Tecnologia traz esperança de um transporte mais inclusivo para PcDs

Reservar um espaço para cadeirantes dentro de um ônibus lotado nem sempre garante o acesso dessas pessoas

Empresa acredita que chegou a hora de inovar e garantir uma mobilidade digna e acessível para todos

ALEXANDRE PELEGI

Segundo dados da OMS, cerca de 15% da população mundial tem mobilidade limitada e, como a tendência demográfica é de envelhecimento, a expectativa é de que este número cresça. O transporte público, no entanto, está longe de prestar a devida atenção a essa crescente demanda. Mas a expectativa é de que muito em breve este quadro mude através da adoção do transporte público sob demanda que chegada recheado de inovações tecnológicas.

Histórico

A comunidade PcD (pessoas com deficiência) foi quem trabalhou e conquistou os primeiros avanços nesse sentido a partir da década de 1970, quando se registrou na Inglaterra o surgimento dos primeiros serviços de Dial a Ride, que a gente pode livremente traduzir como Ligue para transitar, porque bastava ligar para um número para conseguir reservar uma viagem a qualquer canto da cidade.

Mas iniciativas semelhantes ao Dial a Ride eram mantidas por voluntários e associações com um pouco de suporte de subprefeituras e muitas vezes naufragaram justamente no quesito falta de recursos.  Hoje, porém, existem diversos serviços semelhantes espalhados pelo mundo, com funcionamento financiado pelos governos e alta taxa de sucesso.

Por aqui, o movimento dos PcDs começou a deslanchar nos anos 1980, em especial com a chegada da Constituição de 1988, que colocou como lei uma série de direitos dos cidadãos com deficiência.

Só que, quase quarenta anos depois, o que se vê é uma distância enorme entre a legislação brasileira e o asfalto da vida real, onde os obstáculos se multiplicam e revelam o quão ainda estamos distantes de uma inclusão efetiva.

Diagnóstico

Humberto Maciel, sócio-diretor da Optai — empresa especializada em soluções tecnológicas para o setor de transporte — acredita, porém, que chegou a hora de inovar e garantir uma mobilidade digna e acessível para todos.

Durante muito tempo, o transporte público acreditou que bastava ter 100% dos veículos com adaptações como elevadores para cadeirantes. No entanto, o que vemos hoje é que isso não resolve o problema da mobilidade para essa parcela da população”, destaca Maciel.

O primeiro entrave, aliás, é a própria infraestrutura urbana. Calçadas irregulares e mal-conservadas, por exemplo, impedem ou dificultam até mesmo o acesso ao ponto de ônibus.

Um padrão de exclusão

Maciel lembra ainda que o padrão adotado no Brasil para a inclusão de pessoas com deficiência tenta tratar todos os indivíduos de uma forma igual, só que acaba ignorando as necessidades específicas dos diferentes grupos com dificuldades de locomoção. “Colocar um espaço para cadeirantes dentro de um ônibus lotado e instalar um elevador nem sempre garante o acesso dessas pessoas. Muitas vezes, esses espaços não são respeitados pelos outros passageiros, e os elevadores, frequentemente, estão quebrados por mau uso”, explica o administrador, que tem mestrado em administração com trabalho no tema de mobilidade sustentável.

Para o diretor da Optai, é preciso subverter esta lógica estruturante do nosso transporte e partir para soluções sob medida para um grupo diverso e crescente da nossa população. Mas como? Voltando à raiz do Dial and ride, mas agora com uma forte dose de tecnologia e apoio institucional.

A grande inversão do paradigma

A ideia é adotar com vigor o transporte sob demanda, uma modalidade que permite que os passageiros solicitem o transporte quando e onde precisam, sem muitas amarras quanto a horários ou rotas fixas.

Para Maciel, esse caminho é a inversão essencial do paradigma até há pouco venerado: “Ao invés de oferecer um serviço padronizado e esperar que o usuário se encaixe nele, o transporte ajusta a oferta conforme as necessidades do passageiro, ou seja, se ajusta à demanda” e assim corta custos, ganha eficiência e ainda satisfação do cliente.

Casos de sucesso

O Atende+ da cidade de São Paulo é um caso de sucesso de transporte sob demanda e que em 2026 completará exatos trinta anos de idade. Batizado de Serviço de Atendimento Especial, ele é leva e traz pessoas cadastradas de maneira gratuita, oferecendo um porta a porta que funciona das 7h às 20 horas, de segunda a segunda, exceto feriados, para pessoas com certos níveis de autismo ou em casos de surdocegueira ou deficiência física severa que sejam residentes da capital paulista.

Campeão de aprovação, o Atende+ tem agora uma parceria com a Optai e deve apresentar em breve algumas otimizações. Aliás, a própria Optai tem se destacado no ramo, tendo participado da implantação de um sistema desse tipo em Caixas do Sul, cidade das serras gaúchas com cerca de meio milhão de habitantes. Por lá o serviço de atendimento a PCDs é conhecido como L62 Especial e muito breve estará na palma das mãos das pessoas através de um aplicativo.

Tecnologia amplia efeito de ganha-ganha

A tecnologia permite ajustar a oferta à necessidade real do passageiro, evitando o desperdício e melhorando a qualidade do serviço. Ela também oferece um grande controle para os operadores e gestores públicos, permitindo monitorar o desempenho dos veículos, avaliar a eficiência do serviço e identificar pontos de melhoria”, completa Maciel.

E assim, com um transporte público seguindo modelos mais flexíveis e inteligentes, todo os envolvidos têm vantagens de conforto, disponibilidade, acessibilidade, economia e transparência. Por isso mesmo, Maciel acredita que o Brasil tem o potencial de se tornar referência em soluções inovadoras de transporte público, especialmente para pessoas com deficiência. “Com as ferramentas certas e a disposição para repensar os modelos tradicionais, podemos construir um sistema de transporte que realmente atenda a todos, sem excluir ninguém“, conclui o sócio-diretor da OPTAI.

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

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Comentários

Comentários

  1. laurindojunqueira disse:

    Alexandre, boa noite! A primeira iniciativa brasileira referente ao transporte de PCDs coube ao Metrô de SP. Criamos um software que permitia o seu atendimento personalizado: todos os nossos agentes foram treinados para conduzi-los e o aplicativo garantia que sempre haveria algum agente recepcionando-o na estação de destino. Cerca de mil PCDs foram treinados para se deslocarem com segurança nas escadas rolantes, trens e corredores. Depois disso, corrigimos o equívoco de não termos instalado elevadores nas estações e terminais e providenciamos sua instalação em todas as estações.

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