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Descarbonização dos ônibus não pode ser aposta isolada, alerta Niege Chaves em Forum do DETRO-RJ

Niege Chaves, em painel no Fórum do Detro-RJ. Crédito: Emanuele Cassemiro/Primova

Empresária da Mobibrasil defendeu políticas públicas estruturadas, enquanto Juliana Floro, da Naturgy, apresentou o gás natural como alternativa segura de transição energética

ALEXANDRE PELEGI

As diferentes rotas possíveis para a descarbonização do transporte coletivo estiveram no centro do painel “Alternativas de Fontes de Energia Limpa para a Descarbonização das Frotas do Transporte Público Coletivo”, realizado durante o Fórum de Transição Energética do Detro-RJ nesta terça-feira, 03 de fevereiro de 2025. De um lado, a experiência prática da operação de ônibus elétricos e de projetos que não prosperaram; de outro, a defesa do gás natural como vetor de transição segura e imediata. O encontro reuniu visões que, embora partam de tecnologias distintas, convergem em um ponto central: sem política pública estruturada, não há transição energética sustentável.

A presidente do Conselho da MobiBrasil, Niege Chaves, trouxe um relato direto de quem vive a operação no dia a dia. Para ela, a descarbonização não pode ser tratada como uma aposta isolada do empresário. “Transição energética no transporte só funciona como política pública, não como aposta isolada”, afirmou. Segundo Niege, a simples troca de tecnologia não resolve o problema se não vier acompanhada de planejamento, financiamento e coordenação entre poder público, operadores e sociedade.

A executiva relembrou a experiência da MobiBrasil com ônibus a etanol, iniciada em São Paulo em 2011, como exemplo dos riscos da descontinuidade. “O projeto de etanol foi um fracasso. A redução de carbono era excelente, mas faltou escala, faltou apoio político e faltou continuidade”, disse. Na avaliação dela, mudanças de governo e a ausência de um compromisso institucional de longo prazo inviabilizaram a iniciativa, que acabou sendo encerrada em 2016. “Acreditei que aquele era um primeiro passo para a transformação e depois tive que dar três passos para trás”, resumiu.

Ao tratar da eletrificação da frota paulistana, Niege reconheceu avanços, mas voltou a alertar para decisões tomadas sem o devido preparo. “Não dá para proibir o diesel sem planejar infraestrutura, energia e financiamento”, afirmou, citando o envelhecimento da frota e o aumento de custos operacionais como efeitos colaterais da falta de planejamento. Ainda assim, destacou que o modelo de subvenção adotado em São Paulo mostra que, quando há política pública clara, o projeto avança e tende a se sustentar economicamente no médio prazo.

Complementando esse olhar, a representante da Naturgy, Juliana Floro, apresentou o gás natural como uma alternativa de transição energética imediata, segura e confiável para o transporte coletivo. Segundo ela, a substituição do diesel pelo gás natural pode reduzir em cerca de 20% as emissões de CO₂ e em até 90% o material particulado, com impactos diretos na qualidade do ar e na saúde da população. “Quando falamos de transição energética, precisamos lembrar que ela tem de ser segura e confiável”, destacou.

A executiva lembrou que o Rio de Janeiro já é líder nacional no uso do GNV, com aproximadamente 1,7 milhão de veículos abastecidos por essa matriz e mais de 700 postos instalados, o que cria uma base favorável para a ampliação do uso no transporte público. “O GNV foi âncora para a expansão da rede e hoje temos uma grande quilometragem pronta para atender novos segmentos, como os ônibus”, afirmou. Segundo ela, as 37 garagens de ônibus da cidade já foram mapeadas e têm condições técnicas de atendimento com gás natural.

Outro ponto ressaltado foi a possibilidade de integração futura com o biometano. “O gás natural é totalmente intercambiável com o biometano. A partir do momento em que a garagem está adaptada e conectada à rede, a operação pode migrar automaticamente quando o biometano for injetado”, explicou. A empresa informou que já estuda, junto aos órgãos reguladores, novos modelos de atuação para ampliar investimentos em infraestrutura e facilitar a adoção da tecnologia pelas empresas operadoras.

Apesar das diferenças tecnológicas, as duas exposições dialogaram ao reforçar que a transição energética exige visão sistêmica. Enquanto Niege Chaves alertou para os riscos de projetos sem continuidade e defendeu planejamento de longo prazo, a Naturgy apresentou o gás natural como uma solução de transição capaz de gerar ganhos ambientais imediatos, aproveitando a infraestrutura já existente. Em comum, ficou a mensagem de que descarbonizar o transporte coletivo não é uma decisão isolada nem imediatista, mas um processo gradual, que precisa ser construído com base técnica, segurança regulatória e compromisso público duradouro.

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

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