Em entrevista ao Diário do Transporte, dirigente destaca como IBS e CBS podem transformar a concorrência no setor a partir de 2026
ALEXANDRE PELEGI
A partir de janeiro de 2026, o setor de transporte rodoviário de passageiros terá de se adaptar às primeiras etapas da Reforma Tributária do consumo, com a entrada em vigor do IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) e da CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços). Embora as alíquotas iniciais sejam simbólicas, as exigências operacionais e de compliance serão plenas.
Para compreender como essas mudanças impactarão o transporte regular e poderão reduzir o espaço da concorrência clandestina, o Diário do Transporte conversou com Leticia Pineschi, porta-voz da ABRATI (Associação Brasileira das Empresas de Transporte Terrestre de Passageiros).
Entrevista
Diário do Transporte: O que muda, de forma prática, com a estreia do IBS e da CBS em 2026?
Leticia Pineschi – ABRATI: A grande virada é que, mesmo com alíquotas iniciais simbólicas, toda a burocracia será exigida em sua totalidade. Isso significa emissão, escrituração, reporte e conciliações no novo padrão. Para as empresas regulares, não é apenas mais um imposto, mas sim uma mudança de infraestrutura. Será o chamado “ano-teste”, em que os sistemas, os processos e a governança serão colocados à prova.
Diário do Transporte: Como esse novo modelo pode afetar o transporte irregular e clandestino?
Leticia Pineschi: O IBS/CBS é um sistema data-driven, ou seja, baseado em dados confiáveis. Ele cruza informações de bilhetagem, meios de pagamento, benefícios setoriais e cadastros. Quem emite e registra deixa trilhas; quem não emite, fica exposto. Sem nota, não há lastro, e sem lastro não há crédito. Isso aperta o funil para os clandestinos, que historicamente postergam obrigações e criam assimetrias competitivas.
Diário do Transporte: Você acredita que o Estado terá condições de fiscalizar com eficiência?
Leticia Pineschi: Muitos duvidam da capacidade de fiscalização, mas quando o assunto é arrecadação, o Estado enxerga muito bem. Quanto mais os pagamentos migram para canais digitais e plataformas, mais rastros são deixados e mais simples fica mapear volumes sem nota. As incongruências entre bilhetagem, meios de pagamento e registros fiscais tendem a aparecer facilmente nesses cruzamentos.
Diário do Transporte: E para as empresas regulares, quais são os benefícios mais imediatos?
Leticia Pineschi: Transparência, eficiência e previsibilidade. A Reforma Tributária acende as luzes do sistema e dá às empresas regulares a chance de virar a página, competindo por produtividade e qualidade de serviço — e não por atalhos. Além disso, haverá integração entre o compliance regulatório da ANTT e o fiscal. Sincronizar segurança, itinerários, gratuidades e frota aos registros do IBS/CBS será mandatório.
Diário do Transporte: Então podemos dizer que, no médio prazo, o transporte clandestino ficará inviável?
Leticia Pineschi: Exatamente. Sem créditos tributários e sob risco crescente de autuação e apreensão, o modelo irregular não se sustenta. A Reforma Tributária representa um ponto de inflexão: quem estiver fora da norma não entra no faturamento e, consequentemente, não gera crédito.
Conclusão
Para a ABRATI, a chegada do IBS e da CBS em 2026 pode marcar uma nova fase para o transporte regular de passageiros no Brasil. Como resume Leticia Pineschi, “a Reforma Tributária oferece ao setor a oportunidade de virar a página, com transparência e respeito ao passageiro”.
Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes
