Especialista de instituto internacional por transporte limpo, na abertura de Frente Parlamentar na Alesp nesta segunda-feira (14) alertou para o fato de que o Estado de São Paulo muito pouco tem feito para deixar os ônibus menos poluentes
ADAMO BAZANI
Colaborou Yuri Sena
A cidade de São Paulo tem sido alvo de críticas pelo fato de como está sendo conduzido o processo de redução de poluição pelo sistema de ônibus. Mas e a gestão estadual, o que está fazendo para o tema? A pergunta foi feita por especialistas e plateia durante audiência de abertura da Frente Parlamentar de Incentivo à Eletromobilidade, na noite desta segunda-feira, 14 de abril de 2025, na Alesp (Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo).
A conclusão é de que pouco ou nada tem feito pelos gestores do Estado para que os sistemas de ônibus tenham mais alternativas, além do próprio diesel.
O que já tem acontecido é que um ônibus verde elétrico do sistema SPTrans (capital paulista), que não solta nenhum poluente no ar, divide a mesma via de um ônibus a diesel com motor dianteiro (muitas vezes até antigo) do sistema metropolitano intermunicipal (EMTU para Artesp), que polui. Mas a omissão do Estado também não pode ser fator que “amenize” erros do município, assim como os erros da prefeitura não podem ser justificativas para uma apontada omissão do Estado também.
ATITUDE PRECIPITADA:
A proibição pela SPTrans (São Paulo Transporte), gerenciadora do sistema municipal da capital paulista, de as empresas de ônibus comprarem modelos a óleo diesel, desde 17 de outubro de 2022, sem que houvesse uma infraestrutura adequada de distribuição de energia para a recarga das baterias dos coletivos elétricos é apontada por especialistas e pelos operadores de transportes como uma atitude precipitada pela prefeitura de São Paulo que tem hoje prejudicado a população, obrigada a andar em ônibus mais velhos que são menos confortáveis e mais sujeitos à quebras, causando descumprimentos de horários e itinerários.
Como tem mostrado o Diário do Transporte, pelo fato de as redes de tensão não terem a capacidade ampliada e não serem feitas as ligações para as garagens, atualmente, cerca de 100 ônibus elétricos zero km estão sem poder rodar porque não há como carregar as baterias destes veículos. Isso obrigou a SPTrans (São Paulo Transporte) a ser mais flexível com as empresas de ônibus, aumentando o limite de idade dos ônibus na cidade de 10 anos para 13 anos. É o que noticiou o Diário do Transporte – Relembre neste link: https://diariodotransporte.com.br/2025/04/10/para-alem-da-dependencia-somente-das-baterias-e-das-distribuidoras-de-energia-eletrica-diversificacao-e-a-palavra/
A LIÇÃO DE BOGOTÁ PARA SÃO PAULO:
O Diário do Transporte esteve em diferentes países e chamou a atenção o caso de Bogotá, na Colômbia, por exemplo, onde, com a mesma ENEL, a eletrificação avançou. Bogotá tem realidades operacionais, econômicas e sociais muito parecidas com São Paulo. Mas pela capital colombiana, a eletrificação teve um desempenho até agora melhor que da capital paulista porque o processo foi feito de maneira diferente: a infraestrutura foi pensada em conjunto com a compra de ônibus, não houve uma proibição radical da compra de ônibus a diesel (que segue permitida), há o uso de gás natural e biometano (gás obtido pela decomposição de resíduos) e, apesar de estar no processo, a ENEL não monopoliza o fornecimento de energia para a eletrificação dos ônibus. O Diário do Transporte esteve em Bogotá em abril de 2024 á convite da fabricante de veículos elétricos BYD, responsável pela maior parte dos coletivos deste tipo da capital colombiana.
Relembre:
ESTADO DE SÃO PAULO ESTÁ PERDENDO OPORTUNIDADES:
Um dos pontos que foram discutidos na Frente Parlamentar de Incentivo à Eletromobilidade, na noite desta segunda-feira, 14 de abril de 2025, na Alesp, é que, apesar de a cidade de São Paulo ter erros e acertos, ainda foram tomadas iniciativas sobre a redução de poluição pelo transporte coletivo sobre pneus. Algo que é pouco visto no Estado.
O pesquisador de Veículos Pesados no ICCT, André Cieplinski, que esteve à mesa de debates no evento da Alesp, diz que é importante que o debate sobre ônibus menos poluentes chegue às frotas intermunicipais e que a eletrificação pode ser até mesmo uma oportunidade econômica para o Estado de São Paulo.
O ICCP (International Council on Clean Transportation) é um órgão internacional que reúne especialistas de diversas áreas voltadas para a redução de poluição pelo transporte.
Uso de energia renovável chegar também na periferia, não ficar só no centro da cidade. Óbvio que a gente sabe que grande parte da população depende e usa muito ônibus, a gente tem visto ônibus elétricos e acho que seria muito importante a gente conversar sobre as frotas intermunicipais, que estão lançadas estadual para a sua eletrificação. Tem alguns estados do Brasil que já estão avançando, né, São Paulo acho que ainda não. E por fim, é o momento de transição na indústria mundial automotiva, é o momento de transição, porém, também, para a indústria automotiva do Brasil, que são as mesmas empresas, no final das contas, e é importante a gente não ficar para trás, e é importante na transição para o veículo elétrico no Brasil, o estado de São Paulo não ficar para trás, porque a gente tem um sistema industrial, milhares de postos de empregos que podem ser substituídos se o nosso estado não se empenhar em desenvolver essa nova tecnologia aqui dentro. – disse.
INICIATIVAS NOS DEDOS DE UMA MÃO:
No Estado de São Paulo, as iniciativas são contadas nos dedos de uma mão.
Uma delas é do mundo acadêmico e para longo prazo. Trata-se de uma parceria entre a USP (Universidade de São Paulo) e o Governo do Estado, que começou pela EMTU (hoje Artesp) sobre hidrogênio obtido a partir do etanol. Para isso, estão sendo usados ônibus de um projeto bem mais antigo, de 2009, que chegaram a rodar no ABC.
Relembre:
A outra ação, na verdade, nem é uma iniciativa em si. É uma concessão que se trata da ampliação de algo que já existia desde 1986: os trólebus do Corredor Metropolitano ABD (entre o ABC Paulista e a capital), que estão sendo modernizados e serão conectados a um novo sistema de transportes, o BRT-ABC, que vai usar um modelo de veículo denominado comercialmente de E-Trol que reúne as tecnologias ônibus à bateria e trólebus, podendo rodar conectados à rede aérea de fiação ou independentemente dos fios, só com as baterias.
É um tipo de veículo novo no Brasil, mas o conceito é amplamente usado no mundo. As vantagens (entre outras): custam 30% mais barato que ônibus somente à bateria, aproveitam redes públicas de energia já instaladas E, como carregam as baterias enquanto trabalham conectados à rede aérea, reduzem ou até dispensam a necessidade de grandes e caras infraestruturas de carregamento nas garagens. São ideais para linhas que rodam em corredores, mas depois saem deles, algo muito comum em São Paulo. A entidade de técnicos “Respira São Paulo” fez um estudo sobre o E-Trol e o aproveitamento da rede de trólebus que na cidade de São Paulo é subutilizada. Veja: https://diariodotransporte.com.br/2025/04/07/ouca-boletim-uma-alternativa-para-onibus-eletricos-em-sao-paulo-nao-ficarem-parados-nas-garagens-rede-de-trolebus-e-subutilizada-e-tem-energia-de-sobra-para-carregar-os-verdinhos/
O Diário do Transporte conversou com a diretora da Eletra, fabricante deste tipo de veículo no Brasil, Ieda Oliveira, que explicou como o E-Trol funciona.
Relembre:
O que os especialistas apontaram no debate é que os erros e acertos da capital paulista podem ao menos servir de lição e inspiração, mas, por enquanto, a gestão estadual está pouco avançando na despoluição do transporte coletivo sobre pneus.
Veja a declaração do especialista na Alesp:
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes
Colaborou Yuri Sena
