Eletromobilidade

“Eletrificação não é só trocar ônibus, é estruturar um sistema completo”, diz gerente de eletromobilidade da Nansen, que participará do Fórum do DETRO-RJ

Carregadores na Nansen no BRT de Salvador (BA)

Em entrevista ao Diário do Transporte, João Pedro Tabelini analisa a nova licitação do intermunicipal do Rio, que troca outorga financeira por investimento obrigatório em frota limpa e infraestrutura

ALEXANDRE PELEGI

O transporte intermunicipal do Estado do Rio de Janeiro vive um momento de inflexão regulatória às vésperas da nova licitação do sistema. O DETRO-RJ decidiu romper com o modelo tradicional de cobrança de outorga financeira e substituí-lo por uma exigência inédita: os recursos que antes iam para o caixa do Estado passam a ser convertidos diretamente em investimento em ônibus não poluentes — elétricos e a gás — e em toda a infraestrutura necessária para garantir a operação desses veículos.

Essa mudança de paradigma é o eixo central do Fórum de Transição Energética do Transporte Intermunicipal, uma iniciativa do Governo do Estado do Rio de Janeiro e do DETRO-RJ, que reúne reguladores, operadores e fornecedores de tecnologia para discutir os impactos práticos do novo edital. Um dos focos do encontro é justamente o tema que costuma ficar em segundo plano no debate público: energia, recarga e planejamento operacional.

É nesse contexto que o Diário do Transporte ouviu João Pedro Tabelini, Gerente de Eletromobilidade da Nansen, empresa especializada em soluções completas de infraestrutura elétrica para a eletromobilidade. Para o executivo, a decisão do regulador fluminense sinaliza maturidade institucional e cria condições reais para a transição energética no transporte intermunicipal.

“O dinheiro deixa de ser custo regulatório e vira ativo do sistema”

Segundo Tabelini, a substituição da outorga financeira por investimento direto muda profundamente a lógica econômica do contrato.

“Quando o Estado deixa de cobrar outorga e passa a exigir investimento em tecnologia, o dinheiro deixa de ser um custo regulatório e vira um ativo do sistema. Em vez de ir para o caixa público, ele se transforma em frota moderna, infraestrutura e inovação.”

Na avaliação do executivo, o efeito prático é acelerar a renovação da frota, reduzir custos ao longo do tempo e melhorar a qualidade do serviço.

“Antes, a outorga não voltava necessariamente em melhoria do transporte. Agora, o operador investe diretamente em ônibus mais eficientes e na infraestrutura necessária para operá-los. Todo mundo ganha: o sistema, o operador e a sociedade.”


Infraestrutura deixa de ser detalhe e vira eixo do modelo

Um dos pontos mais enfatizados por Tabelini é que a eletrificação não pode ser tratada apenas como troca tecnológica do veículo.

“O ônibus elétrico, sozinho, não resolve nada. Sem recarga bem dimensionada, sem energia disponível e sem planejamento, a operação simplesmente não para de pé.”

No novo modelo proposto pelo DETRO-RJ, a infraestrutura passa a ocupar papel estratégico.

“Ela garante confiabilidade, previsibilidade da operação e possibilidade de expansão futura. Veículo e infraestrutura são partes do mesmo sistema.”


Intermunicipal amplia o desafio técnico

No transporte intermunicipal, os desafios são ainda maiores do que nos sistemas urbanos. Percursos mais longos, menos janelas para recarga e operação contínua exigem soluções mais robustas, explica Tabelini.

“Estamos falando de planejamento energético mais forte, carregadores de maior potência, gestão inteligente da recarga e, muitas vezes, reforço da infraestrutura elétrica das garagens.”

Para o executivo da Nansen, o mérito do edital fluminense está em permitir que esse planejamento seja estrutural.

“Quando o investimento é obrigatório e já nasce direcionado, dá para pensar frota, energia, infraestrutura e operação como um conjunto.”


Previsibilidade para investimento e financiamento

Ao atrelar frota sustentável à licitação, o edital cria previsibilidade para toda a cadeia de fornecedores.

“Carregadores, subestações, obras elétricas, sistemas de gestão… nada disso pode ser improvisado. Esse tipo de sinal regulatório dá segurança para quem investe e para quem financia.”

Segundo Tabelini, a infraestrutura deixa de ser uma aposta e passa a ser parte planejada do modelo contratual.


Como a Nansen se posiciona

A Nansen atua no desenvolvimento de soluções completas de infraestrutura elétrica para ônibus elétricos — da ligação com a concessionária de energia até subestações, obras elétricas, sistemas de controle e integração dos carregadores.

“Não é um projeto plug and play. Para funcionar em larga escala, a infraestrutura precisa ser pensada junto com a operação e com o crescimento futuro da frota.”

Esse modelo dialoga diretamente com a nova lógica da licitação do Rio de Janeiro.

“É exatamente aí que a Nansen se posiciona: ajudando operadores a transformar uma exigência regulatória em um sistema que funcione de forma eficiente.”


Gás como transição, eletrificação como caminho estrutural

Questionado sobre a convivência entre ônibus elétricos e a gás no intermunicipal fluminense, Tabelini vê papéis distintos para cada matriz.

“O Rio tem ampla disponibilidade de gás, o que permite redução rápida de emissões locais e viabiliza projetos no curto prazo.”

No longo prazo, porém, a eletrificação tende a se consolidar.

“Quando analisamos custo operacional, manutenção e previsibilidade ao longo do ciclo de vida, a eletrificação entrega maior eficiência. Vejo o gás como solução complementar e de transição.”


O papel do Fórum

Para o executivo, o Fórum de Transição Energética do Transporte Intermunicipal é fundamental para alinhar expectativas entre poder público, operadores e fornecedores.

“Transição energética não se faz por decreto. Ela se constrói com diálogo técnico.”

A Nansen, presente em 7 das 10 cidades com maior frota elétrica do país, leva ao encontro experiências práticas que ajudam a reduzir riscos e qualificar decisões, completa o CEO:

“Eletrificação não é só trocar ônibus. É estruturar um sistema completo desde o início.”


Apoiadores do Fórum

O evento conta com apoio institucional de:

  • ANTP – Associação Nacional de Transportes Públicos
  • Fórum Nacional de Secretários e Dirigentes de Mobilidade Urbana
  • ABIOGAS – Associação Brasileira do Biogás
  • SEMOVE – Federação das Empresas de Mobilidade do Estado do Rio de Janeiro
  • ITDP – Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento

Serviço – Fórum de Transição Energética do Transporte Intermunicipal

Data: 3 e 4 de fevereiro
Local: Rio de Janeiro (RJ)
Inscrições: via site oficial do evento
Programação completa: disponível na página do Fórum do DETRO-RJ


Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

 

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