Informe publicitário

“No ônibus, a refrigeração é decisiva para a disponibilidade da frota”, afirma Thiago Tadeu, diretor da SPAL Brasil

Executivo diz que ventilação e gestão térmica deixaram de ser detalhe técnico e passaram a impactar diretamente a qualidade do serviço e o custo operacional das frotas

ALEXANDRE PELEGI

O que acontece dentro do sistema de ventilação de um ônibus raramente é percebido pelo passageiro — até que algo falhe. Em um cenário de maior exigência regulatória, frota climatizada e avanço dos ônibus elétricos, a gestão térmica passou a influenciar diretamente conforto, custo por quilômetro rodado e disponibilidade dos veículos.

Nesta entrevista ao Diário do Transporte, o diretor-geral da SPAL Automotive no Brasil, Thiago Tadeu de Ferreira, detalha a estratégia da empresa no país, explica por que o Brasil é ambiente estratégico de validação técnica e alerta para os riscos operacionais de peças paralelas ou recondicionadas.

Com origem na engenharia italiana e fornecedora de componentes também para marcas como Ferrari e Lamborghini, a SPAL aposta na proximidade com garagens, operadores e integradores de ar-condicionado para reforçar aplicação correta, rastreabilidade e suporte técnico.

Ao longo da entrevista, Thiago Tadeu sustenta que, no transporte coletivo, decisões técnicas aparentemente invisíveis podem ter reflexos diretos na percepção do passageiro, na manutenção e na sustentabilidade da operação.


Abertura e posicionamento no Brasil

Diário do Transporte: Para começar: qual é a sua missão como novo diretor da SPAL no Brasil e quais metas você considera “não negociáveis” para 2026?

Thiago SPAL: Minha missão é fortalecer a SPAL no Brasil como referência técnica em ventilação e gestão térmica para o transporte coletivo. Garantimos a confiabilidade, durabilidade e segurança operacional ao longo de toda a vida útil do veículo. Para 2026, considero a ampliação da proximidade com o mercado, especialmente com o mercado de ônibus, quem opera e mantém a frota no dia a dia. Qualidade, aplicação correta e suporte técnico caminham juntos.

Diário do Transporte: O que muda — na prática — na estratégia da SPAL no país com a sua chegada: foco comercial, portfólio, pós-venda, estrutura local, parcerias?

Thiago SPAL: Há uma mudança clara de postura: a SPAL passa a estar mais próxima do campo, das garagens, dos integradores e dos operadores. O foco deixa de ser apenas o portfólio e passa a incluir como o produto é especificado, instalado, operado e mantido. Também reforçamos o pós-venda técnico, com orientação de aplicação e diálogo constante com o mercado, uma abordagem mais ativa e conectada à realidade operacional brasileira.

Diário do Transporte: Como você descreve hoje o Brasil dentro do mapa global da SPAL: mercado de volume, laboratório de aplicações severas, hub regional?

Thiago SPAL: O Brasil é estratégico não só pelo volume, mas pela complexidade das aplicações. Clima severo, ciclos urbanos intensos e alta exigência operacional tornam o país um ambiente relevante para aprendizado técnico e validação de soluções. O que funciona bem no Brasil tende a funcionar em muitos outros mercados emergentes também.

Raízes históricas e DNA de engenharia

Diário do Transporte: A SPAL carrega uma história industrial forte em Correggio. Quais valores desse “DNA” você faz questão de trazer para a operação brasileira?

Thiago SPAL: Principalmente a qualidade desde o conceito dos produtos passando por como ele é desenvolvido e produzido baseado em validação, testes e entendimento profundo da aplicação real. Esse cuidado com processo, materiais e confiabilidade é central na operação brasileira.

Diário do Transporte: A marca é frequentemente associada ao universo de alta performance e ao histórico com a Ferrari. O que essa conexão representa, do ponto de vista de padrão técnico e cultura de qualidade?

Thiago SPAL: Além da Ferrari, a Spal também fornece peças para a Lamborghini e para todos os principais fabricantes de carro de luxo. Isso representa um reconhecimento de mercado construído ao longo dos anos com base em padrão técnico e disciplina de engenharia, refletidos em tolerâncias rigorosas, repetibilidade de processo, controle de qualidade e confiabilidade mesmo em condições extremas. Esse mesmo rigor é aplicado ao transporte coletivo, onde a exigência operacional é igualmente crítica e a confiabilidade dos sistemas tem impacto direto na disponibilidade da frota e na qualidade do serviço.

Diário do Transporte: Onde a SPAL mais evoluiu nos últimos anos: eficiência, durabilidade, ruído, eletrônica/controle, materiais, processos?

Thiago SPAL: A evolução ocorreu de forma consistente em durabilidade, redução de ruído e robustez de materiais e processos, sempre com uma visão integrada do sistema e foco em aplicações cada vez mais severas. Esse avanço contínuo reflete o compromisso da SPAL com confiabilidade operacional, eficiência e desempenho ao longo de toda a vida útil do produto.

Por que “ar” virou ativo estratégico no ônibus (e mais ainda no elétrico)

Diário do Transporte: No ônibus urbano, qual é a frase que resume a importância da gestão térmica hoje: conforto, confiabilidade, custo por km, disponibilidade de frota… ou tudo junto?

Thiago SPAL: É tudo junto: conforto do passageiro, confiabilidade do sistema e disponibilidade da frota. Quando a gestão térmica falha, o impacto aparece rapidamente tanto financeiramente, com multas do órgão fiscalizador, aumento de manutenção e veículo parado, quanto na percepção da população, especialmente em veículos com vidros lacrados e sem ventilação natural.

Diário do Transporte: Nos elétricos, o que muda no jogo da climatização e ventilação em comparação ao diesel?

Thiago SPAL: A ventilação e a refrigeração tornam-se ainda mais críticas. Falhas impactam não só o conforto, mas também autonomia e disponibilidade do veículo, exigindo maior cuidado na especificação, controle e confiabilidade dos componentes.

Diário do Transporte: Que tipo de dor o operador sente primeiro quando há problema na ventilação/refrigeração?

Thiago SPAL: Normalmente, a primeira consequência é a perda de disponibilidade da frota, que rapidamente se transforma em reclamação de passageiros e aumento do custo operacional. Quando a gestão térmica falha, o impacto deixa de ser apenas técnico e passa a afetar diretamente a qualidade do serviço prestado.

Ar-condicionado no transporte coletivo: conforto, saúde e operação

Diário do Transporte: O ar-condicionado deixou de ser diferencial e virou requisito em muitas cidades. Na prática, o que isso muda na exigência sobre componentes de ventilação?

Thiago SPAL: Os componentes passam a ser críticos para a operação, elevando a exigência em durabilidade, estabilidade de desempenho e segurança elétrica. Com o ar-condicionado tornando-se parte essencial da experiência do passageiro, qualquer falha deixa de ser apenas técnica e passa a impactar diretamente a disponibilidade da frota e a qualidade do serviço.

Diário do Transporte: Dentro de um sistema de A/C, onde entram os produtos da SPAL e que falhas vocês mais veem no campo?

Thiago SPAL: Os produtos da SPAL atuam diretamente na ventilação e movimentação de ar, viabilizando a troca térmica no evaporador e no condensador para que o sistema funcione conforme projetado. As falhas mais comuns estão ligadas a aplicação incorreta, dimensionamento inadequado ou manutenção fora do recomendado. Além disso, o recondicionamento de eletroventiladores pode gerar falhas graves, inclusive riscos elétricos que comprometem a segurança da operação.

Diário do Transporte: Quais indicadores você recomenda que as garagens acompanhem para “pegar cedo” um problema?

Thiago SPAL: Mais do que métricas específicas, é essencial observar comportamentos anormais, como ruídos fora do padrão, queda de desempenho e recorrência de falhas. Boas práticas de inspeção preventiva fazem grande diferença para antecipar problemas, reduzir paradas não programadas e preservar a confiabilidade da operação.

Diário do Transporte: Em clima extremo, quais erros derrubam o desempenho?

Thiago SPAL: Limpeza inadequada, vedação comprometida e instalações elétricas mal executadas são as causas mais frequentes. Em ambientes severos, esses fatores reduzem significativamente a eficiência do sistema e podem antecipar falhas que impactam a disponibilidade do veículo.

Refrigeração de motor e outros sistemas

Diário do Transporte: Além do A/C, a SPAL atua em refrigeração e ventilação de outros conjuntos. Quais aplicações em ônibus e veículos pesados mais crescem hoje?

Thiago SPAL: A Spal também fornece ventiladores para caminhões, refrigeração e aplicações fora da estrada (off-highway) e tratores. Outro destaque fora das aplicações em ônibus é o mercado de refrigeração de data centers, impulsionado pelo uso em massa da inteligência artificial e pela necessidade de servidores de alto processamento que exigem sistemas de resfriamento cada vez mais confiáveis.

Diário do Transporte: O que mais castiga um eletroventilador urbano?

Thiago SPAL: Principalmente o ciclo intenso de operação, somado à exposição constante a poeira, umidade, água e, muitas vezes, instalações fora da especificação ideal. Esse conjunto de fatores acelera o desgaste dos componentes e pode comprometer a confiabilidade ao longo do tempo, especialmente em aplicações urbanas severas.

Peça original x paralela: o risco que o operador muitas vezes subestima

Diário do Transporte: Por que trocar eletroventilador por peça paralela pode sair caro? Onde o prejuízo aparece primeiro?

Thiago SPAL: Porque o prejuízo surge de várias formas: perda de desempenho, falhas prematuras, consumo elétrico inadequado e impacto na disponibilidade da frota. Um sistema de A/C envolve meses ou anos de engenharia, testes e validação. Instalar uma peça fora das especificações compromete todo esse desenvolvimento com riscos que podem chegar inclusive a falhas elétricas graves, como aquecimento excessivo e até incêndios.

Diário do Transporte: Quais são os riscos típicos de um produto recondicionado?

Thiago SPAL: Fluxo de ar menor, consumo elétrico inadequado, aquecimento do chicote, ruído, vibração, desbalanceamento e perda de desempenho ao longo do tempo são riscos frequentes quando o componente não atende às especificações originais. Por se tratar de um item elétrico, também existem implicações de segurança, podendo evoluir para falhas mais graves, inclusive com risco de incêndio no veículo.

Diário do Transporte: Que alerta você deixa sobre rastreabilidade, garantia e responsabilidade quando se usa peça não original?

Thiago SPAL: Em componentes críticos, rastreabilidade e responsabilidade técnica são fundamentais. Sem origem clara, validação adequada e garantia compatível com a aplicação, o risco operacional deixa de ser do fabricante e passa a recair sobre o operador, com possíveis impactos na segurança, na confiabilidade e na disponibilidade da frota.

Diário do Transporte: Como a SPAL orienta o mercado a identificar produto original e evitar falsificações ou cópias?

Thiago SPAL: A identificação passa por elementos como embalagem adequada, códigos de rastreabilidade, documentação técnica e comercialização por canais autorizados. Recomendamos sempre adquirir produtos de fontes confiáveis, garantindo procedência, suporte técnico e conformidade com as especificações da aplicação.

Diário do Transporte: Na prática: qual é o “conto do barato” mais recorrente que você já viu em frota — e como ele termina?

Thiago SPAL: É uma “economia imediata” que, com o tempo, se transforma em mais paradas, mais manutenção e maior custo total de operação. Quando um eletroventilador Spal é substituído por uma solução recondicionada, por exemplo, o impacto se manifesta ao longo do ciclo de uso na forma de falhas prematuras, redução de desempenho e parada de veículos, resultando em menor disponibilidade da frota.

No médio prazo, essa economia deixa de existir e acaba sendo substituída por aumento do custo por quilômetro rodado, maior pressão sobre a manutenção e insatisfação do passageiro. Por isso, a decisão mais econômica nem sempre é a de menor preço inicial, mas sim aquela que garante confiabilidade e estabilidade ao longo de toda a operação.

Estratégia, suporte e pós-venda

Diário do Transporte: Qual é o plano da SPAL para ampliar presença no Brasil?

Thiago SPAL: Fortalecer a presença da SPAL junto aos clientes finais, evidenciando a confiabilidade técnica dos nossos produtos e o menor custo total de propriedade ao longo da operação, quando comparado a soluções de menor durabilidade.

Esse movimento envolve maior proximidade com as frotas, desenvolvimento de canais qualificados, disponibilidade adequada de estoque local e iniciativas de capacitação técnica, sempre com foco em desempenho operacional e continuidade do serviço.

Diário do Transporte: O que vocês oferecem em suporte técnico?

Thiago SPAL: A SPAL trabalha para ampliar a disponibilidade de boletins técnicos, treinamentos, palestras, parcerias com instituições e presença direta junto aos clientes, além de orientação adequada de aplicação. O objetivo é atuar de forma preventiva, evitando falhas antes que elas cheguem à frota e contribuindo para maior confiabilidade e continuidade da operação.

Diário do Transporte: Como vocês trabalham com fabricantes e integradores para garantir especificação correta desde a origem?

Thiago SPAL: A atuação da SPAL é colaborativa desde as fases iniciais de desenvolvimento e especificação, trabalhando em conjunto com fabricantes de carrocerias, de ar-condicionado e montadoras de chassis para garantir que cada solução esteja corretamente dimensionada para a aplicação. Esse processo envolve análise de requisitos térmicos, integração elétrica e eletrônica, validação de desempenho e alinhamento com as condições reais de operação, assegurando confiabilidade e eficiência desde a origem do projeto.

Ao antecipar essas definições ainda na fase de engenharia, é possível reduzir riscos ao longo do ciclo de vida do veículo, minimizar ocorrências em campo e contribuir para a qualidade do serviço prestado ao passageiro.

Diário do Transporte: Há projetos direcionados ao ônibus elétrico?

Thiago SPAL: A SPAL é reconhecida pela combinação de alta eficiência energética, baixo nível de ruído e elevada confiabilidade de seus produtos, características especialmente relevantes para aplicações em ônibus elétricos.

Nossas soluções permitem integração com diferentes arquiteturas de controle presentes no mercado, incluindo sinais analógicos, PWM, CAN e LIN, por meio de eletroventiladores eletrônicos inteligentes brushless, com recursos de diagnóstico e monitoramento conforme a necessidade de cada aplicação.

Tendências e recados finais

Diário do Transporte: Qual tendência você enxerga como inevitável no setor?

Thiago SPAL: Nos produtos SPAL, observamos a evolução contínua da eletrônica embarcada, com eletroventiladores brushless cada vez mais inteligentes e integrados aos sistemas do veículo. Ao mesmo tempo, nas frotas de transporte coletivo, cresce a compreensão de que o conforto do passageiro é essencial para atrair e manter usuários no sistema, e um ar-condicionado operando com qualidade, eficiência e confiabilidade torna-se elemento central dessa experiência.

Diário do Transporte: Se você tivesse de dar três recomendações objetivas para um operador reduzir parada de frota por problemas térmicos, quais seriam?

Thiago SPAL: Utilizar componentes corretamente especificados e dimensionados. Realizar manutenção preventiva estruturada, com checklist de ventiladores, pressões, sensores e demais itens críticos. Garantir isolamento térmico adequado do conjunto.

Diário do Transporte: Para fechar: qual mensagem você deixa para o passageiro e para a garagem sobre o “trabalho invisível” do ar dentro do ônibus?

Thiago SPAL: Para o passageiro, o resultado esperado é conforto térmico e segurança ao longo de toda a viagem. Para a garagem, significa confiabilidade, disponibilidade da frota e operação sem interrupções. Esse é o trabalho invisível da gestão térmica: quando tudo funciona corretamente, ele quase não é percebido, mas é essencial para a qualidade do serviço e para a eficiência do transporte coletivo.

Diário do Transporte: A SPAL estará presente na próxima Lat.Bus. Qual é a importância desse evento?

Thiago SPAL: Diante da dimensão do mercado de ônibus no Brasil, tanto urbano quanto rodoviário, a LatBus é um evento estratégico para a SPAL. Trata-se de uma oportunidade de dialogar diretamente com operadores, gestores de frota e profissionais do setor, apresentando como soluções confiáveis de ventilação e gestão térmica contribuem para reduzir falhas operacionais, aumentar a disponibilidade dos veículos e melhorar a eficiência do sistema de transporte.

Diário do Transporte: Que novidades a SPAL pretende apresentar ao mercado durante a feira?

Thiago SPAL: A SPAL apresentará sua linha de motores brushless, caracterizada por maior durabilidade, eficiência energética e inteligência embarcada por meio de software integrado aos sistemas do veículo. Essas soluções são especialmente relevantes para aplicações em ônibus elétricos e sistemas de climatização, onde confiabilidade, controle preciso e desempenho térmico consistente são fatores críticos para a operação.

Além dos eletroventiladores, a SPAL também atua na movimentação de líquidos, com bombas d’água elétricas nas potências de 300 W, 650 W e 900 W, ampliando a atuação em sistemas de gestão térmica.

Para 2026, a empresa prepara a expansão do portfólio com novos modelos de ventiladores de alta tensão (HV), alinhados às tendências de eletrificação e às demandas futuras do transporte coletivo.


Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

Informe Publicitário
Assine

Assinar blog por e-mail

Digite seu endereço de e-mail para assinar este blog e receber notificações de novas publicações por e-mail.

     
Comentários

Deixe uma resposta

Descubra mais sobre Diário do Transporte

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading