com mais de 1,2 milhão de habitantes, que teve nesta quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026, mais um capítulo: depois de quase quatro anos de tentativas, finalmente a prefeitura conseguiu avançar na licitação que recebeu propostas de cinco grupos empresariais. As análises de valores e documentações devem prosseguir em 05 de março de 2026, com a abertura dos envelopes restantes.
Havia a expectativa de a concorrência pelos dois lotes (Norte e Sul), dos contratos de 15 anos e R$ 11 bilhões, ser insossa e mais do mesmo, com os atuais operadores apenas. Mas não foi isso que ocorreu e, nos bastidores do mercado, pelo que apurou o Diário do Transporte, o clima é de “guerra”. Isso pode até mesmo impactar nos cronogramas previstos pelo poder público porque deve haver contestações até judiciais.
De grandes grupos empresarias com tentáculos em várias cidades a empresas que foram alvos de investigações e rompimentos por irregularidades e donos de viações que se tornaram ferozes rivais ao longo do tempo, com quebras de acordos verbais estão entre os participantes. Inclusive acordos sobre a licitação de Campinas.
Estruturas societárias complexas que dão muitas voltas nas juntas comerciais, mesmas empresas em consórcios diferentes.
Nada é fácil de entender. O Diário do Transporte, com base em documentos oficiais, tenta ao menos esclarecer um pouco.
São seis propostas para os dois lotes. Uma das concorrentes, a Sancetur, disputa as duas áreas operacionais.
Mas vale ressaltar que uma mesma empresa aparece em dois consórcios diferentes como Rhema Transportes (Consórcio Andorinha e Consórcio Grande Campinas) e WMW Locação de Veículos e Serviços de Transportes Ltda (Consórcio Andorinha e Consórcio Grande Campinas).
De acordo com a ata oficial a qual o Diário do Transporte teve acesso, brigam pelos contratos bilionários os seguintes grupos:
LOTE NORTE:
EMPRESA SANCETUR – SANTA CECILIA TURISMO LTDA.;
CONSÓRCIO GRANDE CAMPINAS, composto pelas empresas RHEMA MOBILIDADE LTDA. (EMPRESA LÍDER), TRANSPORTE COLETIVO GRANDE MARÍLIA LTDA., NOVA VIA TRANSPORTES E SERVIÇOS LTDA., WMW LOCAÇÃO DE VEÍCULOS E SERVIÇOS DE TRANSPORTES LTDA. e AUTO VIAÇÃO SUZANO LTDA.;
CONSÓRCIO MOV CAMPINAS, composto pelas empresas: BAMPAR PARTICIPAÇÕES LTDA. (EMPRESA LÍDER) e TUPI-TRANSPORTE URBANO DE PIRACICABA LTDA.
LOTE SUL:
EMPRESA SANCETUR – SANTA CECILIA TURISMO LTDA.;
CONSÓRCIO ANDORINHA, composto pelas empresas: RHEMA MOBILIDADE LTDA. (EMPRESA LÍDER), NEW HOPE TERCEIRIZAÇÃO E TRANSPORTES CATANDUVA LTDA. E WMW LOCAÇÃO DE VEÍCULOS E SERVIÇOS DE TRANSPORTES LTDA.
CONSÓRCIO VCP MOBILIDADE, composto pelas empresas: MOBICAMP LTDA. (EMPRESA LÍDER) E RED LOG LTDA.
QUEM É QUEM:
SANCETUR:
Pertencente ao mais relevante braço da família Chedid, que é considerada poderosa nos transportes. Atua em mais de 20 cidades, em especial no interior e no litoral de São Paulo, mas também está em sistemas de outros estados, como na cidade do Rio de Janeiro.
De tão forte e incisiva, a Sancetur com um só ofício conseguiu com que o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, liberasse imediatamente valores de subsídios e repasses atrasados, algo que as empresas locais, inclusive do poderoso Jacob Barata Filho, do Grupo Guanabara, tentavam há tempos.
Com a marca SOU (Sistema de Ônibus Urbanos) ao lado do nome da cidade correspondente, tem ganhado cada vez mais espaço em licitações ou contratos emergenciais.
Recentemente, ia dar um dos passos mais ousados do Grupo Chedid, ao assumir a gigante operação da Transwolff, na capital paulista, com 1206 ônibus, 111 linhas e 555 mil passageiros por mês, na zona Sul. A Transwolff foi descredenciada do sistema de transportes da cidade de São Paulo após ter sido alvo de uma Operação do Ministério Público de São Paulo que investiga possível ligação da empresa, que surgiu da cooperativa Cooperpam, com a facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital). Mas após instabilidades na transição dos contratos, desistiu do negócio, que chegou a ser anunciado em fevereiro de 2026 pelo prefeito Ricardo Nunes. A onda de ataques a 1,5 mil ônibus em São Paulo que ocorreu entre junho e agosto de 2025 foi atribuída pela Polícia Civil a esta mudança contratual.
CONSÓRCIO MOV CAMPINAS
É do Grupo Belarmino, que já atua nos transportes municipais de Campinas, com a VB Transportes, cuja operação constantemente é alvo de reclamações de usuários. Tem como fundador o empresário português Belarmino de Ascenção Marta, é um dos maiores conglomerados do setor, em especial no Estado de São Paulo. Nascido em Vilar de Rei, na região de Trás-os-Montes, em Portugal; em 15 de agosto de 1937, Belarmino começou no ramo de transportes, na capital paulista, em 1961, juntamente com cunhado Antonio José Fonseca e amigos, fundando a Auto Viação Brasil Luxo.
A família de Belarmino possui controle total único, sociedade ou participação em empresas como: Sambaíba Transportes Urbanos (a segunda maior frota da cidade de São Paulo, com 1,3 mil ônibus), ConSor – Consórcio Sorocaba, Comercial Sambaíba de Viaturas, Empresa Bragantina de Varrição e Coleta de Lixo – Embralixo, Empresa São José, MoV Vinhedo – Rápido Sumaré, MoV Paulínia – Rápido Sumaré, MoV São João da Boa Vista – Rápido Sumaré, MoV Nova Odessa – Rápido Sumaré, MoV Louveira – West Side, MoV Itu – West Side, MoV Avaré – West Side, MoV Boituva – West Side, MoV Sumaré – Viação Ouro Verde, MoV Monte Mor – Rápido Campinas, MoV Franca (no lugar da São José), Nossa Senhora de Fátima Auto Ônibus, Rápido Luxo Campinas, Rápido Sumaré, Transportes Capellini, ValleSul Transportes e Turismo, VB Transportes e Turismo, VBex Encomendas, VB Cargas, Viaje Mais, Viação Atual, Viação Avante, Viação Campo dos Ouros (Guarulhos-SP), Viação Itu, Viação Lira (LiraBus), Viação Ouro Verde, Viação Transguarulhense, Vila Real Transportes e Serviços, West Side Viagens e Turismo, Monte Alegre Agência de Turismo, entre outras.
CONSÓRCIO GRANDE CAMPINAS:
RHEMA MOBILIDADE LTDA. (EMPRESA LÍDER), TRANSPORTE COLETIVO GRANDE MARÍLIA LTDA., NOVA VIA TRANSPORTES E SERVIÇOS LTDA., WMW LOCAÇÃO DE VEÍCULOS E SERVIÇOS DE TRANSPORTES LTDA. e AUTO VIAÇÃO SUZANO LTDA.;
É o consórcio com maior número de empresas, o que não significa que sejam companhias mais fortes ou maiores. Muitas delas, inclusive são marcadas por polêmicas e investigações como descredenciamentos com suspeitas de irregularidades, todas contestadas pelos operadores.
A Nova Via, ligada ao Grupo da Smile Turismo, atua no transporte urbano em Santa Bárbara d’Oeste, região metropolitana de Campinas.
A empresa, em Santa Bárbara, possui em torno de 80 funcionários e mais de 35 veículos. Os veículos rodam cerca de 160.000 quilômetros, por mês.
A Smile Transportes e Turismo tem cerca de 40 anos, sede em Paulínia e filiais em Campinas, Sumaré, Paraibuna, Fernandópolis e Marília, conta atualmente com mais de 800 funcionários e 500 veículos.
A Nova Via Transportes e Serviços Ltda tem como principal sócio, de acordo com a Junta Comercial de São Paulo, Norival Antonio do Prado, e a Ekos Transportes e Turismo. A Ekos é registrada em nome de Norival e já chegou a ser denominada de Nakasone Transportes. Já figurou como sócio da Nova Via, Antônio Felício Júnior. A família Felício também é conhecida por forte influência nos transportes, com atuação e fundação em grupos de empresas como Viação Danúbio Azul (Grupo VIDA), da Grande São Paulo e interior paulista; Rápido D’Oeste, de Ribeirão Preto; e a VoePass Linhas Aéreas (antiga Passaredo), fundada por José Luiz Felício, que morreu em 2023.
De acordo com reportagens de imprensa local, a Smile chegou a ser denunciada por suposta formação de cartel e falsificação de documentos nos transportes de Paulínia, também na região de Campinas. A denúncia, protocolada por uma advogada na prefeitura de Paulínia, apontou para uma possível “cartelização” com a empresa S.TP. Mobilidade e os rombos aos cofres públicos chegariam a R$ 19 milhões. A prefeitura decidiu pelo rompimento dos contratos.
A Rhema Transportes, por sua vez, é registrada em nome de Claudio Luis Ferreira Coutinho e Paulo Roberto Leme. Atua com fretamento e em serviços de transporte escolar em Paulínia
A New Hope Terceirização e Transportes Catanduva Ltda já teve as denominações Nova Esperança Locadora de Veiculos Ltda e Virtual Express Serviços de Entrega Rápida Ltda. De acordo com a Jucesp (Junta Comercial do Estado de São Paulo), figura como sócio principal Marcos Welder França dos Santos, de Guarulhos, na Grande São Paulo.
A WMW Locação de Veículos e Serviços de Transportes Ltda tem sedes em Guarulhos e Arujá, na Grande São Paulo, e, segundo a Jucesp, é registrada em nome de Merciana Alves dos Santos Franca, da mesma família da New Hope. A atuação principal é em fretamento.
A Auto Viação Suzano Ltda, segundo a Junta Comercial, tem como sócio principal Welter França Souto Ferreira, ou seja, o mesmo da New Hope Terceirização e Transportes Catanduva Ltda. Atua em Santa Isabel (SP), Catanduva (SP) e Balneário Camboriú (SC).
A Transporte Coletivo Grande Marília é registrada em nome de Emerson de Jesus e Paula Anely Sikans. Atua em Marília, no interior de São Paulo, praticamente com a mesma pintura da Nova Via, de Santa Bárbara d’Oeste
CONSÓRCIO ANDORINHA
RHEMA MOBILIDADE LTDA. (EMPRESA LÍDER), NEW HOPE TERCEIRIZAÇÃO E TRANSPORTES CATANDUVA LTDA. E WMW LOCAÇÃO DE VEÍCULOS E SERVIÇOS DE TRANSPORTES LTDA.
Rhema e WMW estão também no Consórcio Grande Campinas – os detalhes acima.
De diferente, mas nem não diferente, é a New Hope Terceirização e Transportes Catanduva Ltda
A empresa já teve as denominações Nova Esperança Locadora De Veiculos Ltda e Virtual Express Serviços de Entrega Rápida Ltda. De acordo com a Jucesp (Junta Comercial do Estado de São Paulo), figura como sócio principal Marcos Welder França dos Santos, de Guarulhos, na Grande São Paulo.
Marcos Welder França dos Santos é sócio também, segundo a Jucesp, da Auto Viação Suzano Ltda, que está no Consórcio Grande Campinas.
A família atua na WMW Locação de Veículos e Serviços de Transportes Ltda, que está no Consórcio Grande Campinas.
CONSÓRCIO VCP MOBILIDADE
MOBICAMP LTDA. (EMPRESA LÍDER) E RED LOG LTDA.
Na prática, é composto também por empresas que atuam na cidade: Expresso Campibus Ltda (do Grupo NIFF, família Felício Yasbek e Viação Arujá), Onicamp Transporte Coletivo e Itajaí Transportes Coletivos (Camila Portela Redighieri Daher e Joubert Beluomini). Mas o caminho societário é complexo.
A MobiCamp tem o quadro de sócios formado pela VGM Participações Ltda, VUG Participações Ltda e Walter Godoy Bueno
A VGM, com sede em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, tem como sócia registrada Valéria Garcia Mansur e o objeto social é Holdings de Instituições Não-Financeiras Compra e Venda e Imóveis Próprios
A VUG tem como sócio-administrador Walter Godoy Bueno e o objeto social é o mesmo da VGM.
A Red Log, por sua vez, é formada pela Agromaquinas Locações Ltda, de Vila Velha (ES) e pelos sócios Camila Portela Redighieri Daher, Joubert Beluomini, Lorena Portela Redighieri e Rápido Santo Amaro Ltda.
Joubert Beluomini é sócio de Camila Portela Redighieri Daher na Itajaí e Onicamp Transporte Coletivo Ltda, que também opera já no transporte municipal de Campinas, além de aparecerem em comum na Rápido Santo Amaro Ltda.












A licitação prevê contratos de 15 anos e valor total estimado em R$ 11 bilhões. Desse montante, R$ 1,7 bilhão deverá ser destinado à renovação da frota, com R$ 900 milhões aplicados nos cinco primeiros anos. Outros R$ 1,9 bilhão serão destinados a tecnologias embarcadas e melhorias em terminais e estações. Nos primeiros anos, devem ser incorporados ao menos 60 ônibus elétricos, além de veículos Euro 6, compatíveis com normas ambientais mais restritivas. Outras alternativas de combustível, como biometano, GNV e hidrogênio, também poderão ser adotadas. Toda a frota deverá ser acessível.
O sistema será dividido em dois lotes operacionais — Norte e Sul.
O edital inclui ainda a operação do sistema BRT, reformulado para funcionar como rede tronco-alimentada, ampliando a integração entre bairros, terminais e regiões da cidade. O PAI-Serviço também passa a integrar a concessão e deve ser modernizado com ampliação da capacidade e renovação dos veículos.
A bilhetagem eletrônica terá governança compartilhada entre Emdec e operadoras, por meio de uma SPE – Sociedade de Propósito Específico.
Há quase cinco anos, a prefeitura tenta uma nova concessão, mas o processo foi marcado por impugnações do TCE (Tribunal de Contas do Estado de São Paulo), ações judiciais e falta de interesse de concorrentes, como tem acompanhado o Diário do Transporte.
Numa das tentativas, por exemplo, ninguém apresentou proposta em 20 de setembro de 2023. Na ocasião, os contratos de 15 anos foram avaliados em R$ 8,2 bilhões.
Pelo aviso de consulta pública, assinado pelo Secretário de Transportes, Fernando de Caires Barbosa, assim como das outras tentativas, as linhas de ônibus serão divididas em dois lotes operacionais.
A bilhetagem eletrônica, o transporte para pessoas com deficiência com restrição severa de acessibilidade (PAI Serviço) e a conservação das estações de BRT (Bus Rapid Transit), passam a ser incluídas na concessão das viações.
Concessão comum da prestação e exploração do Serviço de Transporte Público Coletivo de Passageiros na cidade de Campinas/SP, dividida em 2 (dois) Lotes, envolvendo: serviço de transporte coletivo público na Modalidade Convencional; serviço de transporte para pessoas com deficiência e/ou restrição severa de acessibilidade (PAI Serviço); serviços nos terminais e nas estações do Bus Rapid Transit (BRT); e lote único para os serviços complementares de bilhetagem e de monitoramento.
A gestão previa, 200 ônibus elétricos entre os mais de 800 de frota total e a Bilhetagem seria de responsabilidade da Emdec (Empresa Municipal de Desenvolvimento de Campinas).
Mas sobre a bilhetagem, o novo edital deve mudar, incluindo o serviço na concessão das viações, como já é hoje.
A bilhetagem eletrônica e da arrecadação do sistema atualmente está sob a responsabilidade das próprias empresas de ônibus.
Em uma das representações no TCE (Tribunal de Contas do Estado), as empresas de ônibus, pelo SetCamp, apontaram que queriam também operar as linhas que compõem a modalidade de serviço alternativo, executado por trabalhadores autônomos ou cooperados, que somam 256 permissionários. Estas linhas não estavam na licitação e o sindicato empresarial queria a inclusão na concorrência.
Relembre:
Ninguém apresenta proposta na licitação dos ônibus de Campinas (SP)
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

