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BRT pode operar como um ‘metrô sobre rodas’? Goiânia aposta que sim

O Diário do Transporte foi a Goiânia (GO) conhecer o funcionamento do sistema, e o que viu foi uma política pública que combina coloca o ônibus como objetivo central

ALEXANDRE PELEGI

Em Goiânia, um projeto está colocando o sistema BRT em seu devido lugar: a meta é mostrar que, apesar de desafios históricos e culturais, o transporte coletivo pode ser quase tão expresso e próximo da eficiência de um metrô.

A iniciativa, não por acaso batizada de “metronização”, prioriza o transporte no viário, algo que historicamente os ônibus raramente conheceram, com exceção de algumas experiências que mudaram ao sabor da troca das gestões.

O Diário do Transporte foi a Goiânia (GO) nesta semana conhecer o funcionamento do sistema, e o que viu foi uma política pública que combina vários fatores que colocam o ônibus como o objetivo central.

Escorada numa frase que se tornou um mantra para o presidente da NTU, Edmundo Pinheiro – “nosso caminho é coletivo” -, as ações na capital localizada no coração do país mostram que, além de infraestrutura e tecnologia, é necessário garantir a operação do sistema de ônibus tendo como foco as pessoas. O motivo é óbvio: a tecnologia jamais é um fim em si mesmo, e só tem função se é parte integrante de um processo em que ela pode, sim, otimizar resultados e garantir agilidade nas soluções. Ao priorizar o ônibus, atende-se à maioria.

O desafio da velocidade em Goiânia

Enquanto a sigla BRT indica velocidade (Bus Rapid Transit quer dizer “ônibus de trânsito rápido”), a operação inicial do sistema na capital goiana era o inverso disso: lenta, com veículos presos em gargalos viários e sem a fluidez prometida, o que escancarava a distância entre conceito e realidade.

Apesar de possuir canaleta exclusiva, o sistema de ônibus rápidos de Goiânia enfrentava um declínio muito acentuado na velocidade operacional, chegando a uma média de 15 km/h. O principal obstáculo identificado para essa lentidão era o semáforo, especialmente aqueles não otimizados para o transporte coletivo de média ou alta capacidade. Na região de maior atratividade de viagens em Goiânia, a densidade semafórica é alta, com um semáforo a cada 220 metros, em média. Diante disso, a pergunta central era: “Como fazer as viagens mais rápidas?“. A resposta encontrada foi reduzir o atraso no vermelho, o que somente um plano de operação viária poderia resolver.

Isso mostra, de saída, que nada funciona se não houver uma política pública que assuma a prioridade ao transporte de pessoas ao invés de veículos. Tudo nasce dessa opção, que exige na largada uma decisão de cunho político: a quem atender? A mobilidade de pessoas ou a fluidez do trânsito?

A solução: a metronização do BRT

A metronização surgiu com o objetivo de recuperar a função do BRT, tornando-o um serviço expresso como o metrô, e fazendo com que os ônibus parem, sempre que possível, apenas nas estações. Essencialmente, é uma hierarquização da rede de atendimento da cidade, onde a escolha foi para colocar o transporte num lugar de maior destaque, e daí receber prioridade absoluta do sistema semafórico.

Tomada a decisão, entra em campo a ferramenta. O sistema opera de forma inteligente estabelecendo uma comunicação em tempo real entre o ônibus e os semáforos. Isso é implementado de duas maneiras na capital:

Transmissor embarcado (tag): Uma tag instalada no veículo comunica sua proximidade ao semáforo, que então distribui o verde para evitar que o veículo pare.

Integração via gestão de frota: O GPS e o ITS (Sistemas Inteligentes de Transporte) do veículo transmitem informações para a Central Integrada de Trânsito e Transporte. Esta central, que confluencia diversas informações de trânsito e transporte, integra esses dados com os semáforos para realizar a priorização, com a vantagem de diminuir significativamente a quantidade de equipamento alocado.

Além disso, um novo plano básico semafórico (plano base) foi implantado para diminuir a necessidade de atuação direta do algoritmo, buscando um sincronismo que minimize os impactos nas vias transversais. No entanto, se não houver verde, um algoritmo atua para reduzir o tempo parado.

O sistema é dinâmico, podendo operar com até sete planos semafóricos distintos ao longo do dia, adaptando-se à sazonalidade e ao fluxo. Ele pode, inclusive, mudar o ciclo semafórico para “limpar a caixa” (dar mais vazão às transversais) após a passagem de um comboio de veículos, evitando a formação de filas. O monitoramento é permanente na Central Integrada de Transporte, com câmeras nos cruzamentos para acompanhar a formação de filas e possibilitar intervenção em tempo real.

O sucesso da metronização é atribuído a um tripé fundamental: gestão com processos, tecnologia inteligente e competência técnica.

Resultados notáveis e impacto positivo

A metronização está atualmente implementada nos trechos BRT Leste Oeste (3.1 km, 4 estações, 12 cruzamentos) e Norte Sul (3.7 km, 8 estações, 9 cruzamentos). O trecho Norte Sul abrange a região de maior atratividade e demanda.

Os resultados têm sido expressivos:

Contexto dos desafios e perspectivas futuras

A implementação da metronização em Goiânia se destaca em um cenário onde o transporte público coletivo historicamente nunca teve prioridade no viário das cidades brasileiras, com o planejamento urbano privilegiando o transporte individual. A metronização representa um passo para superar obstáculos como a resistência social e política à redistribuição do espaço das ruas, a fiscalização deficiente e a falta de planos de mobilidade consistentes.

Resumo da ópera: o problema é, muitas vezes, menos técnico e mais político e cultural.

A metronização, ao demonstrar tecnicamente resultados positivos, busca consolidar a visão de que priorizar o transporte coletivo beneficia a todos, inclusive quem tem carro, ao reduzir congestionamentos.

O projeto é um aprendizado contínuo, com o objetivo de consolidar as melhorias e expandir o sistema para todo o transporte coletivo. Há, ainda, um projeto avançado para o anúncio da próxima parada nas estações, com a ideia de um canto de pássaro, o corrupião, como identificação sonora.

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

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