“Ônibus elétrico, no fim das contas, dá lucro”  e “Descarbonização não depende de bala de prata”

Da esquerda, para a direita, de cima para baixo: subsecretário de Políticas para Cidades e Transporte no Governo de Goiás, Miguel Angelo Pricinote; prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes; diretora comercial da Eletra, Ieda Oliveira

Conclusões são de especialistas em seminário do LIDE em São Paulo. Encontro reuniu também gestores públicos, fabricantes e investidores

ADAMO BAZANI

A eletrificação da frota de ônibus vai além da redução da poluição numa cidade.

Dependendo de como é estruturada, implantada e operada, pode financeiramente ser uma estratégia inteligente e, no fim das contas, na ponta do lápis, dar mais lucro para os cofres públicos e operadores privados do que os ônibus a diesel.

Esta foi uma das conclusões dos especialistas no seminário do LIDE de sobre eletromobilidade, realizado, em São Paulo, nesta terça-feira, 24 de fevereiro de 2026.

O encontro reuniu também gestores públicos, fabricantes e investidores.

O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, cuja cidade é a que possui a maior frota de ônibus elétricos do Brasil, mesmo ainda com as limitações de infraestrutura que impedem o cumprimento da frota planejada, afirmou, no evento, que estão já em produção mais 500 coletivos elétricos para o sistema municipal que, neste ano, devem se somar às cerca de 1,2 mil unidades já em circulação.

De acordo com Nunes, além da questão da redução da poluição, os ônibus elétricos representam uma estratégia econômica para São Paulo com o barateamento dos custos de operação.

“Não se faz nada sem estruturação financeira. Então, levantamos linhas de financiamento na ordem de R$ 6,7 bilhões em entre instituições nacionais e internacionais. Não bastasse, porém, já o ganho de reduzir a poluição e o número de mortes, o que por si só já seria a principal meta alcançada, os ônibus elétricos são economicamente vantajosos para a cidade” – disse Nunes.

O prefeito da capital paulista apresentou alguns números da economia operacional. (MAIS ABAIXO VEJA OS NÚMEROS)

Segundo Nunes, em média, a aquisição de um ônibus elétrico demanda R$ 2,8 milhões, ante R$ 800 mil de um modelo do mesmo porte a diesel.

Mas o ônibus a diesel dura 10 anos e o elétrico, 15 anos (pelo contrato da gerenciadora de São Paulo – SPTrans, mas a durabilidade pode ser maior ainda).

De acordo com os dados operacionais reais da capital paulista, somente em energia (eletricidade x diesel) o custo mensal do elétrico é de cerca de R$ 6,2 mil. Já o ônibus a combustão é de R$ 20,9 mil.

Assim, apenas em energia para tração, por ano, um ônibus elétrico traz uma economia de R$ 176,5 mil e, ao longo dos 15 anos de vida útil, esta economia será de R$ 2,6 milhões em comparação com os custos de 10 anos do ônibus diesel.

Ou seja, tão somente na questão de energia, segundo a apresentação do prefeito Ricardo Nunes, o ônibus elétrico praticamente se paga.

Mas não é somente isso.

Há outros fatores que, de acordo com a palestra, tornam os modelos elétricos mais vantajosos que o diesel, deixando-os, assim, mais lucrativos:

– Os custos de manutenção são menores

– A atratividade para os usuários é maior, logo, pode ampliar a demanda e a receita

– Ao reduzir a poluição, tanto atmosférica, como sonora, contribui para que grandes quantidades de recursos em saúde pública e privada sejam poupadas.

INSTRUMENTOS DE TRANSFORMAÇÃO E ATRATATIVIDADE:

Os ônibus elétricos não são apenas instrumentos para reduzir a poluição nas cidades, mas podem trazer um efeito a mais, extremamente necessário diante da perda de demanda dos deslocamentos coletivos: podem mudar a percepção das pessoas sobre os transportes.

Uma das expositoras foi a diretora comercial da Eletra Industrial, fabricante brasileira de ônibus elétricos, Ieda Oliveira.

De acordo com a executiva, atualmente, a sociedade tem uma outra visão sobre o que deve ser prioridade. E neste aspecto, a experiência e a qualidade dos serviços têm o mesmo peso que a finalidade dos serviços em si.

Antigamente, o transporte bastava transportar. Agora, deve atender a anseios

E por oferecer maior qualidade, menos vibrações, menos barulho e não emitirem poluentes na operação, os ônibus elétricos acabam ganhando preferência dos passageiros

“Sempre quando podem, as pessoas deixam de pegar o ônibus a diesel se têm a opção no mesmo momento do elétrico. E neste sentido, a mobilidade está inserida não apenas como deslocamento, mas como fator de decisão. A mobilidade se tornou estratégica e impacta decisões como onde morar, onde investir e onde trabalhar.” – disse Ieda.

Neste novo contexto de transformação, para a representante da empresa, a qualidade e o conforto dos modelos elétricos estão mais compatíveis com os anseios da população.

“Nesse cenário, a mobilidade elétrica surge como uma das respostas aos anseios do cidadão, oferecendo um transporte não poluente, silencioso e eficiente” – disse.

BALA DE PRATA E REALISMO VERDE

O subsecretário de Políticas para Cidades e Transporte no Governo de Goiás, Miguel Angelo Pricinote, que também é Coordenador Técnico do “Mova-se: Fórum Permanente de Mobilidade”, lembrou que a transição energética pode sim transformar a percepção dos transportes. Mas para esta transição se sustente e traga os benefícios que a população precisa é necessário fazer tudo com responsabilidade econômica e respeitando os limites de investimento de cada região, além de estar ciente da realidade de infraestrutura local. É o que, segundo o gestor, deve-se chamar de “realismo verde”.

“A descarbonização não depende de uma ‘bala de prata’, mas de uma estratégia financeira sustentável e socialmente justa. A transição energética pode ser acelerada quando fundamentada na realidade econômica regional e não apenas em aspirações tecnológicas” – disse, citando o exemplo do sistema de transportes da Região Metropolitana de Goiânia que, neste processo de redução da poluição decidiu mesclar a renovação de frota com modelos elétricos, a biometano e a diesel mais novos e menos poluentes, de padrão Euro 6.

GERAÇÃO DE EMPREGO QUALIFICADO E ESTRATÉGIA COMPETITIVA:

Ainda de acordo com os palestrantes, além das vantagens operacionais e de redução de poluição, os ônibus elétricos podem colocar de novo o Brasil como destaque internacional na indústria de veículos de transportes coletivos, voltando a ser um dos maiores exportadores, como foi no passado, posto perdido hoje para países como a China.

Isso, se alcançado novamente, geraria emprego e renda, além de fazer com que o Brasil exporte produtos de maior valor agregado. Outra vantagem é que haveria uma qualificação da mão de obra no Brasil, que elevaria a patamares salariais condizentes ao valor mais elevado de cada ônibus.

Isso seria também uma injeção direta de dinheiro na economia real, das famílias brasileiras.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

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