Santo André (SP) é onde mais estudantes precisam sair da cidade; Rio de Janeiro concentra a maior parte das viagens de ônibus e São Paulo tem as viagens de motos, trens e metrô mais longas
Publicado em: 13 de dezembro de 2025
São alguns dos dados do Censo IBGE sobre deslocamentos que mostram ainda a importância de mais BRTs Metropolitanos pelo País. Se as taxas de crescimento de viagens de motos continuarem na mesma proporção atual e as taxas de queda de demanda dos ônibus também não se alterarem, no próximo censo completo em 10 anos, o quadro deve se inverter com motos superando ônibus em demanda em todo o Brasil
ADAMO BAZANI
Colaborou Arthur Ferrari
Os estudantes de Santo André, no ABC Paulista, são os que mais precisam sair da cidade rumo a outro município para frequentar a instituição de ensino.
É o que aponta o “Censo 2022: Deslocamentos para trabalho e para estudo – Resultados preliminares da amostra”, divulgado nesta semana pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
Santo André é a cidade de região metropolitana, com exceção de capital, onde ocorre no Brasil a maior parte das viagens intermunicipais de pessoas que precisam estudar.
Segundo o levantamento, são quase 30 mil viagens de estudantes neste caráter de deslocamentos. Santo André só fica atrás de São Paulo (mais de 90 mil) e do Rio Janeiro (quase 40 mil), que são capitais.
São Paulo e São Bernardo do Campo são os destinos mais frequentes de estudantes de Santo André. A cidade possui poucas redes de transportes públicos metropolitanos de maior capacidade. Atualmente, estão disponíveis apenas a linha 10-Turquesa da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos) com demanda estimada de 430 mil passageiros por dia e o Corredor ABD (de ônibus e trólebus), que atende a 290 mil pessoas por dia. Está em construção o BRT-ABC, que deve ter o primeiro trecho inaugurado em março de 2026, com demanda inicial de 174 mil passageiros e total de 600 mil quando completo por dia e, em fase de projeto, ainda, a linha 20-Rosa de Metrô, que atenderá 1,3 milhão de pessoas por dia.
O dado confirma o que o Diário do Transporte já havia mostrado sobre uma das principais conclusões do Censo: a necessidade de investimentos em mais redes de transportes intermunicipais, como de trens e metrôs, e, em especial, de BRTs Metropolitanos, que têm implantação e expansão mais rápidas, de acordo com os estudos do IBGE.
Relembre:
Ainda em relação a transportes metropolitanos, é na Grande São Paulo onde as pessoas fazem viagens mais longas de trens e metrôs, com 90,9% dos utilizadores passando mais de meia hora.
Destaque para os trens metropolitanos (CPTM e concessões), que estão entre as linhas que ligam cidades diferentes mais adensadas do Brasil. O metrô, em São Paulo, ainda é municipal, apesar do gerenciamento ser do Governo do Estado. A estimativa é que a linha 4-Amarela, que é concedida, sendo levada para a cidade de Taboão da Serra, seja “intermunicipal” de fato somente depois de 2028. Apenas depois de 2031 é que a linha 2-Verde chegue até Guarulhos.
O censo mostrou ainda que, em todo o Brasil, 32,3% das viagens para o trabalho/estudo são feitas de carro particular e 16,4% de motos. Ou seja, o transporte individual próprio soma 48,7%, e considerando também mototáxis, táxis e carros de aplicativo, ultrapassa 50% – é o maior índice do transporte individual da história.
Em seguida, aparecem ônibus (21,4%), a pé (17,8%) e por motocicleta (16,4%). Esses quatro meios de transporte, juntos, representam 87,9% do deslocamento para trabalho no país.
O Rio de Janeiro é o estado do país em que mais se utiliza o ônibus (35,8%), o BRT ou ônibus de trânsito rápido (1,8%) e o trem ou metrô (4,8%). Mas ainda são poucos os sistemas metropolitanos, havendo necessidades de metrôs e BRTs que liguem diferentes cidades.
Os estudos para mais BRTs Metropolitanos no Rio de Janeiro são antigos. Há mais de 10 anos, em 10 de setembro de 2015, o Diário do Transporte já noticiava um plano estadual de expansão.
Relembre:
Mas até agora, muito pouco saiu do papel.
O censo ainda mostra que as motos cada vez mais crescem nos deslocamentos urbanos e metropolitanos, o que tem sido um desafio em relação ao trânsito, poluição (o usuário de moto polui proporcionalmente 17 vezes mais que no ônibus diesel Euro 5, de acordo com o IEMA) e aos custos de saúde pública, devido ao grande número de pessoas feridas gravemente e que morrem em acidentes com motos.
Em todo o Brasil, 16,4% das pessoas se deslocam por motos. São 11,4 milhões de pessoas por dia sobre duas rodas.
Para se ter uma ideia, em ônibus, são 14,9 milhões. Se as taxas de crescimento de viagens de motos continuarem na mesma proporção atual e as taxas de queda de demanda dos ônibus também não se alterarem, no próximo censo completo em 10 anos, o quadro deve se inverter com motos superando ônibus em demanda em todo o Brasil.
O Censo mostra ainda que São Paulo tem as viagens de motos. Segundo o levantamento, na Concentração Urbana de São Paulo/SP, 41,5% dos motociclistas gastam mais de meia hora no trajeto até o trabalho. Na do Rio de Janeiro/RJ, essa proporção é menor, 35,0%.



INÉDITO: Censo dos Deslocamentos do IBGE pela primeira vez mostra a necessidade de BRTs Metropolitanos, menos usados que “pau de arara” e mototáxis
Com mais de 50%, transporte individual é o maior da história. De acordo com levantamento inédito, divulgado nesta semana, uso de BRT ou ônibus de trânsito rápido representa somente 0,3% dos deslocamentos para trabalho no Brasil, menos que de caminhonete ou caminhão adaptado (0,4%)
ADAMO BAZANI
O Brasil é o País do Automóvel, os deslocamentos entre cidades diferentes são cada vez mais relevantes (mesmo com o home office e há necessidades urgentes de ampliação de estruturas de implantação rápida e simples, como os corredores de ônibus rápidos que liguem municípios vizinhos (BRTs Metropolitanos) enquanto as redes de metrô e trens avançam lentamente. A mobilidade no Brasil mostra que transporte individual cresce, tanto o próprio como por aplicativos.
Estas são algumas das muitas conclusões divulgadas no último dia 09 de dezembro de 2025 pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), que trouxe um resumo do “Censo 2022: Deslocamentos para trabalho e para estudo – Resultados preliminares da amostra”. É a primeira vez na história, de acordo com o instituto, que um censo se debruçou tanto sobre mobilidade. Neste sábado, 13 de dezembro de 2025, em reportagem especial, o Diário do Transporte traz alguns recortes contextualizados.
Segundo os dados, 9,3 milhões pessoas (10,7%) se deslocam para outro município para trabalhar; proporção que tem ganhado destaque a cada ano.
Enquanto isso, ainda de acordo com o levantamento, apenas 0,3% dos deslocamentos para trabalho no Brasil são feitos em BRTs (corredores de ônibus mais rápidos e com maior capacidade). O percentual é menor que “pau de arara” – caminhões e caminhonetes adaptados (0,4%) e mototáxis (0,7%).
Na COP30 – Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, o Ministro das Cidades, Jader Filho, conversou com o repórter Adamo Bazani, a respeito do exemplo considerado bem-sucedido do BRT Metropolitano de Belém, que liga sete cidades diferentes e que promoveu inclusão de pessoas de municípios mais distantes que não tinham acesso aos recursos e serviços da capital paraense. Segundo Jader Filho, o modelo implantado deve ser replicado em outros sistemas e que os BRTs Metropolitanos serão focos dos investimentos.
EXCLUSIVO: Jader Filho, ao Diário do Transporte, destaca importância de BRTs metropolitanos
Enquanto os BRTs não avançam, assim como as redes de metrô e trens, que só respondem por 1,6% dos deslocamentos entre diferentes cidades, os automóveis reinam.
Segundo o IBGE, 32,3% das viagens para o trabalho/estudo são feitas de carro particular e 16,4% de motos. Ou seja, o transporte individual próprio soma 48,7%, e considerando também mototáxis, táxis e carros de aplicativo, ultrapassa 50% – é o maior índice do transporte individual da história.

Veja nota especial do IBGE sobre o Censo e Mobilidade:
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Destaques
- O Censo Demográfico 2022 mostra que 88,4% da população ocupada no Brasil exerce seu trabalho no mesmo município onde reside. Nesse grupo, 71,4% trabalham fora de casa e 16,9% o fazem dentro da própria casa.
- O meio de transporte mais utilizado no deslocamento para o trabalho é o automóvel (32,3%), seguido por ônibus (21,4%), a pé (17,8%) e por motocicleta (16,4%). Esses quatro meios de transporte, juntos, representam 87,9% do deslocamento para trabalho no país.
- É baixo o percentual de pessoas que se deslocam em meios de transporte de alta capacidade como o trem ou o metrô (1,6%), uma proporção próxima de van, perua e assemelhados (1,4%).
- O uso de BRT ou ônibus de trânsito rápido representa somente 0,3% dos deslocamentos para trabalho no Brasil, proporção próxima ao de caminhonete ou caminhão adaptado (0,4%).
- A maioria da população de cor ou raça branca (42,9%) usa principalmente o automóvel para ir ao trabalho. Deslocamentos por ônibus (17,6%), a pé (15,7%) e por motocicleta (13,6%) também são expressivos.
- Quanto ao deslocamento da população de cor ou raça preta para o trabalho, observa-se maior uso do ônibus (29,5%). O uso do automóvel, o segundo meio de transporte mais expressivo (21,0%), por 1,7 milhão de pessoas, é semelhante à quantidade de pessoas pretas que se desloca para o trabalho a pé, totalizando 1,6 milhões de pessoas (19,8%).
- 59,0% das pessoas que usam automóvel para ir ao trabalho são brancas, proporção significativamente superior ao percentual de pardos que utilizam esse meio de transporte (32,9%), o segundo grupo que mais o usa.
- Quanto mais alto é o nível de instrução das pessoas ocupadas, aumenta também o uso do automóvel, do trem ou metrô, e do táxi ou assemelhados, enquanto o deslocamento a pé ou por bicicleta perdem participação entre aqueles com graus de instrução mais elevados.
- 92,7% das pessoas residentes em domicílios particulares que frequentam alguma instituição de ensino o fazem em locais dentro do seu próprio município, enquanto 7,2% se deslocam para outro município e 0,1% estudam em um país estrangeiro.
- A população de cor ou raça amarela é a que mais se desloca para instituições de ensino fora do seu município de residência, único grupo no qual menos de 90% das pessoas estudam no próprio município (88,5%).
- A Região Norte apresenta proporção de deslocamento para estudo em outro município brasileiro (4,0%) significativamente inferior à média nacional (7,2%).
- As maiores taxas de deslocamento no Brasil para estudo em países estrangeiros são registradas nas regiões fronteiriças (Sul, Centro-Oeste e Norte).
O Censo Demográfico 2022 mostra que a maioria da população ocupada no Brasil (88,4% ou 76,6 milhões de pessoas) trabalha no próprio município de residência e a maior parte (71,4% ou 61,9 milhões) desse grupo o faz fora da sua moradia, enquanto 16,9% (14,7 milhões) do pessoal ocupado trabalha em casa. O automóvel (32,3%) é o meio de transporte mais utilizado pelas pessoas no deslocamento para o trabalho. Entre os estudantes, os cursos de Ensino Superior concentram a maior parte dos alunos que residem em município diferente daquele onde fica a instituição de ensino que frequentam. Os dados foram publicados hoje (9) pelo IBGE, juntamente com os resultados sobre trabalho e rendimento.
O evento de divulgação da pesquisa acontece também hoje, às 10h, na Casa Brasil IBGE, dentro do Palácio da Fazenda, na região central do Rio de Janeiro (RJ). Haverá transmissão ao vivo pelo portal do IBGE e pelas redes sociais do Instituto.
O “Censo 2022: Deslocamentos para trabalho e para estudo – Resultados preliminares da amostra” apresenta as características do deslocamento para trabalho e para estudo da população brasileira, complementando os volumes de divulgação do questionário da amostra do Censo Demográfico 2022, e trazendo um panorama inicial das características da mobilidade das pessoas de 10 anos ou mais de idade que precisam se deslocar para exercer seu trabalho ou estudar.
“As informações sobre o deslocamento das pessoas para trabalho e para estudo são fundamentais para o planejamento urbano em diferentes níveis territoriais, fornecendo indicadores seguros relacionados à integração funcional entre localidades. São, portanto, estatísticas que podem contribuir para melhorar a qualidade de vida da sociedade”, destaca Mauro Sergio Pinheiro, analista da pesquisa.
O Censo 2022, de modo inédito, investigou o meio de transporte que a população do Brasil passa mais tempo no deslocamento para o trabalho. A pesquisa revela que há um predomínio do uso de automóvel (32,3%), ônibus (21,4%) e motocicleta (16,4%), além da locomoção a pé (17,8%), como meios de transporte, representando 87,9% do deslocamento para trabalho no país. Em valores absolutos, 48,9 milhões de pessoas usam esses meios de transporte motorizados: 22,6 milhões de pessoas, o automóvel; 14,9 milhões, o ônibus; e 11,4 milhões, a motocicleta. “Tal cenário reflete o histórico do país em privilegiar rodovias para a integração das cidades e regiões, além do descompasso entre crescimento urbano e oferta de transporte público”, afirma Mauro.
Chama atenção o alto número de deslocamentos a pé, feitos por 12,4 milhões de pessoas (17,8%), e por bicicleta, realizados por 4,4 milhões de pessoas (6,2%), o que revela um padrão de deslocamento significativo da população brasileira. Outro aspecto relevante foi o baixo percentual de pessoas que se deslocam em meios de transporte de alta capacidade, como trem ou metrô, com apenas 1,6% dos deslocamentos (1,1 milhão de pessoas), uma proporção próxima de van, perua e assemelhados, utilizados por 945 mil pessoas (1,4%).

Mulheres se deslocam relativamente menos do que os homens para trabalhar
Dentre os indivíduos que exercem suas atividades de trabalho no domicílio, 7,4 milhões são homens (15,1%) e 7,3 milhões são mulheres (19,3%). Já os que trabalham fora de casa, mas no município de residência, são 35,2 milhões de homens (72,0%) e 26,7 milhões de mulheres (70,7%).
Um contingente de 9,3 milhões de pessoas (10,7%) trabalha fora do município onde reside, a maioria formada por homens (11,6% deles estão nessa situação), somando 5,7 milhões, enquanto 9,5% das mulheres ocupadas (3,6 milhões) trabalham em município diferente daquele no qual moram. Segundo Mauro Pinheiro, “mesmo não sendo uma grande diferença em termos proporcionais, considerando também os dados de deslocamento no município de residência, observamos que há uma desigualdade na distribuição por sexo no deslocamento para o trabalho, em que as mulheres tendem a realizar o trabalho o mais próximo ou em casa”.
Uma parcela expressiva da população que se desloca para trabalhar retorna do trabalho para casa três dias ou mais na semana, demonstrando um fluxo pendular significativo entre os municípios brasileiros. “A mobilidade intermunicipal varia de acordo com a rede urbana e a organização do território, sendo identificada com mais intensidade em áreas de concentrações urbanas e em municípios próximos a grandes centros. Além disso, aproximadamente 1% da população ocupada declarou trabalhar em mais de um município ou país, e cerca de 0,04% em país estrangeiro, o que indica, especialmente na faixa de fronteira, a interação de cidades brasileiras e estrangeiras no deslocamento para trabalho”, explica Raphael Rocha, analista da pesquisa.
Em relação aos deslocamentos para trabalho em outro país, 32 mil pessoas fazem esse movimento, especialmente em municípios localizados na faixa de fronteira. Dos indivíduos que se deslocam para o trabalho, 783 mil têm como local de exercício do trabalho principal mais de um município ou país, sendo esse quantitativo proporcionalmente maior para os homens (1,3%) do que para as mulheres (0,4%).
Formas de deslocamento para o trabalho ilustram desigualdades e diferenças regionais do país
Há diferenças regionais nos padrões de deslocamento ao trabalho. O transporte individual motorizado predomina, sobretudo nas regiões Centro-Oeste (58,8%) e Sul (57,1%). O uso principal do automóvel para o trabalho alcança quase metade dos trabalhadores no Sul (45,9%) e pouco mais de um quinto no Norte (21,8%) e Nordeste (21,0%). Por outro lado, a motocicleta é o principal meio de transporte no Norte (28,5%) e Nordeste do país (26,0%), percentuais superiores frente ao resultado para o Brasil (16,4%).
Em relação aos transportes coletivos, o ônibus apresenta maiores valores absolutos e relativos no Sudeste, onde 8,3 milhões de trabalhadores passam mais tempo nesse meio de transporte, representando mais de um quarto de trabalhadores (26,6%) dessa região, enquanto os menores valores proporcionais para o uso de ônibus estão no Norte (16,0%) e Sul (16,4%) do país. Embora a utilização do trem ou metrô seja mais representativa no Sudeste, com 1,0 milhão (89,8%) dos 1,1 milhão de trabalhadores nesses transportes, seu uso principal para trabalho dentro da região é de apenas 3,3%, repetindo a pouca expressividade vista no panorama nacional. Fica evidente, portanto, a baixa prevalência de transportes de alta capacidade para a região mais concentrada do país, assim como para o restante do Brasil.
O Rio de Janeiro é o estado que mais utiliza o transporte coletivo como forma de deslocamento principal para trabalho: ônibus (35,8%), BRT ou ônibus de trânsito rápido (1,8%), e trem ou metrô (4,8%). Distrito Federal e São Paulo também se destacam no quesito transporte coletivo. Por outro lado, os estados que proporcionalmente menos utilizam ônibus como meio principal para o trabalho são Rondônia (4,2%), Roraima (5,9%) e Acre (7,1%), enquanto trem ou metrô possui baixa expressividade ou é ausente no deslocamento da população para o trabalho em várias unidades da federação.
No deslocamento para o local de trabalho por transportes individuais não motorizados (a pé ou bicicleta), o Nordeste (30,4%) apresenta a maior proporção, com quase um terço dos trabalhadores que se deslocam por mais tempo por esses meios, enquanto o Centro-Oeste (18,9%) tem o menor quantitativo proporcional para a categoria. De forma desagregada, o Norte (10,0%) mostra a maior proporção do uso principal de bicicleta, e quase um quarto da Região Nordeste (23,5%) passa a maior parte do tempo indo a pé para o trabalho.
Ainda no transporte principal para o trabalho, por hidrovias, seja embarcação de pequeno, médio ou grande porte, o maior valor relativo e absoluto está na Região Norte, totalizando 124 mil trabalhadores, sendo a única região em que esse percentual ultrapassa 2% dos deslocamentos realizados.
As unidades da federação com maior participação relativa de pessoas no transporte a pé são Bahia (28,1%), Alagoas (25,5%) e Pernambuco (25,4%), enquanto proporcionalmente o deslocamento para trabalho por bicicleta é mais alto no Amapá (17,4%), Acre (13,3%) e Mato Grosso do Sul (12,6%).
Deslocamentos para outros municípios aumentam conforme a renda, até a faixa entre três e cinco salários mínimos de rendimento domiciliar per capita
A análise da relação entre os deslocamentos da população e o rendimento nominal mensal domiciliar per capita revela que a proporção de pessoas que se desloca para outro município a trabalho aumenta à medida em que cresce a renda até a faixa entre três e cinco salários mínimos de renda domiciliar per capita. Dentre as que se deslocam para outro município, aquelas que têm rendimento nominal mensal domiciliar per capita de três a cinco salários mínimos (13,2%) são quase o triplo das que possuem rendimento de até um quarto do salário mínimo (4,6%).
Quanto aos indivíduos que exercem suas atividades no domicílio ou propriedade, destacam-se aqueles classificados como sem rendimento (48,8%). O grupo com as rendas mais altas, superiores a cinco salários mínimos, predominam em relação ao que está no extrato intermediário das faixas de renda, ou seja, quanto maior a renda, associada, geralmente, a maior nível de instrução, maior a proporção do trabalho realizado em casa, a exemplo dos que fazem teletrabalho integral.
Dois em cada três deslocamentos para trabalho são feitos em até meia hora no Brasil
A análise do tempo de deslocamento entre a casa e o local de trabalho mostra que a maior parte (56,8%) das pessoas que se deslocam para o trabalho leva de seis minutos até meia hora, totalizando 40 milhões de pessoas, enquanto 1,3 milhão de pessoas levam mais de duas horas para chegar ao trabalho. Além disso, nos resultados por cor ou raça, a população preta (13,9%) e a parda (11,0%) possuem maior participação relativa na faixa de mais de uma hora até duas horas, do que a população branca (8,9%). Na faixa de seis minutos até meia hora, a população branca (58,5%) possui maior proporção do que a preta (51,0%), com 7,5 pontos percentuais de diferença.
Dos vinte municípios com população acima de 100.000 habitantes e maior percentual de trabalhadores cujo tempo de deslocamento para o trabalho supera duas horas, 11 são do Rio de Janeiro, sete de São Paulo e dois do Pará. O tempo de deslocamento nas 15 metrópoles brasileiras apresentou variações, com Florianópolis (SC), Goiânia (GO) e Porto Alegre (RS) mostrando maiores proporções de pessoas que levam até meia hora para chegar ao trabalho, enquanto Rio de Janeiro (RJ), São Paulo (SP) e Manaus (AM) apresentam as maiores proporções das faixas acima de meia hora. No Rio de Janeiro (RJ), nota-se 5,6% de duração de mais de duas horas entre seus deslocamentos.
Proporcionalmente, população de cor ou raça amarela se desloca mais para outro município
Sobre o deslocamento das pessoas que trabalham fora do seu domicílio e retornam três dias ou mais na semana do trabalho para casa, considerando cor ou raça, verifica-se que a população de cor ou raça amarela é a que mais se desloca para outro município (12,8%), percentual próximo ao das pessoas de cor ou raça branca (12,5%). Já 89,0% da população de cor ou raça parda exerce seu trabalho no município de residência, enquanto 87,8% da população de cor ou raça preta se desloca para o trabalho no próprio município de residência.
Os dados do Censo 2022 evidenciam ainda diferenças quanto ao meio de transporte mais utilizado para ir ao trabalho, dependendo da cor ou raça das pessoas. A população de cor ou raça branca usa principalmente o automóvel, totalizando 13,3 milhões de pessoas (42,9%), o maior valor absoluto dentre todos os meios de transporte, seguido do deslocamento por ônibus, realizado por 5,5 milhões de pessoas (17,6%). Os deslocamentos feitos a pé, realizados por 4,9 milhões de pessoas brancas (15,7%), e por motocicleta, com 13,6% dos deslocamentos, abrangendo 4,2 milhões de pessoas, também são significativos.
Quando se observa o deslocamento da população de cor ou raça preta, há maior uso de ônibus (29,5%), escolha de 2,4 milhões de pessoas desse grupo. O uso do automóvel, o segundo meio de transporte mais expressivo, por 1,7 milhões de pessoas (21,0%), é semelhante à quantidade de pessoas pretas que se deslocam para o trabalho a pé, totalizando 1,6 milhões de pessoas (19,8%).
Já a população de cor ou raça amarela usa majoritariamente o automóvel (56,1%) no deslocamento para trabalho, compreendendo 167 mil pessoas. Esse é o único grupo no qual um único meio de transporte responde por mais da metade das pessoas. Na sequência aparecem o deslocamento feito a pé, realizado por 42 mil pessoas (13,9%), e por ônibus, feito por 37 mil pessoas (12,4%), valores bastante menores quando comparados aos deslocamentos por automóvel.
Dentre as pessoas de cor ou raça parda, existe proximidade entre os quantitativos daquelas que utilizam automóvel e ônibus. Enquanto o primeiro meio de transporte é usado por 24,4% do grupo (7,4 milhões de pessoas), o segundo é utilizado por 23,1% (7,0 milhões). A diferença entre os deslocamentos feitos por motocicleta (19,6% ou 5,9 milhões de pessoas) e a pé (19,3% ou 5,8 milhões de pessoas) é igualmente pequena.
59,0% das pessoas que vão de automóvel para o trabalho são brancas
Olhando o perfil dos usuários de cada meio de transporte, vemos que 59,0% das pessoas que usam esse tipo de transporte são de cor ou raça branca (13,3 milhões de pessoas), proporção que supera significativamente o percentual de pardos (32,6%) que utilizam esse meio de transporte, com 7,4 milhões de pessoas, o segundo grupo que mais usa esse meio de transporte. O cenário é semelhante na categoria táxi ou assemelhados, já que a população branca representa 52,7% dos que se deslocam até o trabalho com esse meio de transporte.
São Paulo e Goiás têm maior proporção de população ocupada trabalhando fora do município de residência
No âmbito regional, os estados de São Paulo (13,7%), Goiás (13,7%), Rio Grande do Norte (15,5%), Sergipe (16,0%) e Pernambuco (15,2%) apresentam os percentuais mais elevados de população ocupada que se desloca para trabalhar em outro município. Esses valores decorrem dos fortes processos de integração que existem entre municípios, especialmente aqueles que compõem concentrações urbanas. Em São Paulo, por exemplo, 2,8 milhões de pessoas ocupadas se deslocam para trabalhar em outro município, o que representa 30,5% do total de pessoas que se deslocam para trabalho em outro município no Brasil.

No estado do Amazonas (98,1%), há maior proporção de pessoas que trabalham em seu município de residência, em contraposição a Sergipe (82,7%), unidade da federação com menor proporção para essa categoria. No que diz respeito ao trabalho exercido no próprio domicílio de residência, Rondônia (22,7%) apresenta a maior proporção, enquanto o Distrito Federal aparece na outra ponta, com 14,9%.
Já nos deslocamentos para trabalhar em outro país, Paraná, Rio Grande do Sul e São Paulo são os estados com maiores números absolutos: 6,2 mil, 5,2 mil e 4,4 mil pessoas, respectivamente. Merecem destaque também os resultados para locais de exercício de trabalho em mais de um município ou país, mais expressivos em São Paulo (183,5 mil pessoas), Minas Gerais (80,7 mil) e Paraná (76,4 mil).
Quanto mais alta a escolaridade das pessoas, maior é o uso de automóvel, trem ou metrô, e de táxi ou assemelhados
O nível de instrução é outra característica que diferencia o uso do meio de transporte para ir trabalhar. À medida que aumenta o nível de instrução da população, há um crescimento proporcional do uso de automóvel, de trem ou metrô e de táxi ou assemelhados, enquanto o transporte a pé, por bicicleta e por caminhonete ou caminhão adaptado (pau de arara) perdem participação entre as pessoas com graus de instrução mais elevados.
A maioria dos trabalhadores com nível superior completo utiliza automóvel (57,8%) para se deslocar, e 68,1% adotam como transporte principal os individuais motorizados (automóvel ou motocicleta) para ir ao trabalho. No nível sem instrução e fundamental incompleto, esses percentuais são 18,9% para automóvel, e 37,1% quando se considera automóvel ou motocicleta em conjunto.
3,8 milhões de pessoas estudam em município diferente do qual residem
O Censo 2022 também investigou o deslocamento para estudo. Dentre as 53,6 milhões de pessoas residentes em domicílios particulares no Brasil que frequentam alguma instituição de ensino, 49,7 milhões (92,7%) se deslocam para locais dentro do seu próprio município de residência, enquanto 3,8 milhões (7,2%) o fazem em outro município, e 75 mil (0,1%) em um país estrangeiro.
Desagregando os dados por sexo, 92,0% das mulheres (25,0 milhões) e 93,4% dos homens (24,7 milhões) estudam em seu município de residência. Quando se avalia o movimento para fora do município de residência, o resultado é o seguinte: 7,8% das mulheres (2,1 milhões) e 6,5% dos homens (1,7 milhões) se deslocam para outro município, e 0,1% das mulheres (40 mil) e 0,1% dos homens (35 mil) vão até outro país para estudar.
Mais de 10% da população de cor ou raça amarela estuda em outro município
As pessoas de cor ou raça amarela são as que mais se deslocam para instituições de ensino fora do seu município de origem, sendo o único grupo no qual menos de 90% estuda no próprio município (88,5%). “O maior percentual de deslocamento dos estudantes de cor ou raça amarela pode estar associado a fatores como busca por instituições mais especializadas e condições socioespaciais”, afirma Mauro Pinheiro. Já o grupo de cor ou raça indígena é o que registra as maiores percentagens de indivíduos estudando dentro do município de residência (95,9%). Tal grupo, no entanto, possui a segunda maior percentagem de estudantes que se deslocam para outros países (0,2%), atrás somente da população amarela (0,9%).
Existe também uma tendência de os brancos se deslocarem mais para outros municípios ou países (8,7%) do que a população preta (7,2%) e parda (6,1%).
Deslocamento para estudo no exterior é mais frequente em cidades fronteiriças do país
Regionalmente, a proporção de deslocamento para estudo em outro município no Norte (4,0%) é bem inferior à média nacional (7,2%), resultado que pode ser justificado pela relação entre municípios com áreas significativamente extensas e redes de transporte deficientes em diversas escalas. A mesma região, entretanto, tem praticamente o dobro da proporção de deslocamento para países estrangeiros (0,2%) em relação à média nacional.
Valores regionais de deslocamento para o estrangeiro acima da média do país também são observados nas regiões Sul (0,2%) e Centro-Oeste (0,2%), o que pode ser explicado pelas dinâmicas fronteiriças bastante presentes nessas regiões. O deslocamento para outros países, apesar de pouco significativo, revela uma dimensão das redes internacionais em que o Brasil está conectado para estudo, especialmente nas cidades fronteiriças do Sul do país.

O Sudeste, por concentrar quase 40% do total de estudantes do Brasil, tem percentagens muito próximas aos valores nacionais (92,3% estudando no mesmo município de residência, 7,6% em outro município do Brasil e 0,1% em outro país). Já o Nordeste apresenta a menor proporção de deslocamento para país estrangeiro (menos de 0,1%), o que pode ser explicado por ser a região mais distante das fronteiras internacionais terrestres. Além disso, mostra valor levemente superior à taxa nacional para o deslocamento entre municípios brasileiros (7,4%), índice próximo ao registrado no Sudeste.
Analisando o comportamento dos estudantes nos municípios que pertencem às concentrações urbanas, vê-se que suas taxas de deslocamento para outros municípios são menores do que as verificadas nos municípios que não pertencem a esses recortes urbanos. Embora sejam formações urbanas marcadas pelas maiores trocas de fluxos e pessoas no território nacional, é nas grandes aglomerações urbanas que existe maior oferta de infraestrutura e instituições de ensino, acima da média nacional, o que proporciona aos estudantes maiores opções de ensino dentro do seu próprio município.
Maiores índices de deslocamento para estudo estão no Ensino Superior
Proporcionalmente, o deslocamento para estudo em outro município aumenta conforme a escolaridade. Os estudantes dos cursos iniciais tendem a frequentar locais mais próximos de sua residência, o que pode ser explicado pela maior capilaridade desse tipo de ensino, resultado da ampliação da oferta de educação básica no país, especialmente considerando as redes mantidas por municípios e estados. Somente 1,7% das pessoas que frequentam creche, e 1,9% dos indivíduos que cursam a pré-escola, o fazem em município diferente de onde moram, enquanto no Ensino Fundamental (3,3%) e no Ensino Médio (6,8%) os percentuais são um pouco maiores.
As taxas de deslocamento para estudo são bem mais expressivos, no entanto, entre os estudantes dos cursos superiores de graduação (27,8%) e de especialização de nível superior, mestrado ou doutorado (32,9%). Isso indica maior concentração dessas modalidades de ensino em determinados locais, principalmente as grandes cidades, consequentemente provocando maior necessidade de deslocamento para acesso aos cursos de nível superior.

Sobre a pesquisa
O Censo 2022: Deslocamentos para trabalho e para estudo – Resultados preliminares da amostra aborda as informações coletadas no bloco de Educação, no quesito referente ao deslocamento para estudo, do Questionário da Amostra do Censo Demográfico 2022, onde foram investigados o município ou país em que as pessoas estudavam (da creche ao doutorado). Também são reveladas as informações coletadas no bloco de perguntas relativas ao deslocamento para trabalho, do caderno de trabalho do Questionário da Amostra, no qual foram pesquisados o local de trabalho, a frequência de retorno para casa ao longo da semana, o tempo de deslocamento no trajeto casa – trabalho e o principal meio de transporte utilizado para esse deslocamento.
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes





