Quando o ônibus deixa a rodoviária para ganhar o passageiro
Publicado em: 7 de fevereiro de 2026
Embarques descentralizados desafiam a lógica tradicional do transporte rodoviário
ALEXANDRE PELEGI
Ganhar o passageiro antes mesmo de ele chegar à rodoviária passou a ser um novo eixo de disputa no transporte rodoviário interestadual. A autorização para embarques e desembarques fora dos terminais tradicionais, como no caso da ligação São Paulo–Rio de Janeiro, expõe como a chamada “primeira milha” se tornou um fator decisivo de competitividade entre as empresas.
Em conversa com o Diário do Transporte, o advogado e consultor especializado em regulação e operação do transporte rodoviário de passageiros, Ilo Löbel da Luz, avalia que a descentralização dos embarques altera de forma estrutural a lógica de planejamento do setor.
“Essa autorização evidencia que a disputa pelo passageiro começa antes da viagem em si. Não é apenas o preço da passagem que está em jogo, mas o tempo e o esforço que o usuário precisa fazer para acessar o serviço”, afirmou.
A recente Decisão SUPAS nº 1.947, publicada em dezembro de 2025, autorizou a operação da linha São Paulo–Rio de Janeiro com pontos de embarque e desembarque fora das rodoviárias convencionais. A medida permitiu, por exemplo, a utilização de locais como shoppings e áreas integradas ao transporte urbano, aproximando o ônibus do cotidiano do passageiro.
Segundo Löbel da Luz, o modelo tradicional, baseado exclusivamente nas rodoviárias centrais, passou a gerar perdas de competitividade, especialmente nas grandes metrópoles.
“Em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, o deslocamento até a rodoviária pode ser um gargalo maior do que o próprio trajeto rodoviário. Isso pesa na decisão do passageiro quando ele compara o ônibus com outros modais”, explicou.
Historicamente, o transporte rodoviário interestadual exigiu que o usuário se deslocasse até áreas centrais para iniciar a viagem. Com a intensificação dos congestionamentos e a fragmentação da mobilidade urbana, esse modelo passou a consumir tempo excessivo e reduzir a atratividade do ônibus frente ao transporte aéreo e a serviços por aplicativo.
Para o especialista, a utilização de terminais privados autorizados ou pontos de parada em regiões de alta densidade populacional representa uma mudança de paradigma.
“O foco deixa de ser a operação estática, terminal a terminal, e passa a ser uma lógica de conveniência, capilaridade e leitura do território urbano”, disse.
Do ponto de vista regulatório, Löbel da Luz observa que os embarques descentralizados ampliam o leque de atributos competitivos das empresas, indo além da tarifa.
“A empresa passa a competir também pelo custo-tempo da jornada. Reduzir a primeira milha significa entregar valor ao passageiro sem necessariamente mexer no preço da passagem”, avaliou.
Ele ressalta que esse movimento dialoga diretamente com o ambiente pós-marco regulatório do transporte rodoviário interestadual, no qual eficiência operacional, qualidade do serviço e experiência do usuário ganham maior relevância.
“A sustentabilidade das operações futuras pode depender menos da infraestrutura centralizada das rodoviárias e mais da inteligência em desenhar rotas que façam sentido para o deslocamento urbano real”, afirmou.
Para Löbel da Luz, a descentralização não significa o esvaziamento das rodoviárias, mas uma reconfiguração do papel desses equipamentos.
“As rodoviárias continuam importantes, mas não atendem igualmente todos os perfis de passageiros. O sistema passa a admitir soluções diferentes para mercados diferentes”, ponderou.
Na avaliação do consultor, embora ainda seja cedo para afirmar que esse será o modelo dominante, o movimento tende a se expandir.
“Não parece uma exceção pontual. Tudo indica que estamos diante do início de um novo padrão de serviço, especialmente em mercados de alta demanda e forte concorrência”, concluiu.
O caso serve de alerta para gestores públicos, reguladores e operadores: a discussão sobre o futuro do transporte rodoviário passa, cada vez mais, pela integração com a mobilidade urbana e pela capacidade de conquistar o passageiro desde o primeiro quilômetro da viagem.
Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes


Realmente os tempos atuais exigem uma maior flexibilidade logística, com mais opções de embarque e desembarque aos passageiros.
Entretanto continuará sendo importante a existencia das rodoviárias centrais, como um ponto de referência aonde acessa-se diferentes opções de rotas e de operadores, especialmente aos viajantes em trânsito.
Descentralizar o ponto de embarque em linhas intermunicipais regulares acaba equivalendo o transporte aos aplicativos de carona, que oferecem transporte conforme o interesse do condutor, ainda que seja um serviço pago.
Esse descentralizamento já existe quando passageiros intermunicipais embarcam ou desembarcam fora da rodoviária, em rotas únicas, nos pontos de ônibus dentro do trajeto.
Importante esse movimento, porém além da conquista de mais clientes, é essencial buscar, redução de custos operacionais, tempo de percurso, ( exemplo: resido em Hortolândia SP, ano passado fiz viagem de ônibus paea Blumenau SC ) . Foi estressante, altíssimo custos, (24 horas). Hortolândia X Campinas X São Paulo X Zona Oeste SP X e um pinga X pinga até Blumenau. Na próxima avião ou carro. O que era uma viagem de visita ao meu filho e October fest. Cheguei puto de raiva. O retorno idem.