De acordo com o especialista Arnd Bätzner, não se deve desestruturar uma rede consolidada e sim buscar evoluções
ADAMO BAZANI e YURI SENA
Diante da possibilidade de desativação da rede de trólebus em São Paulo, especialistas se reuniram nesta semana no Sindicato dos Engenheiros do Estado de São Paulo e foram unânimes: os ônibus elétricos conectados à fiação aérea não devem ser aposentados na cidade. Pelo contrário, se não houver expansão da rede, ao menos deve haver a preservação e a manutenção do sistema atual.
O evento reuniu especialistas nacionais e internacionais, membros da academia, da área técnica, da indústria e de organismos multilaterais. Um deles, especialista em mobilidade elétrica da UITP, Arnd Bätzner, foi enfático ao dizer que, se a cidade de São Paulo optar por não expandir a rede de trólebus, deve ao menos manter a atual estrutura e, ao mesmo tempo, modernizar os serviços e a frota.
Bätzner citou como exemplo positivo a tecnologia E-Trol, que consiste em um veículo que opera tanto com baterias quanto conectado à rede aérea, já largamente utilizado em diversas partes do mundo. No Brasil, há também essa tecnologia desenvolvida pela Eletra, em São Bernardo do Campo. Os veículos vão operar no corredor BRT-ABC, que está sendo construído entre as cidades de São Bernardo do Campo, Santo André, São Caetano do Sul e São Paulo.
RESUMO DE VANTAGENS DO E-TROL: (Adamo Bazani)
Entre as vantagens do E-Trol estão:
– Operação: Flexibilidade operacional;
– Preço: Custa em torno de 30% menos que os modelos somente a bateria;
– Menos baterias: Essa redução de preço se explica, em parte, por necessitar de menos baterias por carregar enquanto roda como trólebus. Como baterias representam grande parte do preço de um ônibus elétrico, quanto menos bateria, mais barato;
-Mais leve e mais espaço: Além disso, quanto menos bateria, mais leve é o ônibus (consumindo menos energia e desgastando menos componentes) e menor é o espaço ocupado, podendo sobrar mais áreas para os passageiros, o que resulta em mais conforto para o usuário e mais lucratividade porque quanto mais gente um ônibus transporta, maior é o retorno;
– Infraestrutura já existente: Aproveita uma infraestrutura de rua já instalada;
– Dispensa nova infraestrutura: Por carregar as baterias enquanto trafega como trólebus, diminuiu ou mesmo elimina a necessidade de infraestrutura de recargas nas garagens;
-Sem mexer muito na rede de distribuição: Não necessita de grandes adequações da rede de distribuição porque a carga nas baterias, por se dar em trajeto;
– Durabilidade de baterias: Baterias duram entre 30% e 40% mais pela característica de recarga que é mais constante. A bateria descarrega, mas já carrega em movimento enquanto o ônibus está ligado à rede (que fornece energia suficiente para o funcionamento e para carregar as baterias). Em média, um banco de baterias no tipo plug-in (ônibus só a bateria) tem vida útil de oito anos com máxima capacidade de armazenamento de energia. No E-Trol, essa vida útil sobe para mais de 12 anos;
Apesar de ser largamente usada no exterior, tecnologia do E-Trol é 100% nacional, desenvolvida pela Eletra, em São Bernardo do Campo (SP), com a plataforma da Mercedes-Benz, motores e inversores WEG e carrocerias Caio. Os veículos vão operar no corredor BRT-ABC, que está sendo construído entre as cidades de São Bernardo do Campo, Santo André, São Caetano do Sul e São Paulo.
O especialista também apresentou exemplos internacionais que mostram os dois extremos: o positivo, com a modernização das redes, que não impede a implantação de outros meios de transporte concomitantes; e o negativo, com o sucateamento.
Enquanto os trólebus se expandem em diversas partes do mundo, São Paulo discute a manutenção do sistema.
Três fatos marcaram os debates nesta semana e foram noticiados pelo Diário do Transporte. A rede Respira São Paulo, uma organização não governamental formada por profissionais, membros da academia, técnicos e especialistas, revelou ao site um estudo inédito que mostra que não seria vantajoso para a capital paulista desativar a rede de trólebus em razão da implantação do VLT (Veículo Leve sobre Trilhos) na região central.
Relembre:
Como mostrou o Diário do Transporte em 23 de julho de 2025, durante a entrega de uma frota de ônibus elétricos a bateria, ao responder ao repórter Adamo Bazani, o prefeito Ricardo Nunes revelou que uma das intenções é que, com a implantação de duas linhas do “bonde de São Paulo” no centro, a rede de trólebus seja desativada. Nunes alegou que os custos de manutenção giram em torno de 30 milhões de reais e citou eventuais conflitos de infraestrutura entre os dois meios de transporte.
Relembre:
Entretanto, um estudo da Rede Respira São Paulo aponta o contrário. O Diário do Transporte conversou com Jorge Françoso de Moraes, que apresentou os trabalhos. Segundo o projetista em mobilidade urbana elétrica, várias partes do mundo possuem redes de trólebus e de VLTs operando concomitantemente. Para São Paulo, esse tipo de operação seria interessante porque aproveitaria melhor a infraestrutura de geração e distribuição de energia já instalada no centro. Além disso, o trólebus abrange uma região mais ampla, indo do centro às zonas leste e oeste, enquanto o VLT ficaria restrito apenas ao centro.
Outro fato que marcou a semana, também noticiado pelo Diário do Transporte, foi a revelação por parte da SPTrans de que a linha 408A-10 Machado de Assis – Cardoso de Almeida, a mais antiga de trólebus do Brasil, inaugurada em 1949, pode perder esse tipo de veículo.
Relembre:
A Companhia Ambiental Transportes Urbanos, operadora, protocolou um pedido junto ao órgão público para substituir definitivamente os trólebus por modelos movidos apenas a bateria. A SPTrans ainda avalia:
Também nesta semana, o Diário do Transporte acompanhou o seminário realizado pelo Sindicato dos Engenheiros do Estado de São Paulo justamente sobre a manutenção dos trólebus na capital paulista. O evento reuniu diversos especialistas das áreas acadêmica, técnica e da indústria que atua nesse setor.
Um dos modelos apontados como viáveis para a capital paulista foi o E-Trol, já largamente utilizado no mundo e que, no Brasil, fará parte da frota do BRT-ABC, sistema de corredores de ônibus que está sendo construído entre São Bernardo do Campo, Santo André e São Caetano do Sul até o terminal Sacomã, na região sudeste. Esse ônibus funciona tanto apenas com bateria, em trechos do trajeto, quanto ligado à rede elétrica.
Relembre:
O ônibus E-Troll do BRT-ABC, que ainda não foi inaugurado, já vai receber uma atualização tecnológica. O Diário do Transporte revelou que a Eletra Industrial, fabricante do modelo, e a Caio, fabricante da carroceria, firmaram um acordo para que o veículo passe a incorporar novas tecnologias de conforto, design e espaço interno.
Essas melhorias também serão usadas na carroceria dos ônibus 100% a bateria do projeto Corredor Verde, de Ricardo Nunes. Esse projeto não prevê trólebus, apenas ônibus movidos a bateria, mas incorpora outras medidas sustentáveis, como reaproveitamento de água da chuva, estações e terminais com aproveitamento de energia solar e maior área de jardinagem.
Relembre:
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes
Yuri Sena, para o Diário do Transporte
