ANIVERSÁRIO DE SÃO PAULO – ESPECIAL: As empresas de ônibus que receberam em 1974 prorrogações de permissão antes do “saia e blusa”
Publicado em: 25 de janeiro de 2026
Maior parte das companhias, de porte pequeno e familiares, foram engolidas por grandes grupos empresariais
ADAMO BAZANI
Colaborou Arthur Ferrari
A cidade de São Paulo se tornou gigante e, em muitos setores, somente os grandes grupos empresariais predominaram, pela estrutura, recursos, capacidade de respostas rápidas a necessidades urgentes de altos investimentos e, deixando a ingenuidade de lado, também por ligações e alianças políticas.
É o caso dos transportes coletivos.
Neste ano de 2026, quando São Paulo completa 472 anos, o sistema de ônibus da capital paulista permanece sendo maior da América Latina, transportando por dia cerca de sete milhões de passageiros, com uma frota cadastrada de quase 13,5 mil coletivos que circulam em pouco mais de 1,3 mil linhas. Todo este universo, com números superiores a de populações brutas de muitas nações inteiras, pela proporção é operada por poucas empresas de ônibus, um total de 24, sendo que um grupo empresarial pode ter mais de uma companhia, o que mostra uma concentração grande do controle empresarial do sistema: Santa Brígida, Gato Preto, Sambaíba, Metrópole Paulista, ViaSudeste, Mobibrasil, Grajaú, Ambiental, Transppass, Campo Belo, Gatusa, Express, KBPX, e as viações que surgiram de cooperativas: Spencer, Norte Buss, Transunião, UPBUs (sob intervenção da SPTrans), Pêssego, Allibus, Movebuss, A2 Transportes, Transwolff (sob intervenção da SPTrans), AutoBless, AlfaRodobus.
Mas, há não muito tempo, antes da maior reorganização do sistema de linhas e divisão de grupos empresariais que a cidade teve, em 1978, quando foi instaurado o chamado sistema “saia e blusa” das pinturas de ônibus, o número de empresas de transportes na cidade era bem grande e o de passageiros, logicamente, bem menor. A cor da saia, parte inferior da carroceria, da altura das rodas para baixo, indicava a região atendida. A blusa, parte acima desta área da carroceria, tinha cor e pintura livre a critério das empresas. Foi nesta época que surgiram consórcios e associações.
Até então, a maioria das viações era de pequeno porte, com até 10 ônibus (ou menos, em diversos casos)
Neste dia 25 de janeiro de 2026, Aniversário de São Paulo, o Diário do Transporte traz um documento histórico, oficial, de 31 de julho de 1974, que se trata do decreto de prorrogação até 31 de dezembro de 1977, dos prazos de validade dos Termos de Permissão outorgados a viações privadas pela empresa da prefeitura Companhia Municipal de Transportes Coletivos (CMTC), que era operadora e gestora, рarа еxploração de linhas de ônibus.
O documento é um registro raro, que vale a pena ser conferido e guardado por quem estuda a história dos transportes e da própria evolução de São Paulo, cujo desenvolvimento se deve e muito aos serviços de ônibus.
Se em 2026, são 24 empresas de ônibus que transportam sete milhões de passageiros, em 1974, eram 73 viações para cerca de um milhão.
Veja a relação, muitos vão se lembrar destes nomes no decreto do então prefeito Miguel Colasuonno:
ABC Transportes Coletivos Ltda;
Alto da Moóca Ltda. Empresa de Ônibus;
Alto do Pari Ltda. Empresa A. Ônibus;
Americanópolis T. Urbanos S/A Garagem;
Anastácio S/A. E. Auto Ônibus;
Bandeirante Ltda. Viação;
Bandeirante Ltda. Viação;
Bola Branca Ltda. Viação;
Brasil Luxo Ltda. A. Viação;
Brasília S/A Viação;
Brasilusa Ltda. Viação;
Braspol Ltda. A. Viação;
Bristol Ltda. Viação;
Campo Belo Ltda. Viação;
Canaă S/A Viação;
Caribe Ltda. A. Viação;
Castro S/A Viação;
Centro-Oeste Ltda. Viação;
Cidade Leonor Ltda. Viação;
Companhia Auxiliar de T. Coletivos;
Consolata Ltda. ;
Constância Transporte T. Ltda. ;
Empresa Paulista de Ônibus Ltda.;
Estrela Dalva Ltda. Viação;
Gato Preto S/A Viação;
Ipiranga S/A Viação;
Itamarati Ltda. Viação;
Itaquera Ltda. V.A. Ônibus;
Jardim Miriam Ltda. Viação;
Jurema Ltda. A. Viação;
Lapa Moinho Velho Ltda. E.A. Ônibus;
Lapa Transportes Coletivos S/A;
Leste Oeste S/A Viação;
Mar Paulista Ltda. Viação e Garagem;
Moema Ltda. A. Viação;
Nações Unidas S/A A. Viação;
Nefer Ltda. Viação;
Nossa Senhora do Socorro Ltda. Viação;
Parada Inglesa S/A E. A. Ônibus;
Paratodos S/A Viação;
Penha – São Miguel Ltda. E.A. Ônibus;
Pompéia S/A Auto Viação;
Real Parque Ltda. Viação;
Rio Bonito S/A Viação;
Santa Amélia Ltda. Viação;
Santa Cecília S/A V.A. Ônibus;
Santa Cruz Ltda. Viação;
Santa Madalena S/A Viação;
Santa Marina Ltda. Viação;
Santo Estevam Ltda. E. Ônibus;
São Benedito Ltda. Viação;
São Geraldo Ltda. E. Onibus;
São João Clímaco Ltda. A. Viação;
São José S/A Viação;
São Lucas Ltda. Viação;
São Luiz Viação Ltda. Empresa;
São Paulo Ltda. Viação;
Senhor do Bonfim Ltda. Viação;
Sete de Setembro Ltda. Viação;
Taboão S/A E. Auto Viação;
Tabu Ltda. A. Viação;
Tânia de Transportes Ltda. Viação;
Tupi T. Urbanos Piratininga S/A;
Tupinambá Ltda. Viação;
Tusa – Transportes Urbanos S/A;
Util – União Transp. Interm. Ltda.;
Viação Urbana Penha S/A;
Vila Carrão Ltda. E.A. Ônibus;
Vila Ema Ltda. E. Ônibus;
Vila Hamburguesa S/A E.A. Ônibus;
Vila Ipojuca S/A E. Ônibus;
Vila Paulina Ltda. E. Ônibus;
Vila Pirituba Lida. E.A. Ônibus;



O SISTEMA SAIA E BLUSA
O sistema “saia e blusa”, que já foi tema de reportagem histórica no Diário do Transporte, trata-se de um dos elementos que integraram uma reorganização tão importante dos transportes da cidade de São Paulo, que influencia até hoje o sistema de ônibus da capital paulista. Em 1978, a equipe do então prefeito Olavo Setúbal (agosto de 1975 a julho de 1979), incluindo o secretário de transportes Adriano Murgel Branco, tenta reorganizar os transportes. Surge a primeira padronização das cores pela qual a parte de baixo dos ônibus (chamada de saia) indicava a região a ser servida. Foi a primeira padronização de pinturas de acordo com região atendida que São Paulo teve. Ficou uma marca nos transportes da cidade e até hoje, os ônibus são mais identificados pela cor da região que atendem que pelo nome da empresa
No sistema Saia e Blusa, a cor da saia do ônibus, que é a parte abaixo do friso ao longo da carroceria, na altura das rodas dos veículos, determinava a região atendida. A cor da blusa (parte acima deste friso) poderia ser escolhida pela empresa operadora
Cor da Saia – Região
Marrom – Zona Norte (Vila Maria, Vila Guilherme, Santana e Tucuruvi)
Amarelo – Zona Leste (Penha, Cangaíba, Erm. Matarazzo, São Miguel Pta. e Itaim Paulista)
Rosa – Zona Sudeste/Zona Leste (Moóca, Tatuapé, Vila Prudente, Vila Matilde, Itaquera e Guianazes)
Vermelho – Zona Sul (Indianópolis, Santo Amaro e Capela do Socorro)
Azul Escuro – Zona Sul/Zona Sudeste (Aclimação, Ipiranga e Saúde)
Azul Claro – Zona Sul (Vila Mariana e Jabaquara)
Laranja – Zona Sudoeste (Butantã e Morumbi)
Verde Escuro – Zona Oeste (Lapa, Perdizes, Perus e Pirituba)
Verde Claro – Zona Noroeste (Casa Verde, Limão, Freguesia do Ó, Vila Brasilândia e Jaraguá)
Empresas que operaram no esquema Saia e Blusa
Lote Empresa
101 Auto Viação Brasil Luxo Ltda.
102 Auto Viação Nações Unidas Ltda. e Empresa Auto Ônibus Parada Inglesa Ltda.
103 Empresa Auto Ônibus Alto do Pari Ltda.
104 Empresa Auto Ônibus Penha São Miguel Ltda.
105 Consórcio Leste-Oeste (Empresa de Ônibus Viação São José Ltda. e Viação Leste-Oeste Ltda.)
106 Auto Viação Tabú Ltda. e Auto Viação Pompéia Ltda.
107 Consórcio Aricanduva (Empresa de Ônibus Santo Estevam Ltda. e Empresa Auto Ônibus Vila Carrão Ltda.)
108 Auxiliar e Alto da Mooca, ou Consórcio Sudeste (Companhia Auxiliar de Transportes Coletivos e Viação Urbana Transleste Ltda.) Depois a Alto da Mooca virou Transleste e a Vila Ipojuca virou Gato Branco
109 COOPERNOVE (Empresa Paulista de Ônibus Ltda. e Empresa de Ônibus Vila Ema Ltda.)
110 Empresa Auto Viação Taboão S.A. e Auto Viação São João Clímaco Ltda.
111 Viação Bristol Ltda.
112 Consórcio Jabaquara (Viação Paratodos Ltda. e TUPI – Transportes Urbanos Piratininga Ltda.)
113 Viação Canaã Ltda. e Viação e Garagem Mar Paulista Ltda.
114 Viação Bola Branca Ltda. e Viação N. Sra. do Socorro Ltda.
115 Auto Viação Jurema Ltda.
116 Empresa São Luís de Viação Ltda.
117 Consórcio Tânia-GATUSA (Viação Tânia de Transportes Ltda. e GATUSA – Garagem Americanópolis de Transportes Urbanos S.A.)
118 Viação Bandeirante Ltda. e Viação Auto Ônibus Santa Cecília Ltda.
119 Viação Castro Ltda. e Viação Santa Madalena Ltda.
120 Viação Gato Preto Ltda./Viação Gato Branco Ltda./Empresa de Ônibus Vila Ipojuca Ltda. ou somente Gato Preto e Vila Ipojuca
121 Viação Santa Brígida Ltda. e Empresa Auto Ônibus Vila Pirituba Ltda.
122 TUSA – Transportes Urbanos Ltda.
123 Viação Brasília S.A.ou Brasilia e Santa Amélia
O sistema Saia e Blusa foi o mais duradouro até o momento na cidade de São Paulo. Ele foi de 1978 até 1991, quando a então prefeita Luiza Erundina decide “municipalizar” o sistema de ônibus. A Prefeitura administrava os recursos obtidos nas catracas e remunerava as empresas prelos serviços prestados, o chamado quilômetro rodado.
Mas até mesma a classificação das regiões tomou como base o sistema de 1978, que muito mais que mudar as cores dos ônibus, reorganizou toda a prestação de serviços e São Paulo e consolidou grandes grupos empresariais, atuantes até hoje.

O PLANO SISTRAN E OLAVO SETÚBAL:
Uma das marcas da administração Olavo Setúbal (agosto/75 a julho/79), na capital paulista, foi a atuação no transporte de passageiros. Em época na qual o prefeito era nomeado pelo Governador do Estado, ele foi considerado um homem à frente de seu tempo. Muito mais que ações pirotécnicas, que só servem para ganhar eleição ou chamar a atenção da mídia, Setúbal e sua equipe tomaram medidas que alteraram a forma de se transportar passageiros na cidade. Algumas ações não foram consideradas ideais, masresolveram em parte as necessidades urgentes de deslocamento numa cidade que só crescia.
Primeiramente, se destaca o Plano Sistran – Sistema Integrado de Trólebus – que teve como um dos principais maestros o engenheiro Adrianno Branco. O Sistema previu não apenas o aumento do serviço de ônibus elétrico como criou uma nova geração desses veículos. O projeto inicial contemplava a criação de mais de 280 km de linhas de trólebus que se somariam aos 115 km já existentes e elevaria o número de veículos urbanos de tração elétrica para 1.280 ônibus. As exigências do Sistran fizeram a indústria nacional, em parceria com a CMTC – Companhia Municipal de Transportes Coletivos -, desenvolver um novo trólebus, baseado nos conceitos mais modernos adotados, principalmente, na Europa.
Foi até mesmo importado um trólebus alemão, Mercedes Benz O 305, para ser dissecado e estudado a fundo. Nascia assim, para todo o Brasil, um ônibus elétrico com sistema Copper, de controle eletrônico de velocidade por recortadores, piso mais baixo, direção hidráulica, melhor iluminação interna e disposição dos bancos para o conforto dos passageiros, suspensão pneumática e portas mais largas.
Veja o que pode ser feito quando há vontade e sensibilidade política em relação aos transportes públicos. A iniciativa de uma cidade, no caso a de maior destaque econômico do País, fez com que fossem alteradas as formas de transportar em todo o território nacional.
O problema dos trólebus estava parcialmente resolvido, pelo menos encaminhado. Restava o sistema de transportes municipais. Linhas sobrepostas em detrimento a regiões de pouca demanda e de difícil acesso, sem oferta de transportes adequada. Lotações, ônibus velhos, excesso de empresas e falta de serviços. A cidade cresceu de forma desorganizada e os transportes também.
Em 1978, a equipe de Setúbal tenta reorganizar os transportes. Surge a primeira padronização das cores pela qual a parte de baixo dos ônibus (chamada de saia) indicava a região a ser servida. A cidade foi divida em 23 lotes operacionais. Bom para grandes empresários, que encampavam as viações menores. José Ruas Vaz, o maior transportador de São Paulo e dono da encarroçadora Caio, desde 2001, foi um dos grandes beneficiados na época. Mas, como nada se dá do dia para a noite, o início do sistema Saia e Blusa gerou muitas confusões entre usuários e até mesmo funcionários de empresas de ônibus.
Não seria possível padronizar todos ônibus de uma só vez. Então, foi um festival de veículos de uma mesma viação com cores diferentes. Por exemplo, o Grupo Gatti, de Luis Gatti, que fundou a Viação Gato Preto nos primórdios dos transportes por ônibus em São Paulo, tinha várias empresas: como a Trancolapa S.A, a Empresa Auto Ônibus Anastácio, a Empresa de ônibus Vila Hamburgueza, entre outras. Cada uma tinha uma cor diferente. Todas tiveram de se unir na Viação Gato Preto. Por mais que os serviços de funilaria e pintura não parassem, era impossível pintar toda a frota.
O mesmo ocorreu entre viações diferentes. Para não repassarem totalmente seus serviços a empresas maiores, como havia proposto o poder público, os então proprietários da Viação Tupinambá e da Viação São Benedito fizeram uma espécie de acordo com a Transportes Urbanos Piratininga (TUPI).
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes



Mais uma ótima matéria histórica!
Lembro da gestão de Olavo Setúbal, e de como as suas medidas realmente melhoraram de forma perceptível o nosso sistema de transportes.
Quanto às atuais 24 empresas, vale lembrar que várias delas pertencem ao mesmo controlador. Ou seja, na prática a gigantesca frota pauistana tem hoje menos de meia dúzia de donos.