Presidente do Sindicato das Empresas de Transporte Rodoviário Interestadual e Intermunicipal de Passageiros de Goiás aponta os grandes desafios do setor em 2026, sob regras mais rígidas da ANTT e pressão por profissionalização
ALEXANDRE PELEGI
À frente da entidade que representa as empresas do transporte rodoviário interestadual e intermunicipal de passageiros em Goiás, Abadio Cardoso Neto acredita que 2026 será um ano decisivo para o setor. Para ele, os desafios vão muito além da tecnologia e da renovação da frota — passam, sobretudo, pela profissionalização da gestão, pela formação de mão de obra qualificada e pela adaptação a um ambiente regulatório mais rigoroso imposto pela ANTT.
Com trajetória ligada à operação e à gestão do transporte rodoviário de passageiros, Cardoso Neto acompanha de perto as transformações do setor. Ao analisar o cenário para 2026, ele observa que o maior gargalo já não está apenas nos custos ou na concorrência, mas na capacidade das empresas de se adaptarem a uma nova lógica de gestão.
A seguir, entrevista concedida por Abadio ao Diário do Transporte:
Mão de obra
“Estamos enfrentando um desafio enorme na renovação da mão de obra. Funções essenciais, como mecânicos e motoristas, continuam exigindo conhecimento técnico, esforço físico e, acima de tudo, amor pela profissão. E isso não se constrói da noite para o dia”, dispara o dirigente do Sintripe-GO.
Segundo Cardoso Neto, o setor falhou, ao longo do tempo, em transmitir esses valores às novas gerações: “Agora, é fundamental criar um ambiente de aprendizagem dentro das empresas, com processos bem definidos e valorização das pessoas. Sem isso, não há tecnologia que resolva.”
Ele destaca ainda que o papel do gestor de operação também mudou: “Hoje, não basta olhar números. É preciso humanizar a relação com o motorista, praticar a escuta ativa. O resultado aparece quando há confiança e diálogo.”
Tecnologia exige mudança cultural, não apenas sistemas
Abadio Neto reconhece também que a digitalização das operações é irreversível, mas alerta que a tecnologia, sozinha, não garante eficiência: “Telemetria, sistemas integrados, gestão de dados… tudo isso melhora resultados, sim. Mas só funciona se as pessoas estiverem preparadas para usar essas ferramentas.”
Além disso, o presidente do Setrinpe-GO, aleta que, se por um lado a tecnologia reduziu tarefas braçais, na outra ponta ela ampliou a necessidade de competências humanas e gerenciais.
Regulação da ANTT e o fim do improviso
Ao comentar o novo ambiente regulatório, Cardoso Neto afirma que as resoluções da ANTT representam um divisor de águas para o transporte rodoviário interestadual: “O grande desafio agora não é entrar no sistema, mas permanecer com qualidade. As novas regras criam, na prática, uma porta de saída para operadores ineficientes.”
Segundo o empresário e dirigente do Sintripe-GO, o setor conviveu por tempo demais com empresas que iniciavam operações sem planejamento adequado e que esse amadorismo gera endividamento, serviços ruins e prejudica todo o mercado: “Transportar vidas é coisa séria. Não é licença para operar como carrinho de picolé.” Nesse sentido, Abadio Neto acredita que o endurecimento da regulação tende a qualificar o setor no médio prazo, ainda que cause ajustes dolorosos no curto.
Custos elevados e decisões difíceis
A gestão de custos será um dos maiores pontos de atenção em 2026 e, para Abadio Neto, insistir em linhas deficitárias sem base em dados é um erro cada vez mais comum e que passa por antigos conceitos do setor que não se aplicam à realidade atual.
“Meu avô dizia que ônibus parado na garagem era prejuízo. Hoje, isso não é mais verdade absoluta. Em alguns casos, parar pode ser uma estratégia conservadora diante de custos tão elevados”, afirma o presidente do Sintripe-GO que ainda complementa: “A profissionalização exige saber, com clareza, quais linhas dão resultado e quais não. Manter operação no prejuízo cria passivos que depois se tornam impagáveis.”
Fluxo de caixa e renovação de frota
Outro ponto de alerta é a mudança no perfil de recebimento das empresas: “Antigamente, a passagem era paga em dinheiro, antes da viagem. Hoje, a venda online é fundamental, mas o recebimento vem parcelado.”
Essa mudança, segundo Abadio, exige um controle financeiro muito mais rigoroso e, de novo, redefine como o gestor precisa olhar para o seu negócio: “Meu pai sempre dizia que o negócio de ônibus era bom porque recebíamos antes de prestar o serviço. Essa lógica mudou completamente. Sem fluxo de caixa bem planejado, a empresa quebra.”
Dentro também da questão financeira, Abadio aponta outro dilema central para 2026 e que é a renovação da frota: “Renovar é necessário para reduzir manutenção e manter competitividade. Mas o custo de capital está altíssimo.”
Ele cita a Selic em torno de 15% e spreads bancários que elevam o custo do financiamento a patamares próximos de 20% ao ano e como é preciso ter cautela para que um endividamento mal planejado não comprometa a empresa por anos.
Mas Abadio Neto ressalta também o outro lado da moeda, falando sobre o impacto direto da economia sobre o perfil dos passageiros: “Nossos clientes das classes C e D sentem primeiro qualquer desaceleração. Somos limitados para repassar custos, porque o passageiro é extremamente sensível ao preço. E quando a economia aperta, a rodoviária sente imediatamente.”
Planejamento, dados e responsabilidade
Ao projetar o futuro do setor, Abadio Cardoso Neto reforça que 2026 exigirá decisões estratégicas e, muitas vezes, impopulares, mas que, se a gestão for baseada em dados, planejamento financeiro e responsabilidade, as empresas terão um desempenho positivo: “Os desafios são grandes, mas também representam a chance de construirmos um setor mais sólido, responsável e preparado para o futuro.”
Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes
