Segundo Miguel Angelo Pricinote, além da produção do “gás de lixo”, Estado fez levantamento sobre redes de distribuição e infraestrutura, inclusive com “Gasodutos Virtuais”, e criando até fundo na Bolsa de Valores de SP, tornando solução para o local mais viável agora que eletrificação
ADAMO BAZANI
O Governo de Goiás identificou que há no Estado potencial produtivo de 2,2 bilhões de m³ de biometano por ano. Conhecido como “gás de lixo”, por ser obtido no processo de decomposição de resíduos, no caso de Goiás, as maiores fontes seriam os setores agroindustrial e sucroenergética.
A informação foi dada nesta segunda-feira, 19 de janeiro de 2026, ao Diário do Transporte pelo Coordenador Técnico do “Mova-se Fórum de Mobilidade” e Subsecretário de Políticas para Cidades e Transporte da Secretaria Geral de Governo do Estado de Goiás, Miguel Angelo Pricinote.
Esta capacidade produtiva, de acordo com Pricinote, foi um dos fatores entre os que motivaram as alterações contratuais no sistema de transportes da região metropolitana de Goiânia para a aquisição de cinco centenas de coletivos movidos a este combustível.
O Diário do Transporte noticiou, em primeira-mão na última sexta-feira, 16 de janeiro de 2026, que o Governo de Goiás publicou aditivo contratual com as empresas de ônibus para a implantação de 501 coletivos movidos a biometano (combustível obtido na decomposição de resíduos, conhecido como “gás de lixo”) e GNV (Gás Natural Veicular). Serão modelos de diversos portes, todos com ar-condicionado, desde padrons (dois eixos entre 12,1 m e 13,2 m e três eixos de 15 m) até articulados de 19,2 metros. De acordo com a publicação oficial, o cronograma de entregas vai até 31 de dezembro de 2027, com fornecimento gradativo dos veículos.
Relembre:
INFRAESTRUTURA E GASODUTOS VIRTUAIS
Ainda de acordo com o subsecretário, também foram levantados outros aspectos, entre os quais, a distribuição com uma rede logística que contará até mesmo com “gasodutos virtuais”
“O governo e o consórcio REDEMOB preveem o uso de “gasodutos virtuais” (GNC ou GNL) para transportar o combustível onde a malha de dutos é inexistente, com custos logísticos já mapeados entre R$ 0,65 e R$ 5,50 por metro cúbico. Além disso, a infraestrutura de abastecimento será baseada no modelo de slow-filling (abastecimento noturno) nas garagens, o que otimiza a operação de frotas que retornam diariamente ao mesmo ponto”. – disse
INCENTIVOS E FUNDO NA BOLSA DE VALORES DE SÃO PAULO
Além disso, o representante do executivo goiano diz que o Governo do Estado criou uma modelagem de negócios e incentivos que engloba até mesmo um fundo disponibilizado na B3, a Bolsa de Valores de São Paulo.
“Para atrair o setor privado e mitigar pressões de preços, o estado lançou um Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC) na B3, ofertando R$ 800 milhões em crédito com taxas de 10% ao ano, priorizando o setor de biogás. Somado a isso, o Decreto 10.712/2025 garante benefícios fiscais de até 90% de crédito outorgado de ICMS para produtores de biometano, assegurando a competitividade do combustível frente ao diesel” – explicou para a reportagem.
O número de 501 veículos não foi aleatório, acordo com Miguel Angelo Pricinote ao Diário do Transporte. O subsecretário diz que os ganhos sociais e ambientais devem superar financeiramente os custos de aquisição.
“O dimensionamento da frota de 501 veículos foi precedido por estudos de Custo Total de Propriedade (TCO) que recomendam o foco em veículos articulados para o BRT, onde o biometano reduz as emissões em até 95% com um sobrecusto de apenas 18,6%, um valor aceitável frente aos ganhos ambientais e sociais de R$ 47,05 milhões previstos para a sociedade. Além disso, o cronograma de entrega é escalonado em lotes, garantindo que a demanda por combustível cresça em compasso com a consolidação das plantas produtoras locais.” – explicou.
PREOCUPAÇÕES EM NÍVEL NACIONAL:
No último sábado, 17 de janeiro de 2026, o Diário do Transporte trouxe artigo com base em análise de especialistas que mostram que, dependendo da região, os mesmos entraves de poucas opções de modelos de ônibus e limitações de infraestrutura vividos pelos elétricos, podem se repetir com o biometano e GNV.
Relembre:
O Coordenador Técnico do Mova-se Fórum de Mobilidade e Subsecretário de Políticas para Cidades e Transporte da Secretaria Geral de Governo do Estado de Goiás, Miguel Angelo Pricinote, concorda que as preocupações são legítimas.
Segundo o subsecretário, o Estado de Goiás fez antes a lição de casa e estruturou os planos de investimentos. É o que deve ser feito nas opções de outros entes públicos.
“O recente artigo do Diário do Transporte levanta preocupações legítimas sobre os riscos de infraestrutura, produção e oferta tecnológica que poderiam atrasar a transição para combustíveis gasosos no Brasil. Com base nesse espírito, o plano do Estado de Goiás para implantar 501 ônibus movidos a biometano e GNV até 2027 foi elaborado com estudos de viabilidade técnica, econômica e segurança energética. Sendo assim, diferente de experiências de eletrificação que ignoraram realidades locais, Goiás adotou uma abordagem pragmática. O estado reconhece que a eletrificação, embora seja uma tendência, exige investimentos massivos em infraestrutura de rede que muitas regiões ainda não comportam”.
Para Pricinote, a compra não vai consistir apenas na troca de ônibus, mas será um incentivo para uma nova industrialização local.
“O Governo de Goiás não está apenas trocando ônibus; está criando uma âncora de demanda para uma nova indústria local sustentável. Ao alinhar incentivos fiscais, crédito competitivo, potencial produtivo local e parcerias público-privadas, o estado demonstra que a transição energética pode, sim, ser acelerada quando fundamentada na realidade econômica regional, e não apenas em aspirações tecnológicas” – disse.
A implementação do biometano não vai gerar impactos fiscais, uma vez que este fundo na Bolsa de Valores de São Paulo, vai captar recursos no mercado financeiro e não envolver dinheiro público direto, de acordo com o integrante do executivo.
Além disso, a implementação do biometano em Goiás refuta críticas sobre um suposto “excesso de intervenção estatal”, uma vez que o projeto está ancorado no Programa Estadual de Liberdade Econômica, lançado para desburocratizar processos e reduzir custos de produção sem gerar impacto fiscal. Em vez de impor metas centralizadoras, o governo estadual adotou os índices da OCDE como parâmetro de excelência, sinalizando um compromisso com padrões internacionais de governança e eficiência de mercado. Essa estratégia visa conceder maior autonomia ao setor produtivo, transformando o papel do Estado de controlador em um facilitador que busca criar o melhor ambiente para o empreendedorismo no Brasil. Um exemplo concreto dessa postura é a criação do Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC) na B3, que, por captar recursos no mercado financeiro e não envolver dinheiro público direto, é gerido integralmente pelo setor privado e dispensa licitações, garantindo agilidade e segurança jurídica na capitalização de usinas de biogás e biometano.
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes
