Evento também apresentou uma série de palestras esclarecedoras sobre os rumos do transporte coletivo
ADAMO BAZANI
ROSA M. SYMANSKI
Um desfile de novos modelos de ônibus com múltiplas inovações a bordo, tecnologias disruptivas ligadas à mobilidade, além de apresentações de cases de negócios inéditos no mundo dos transportes, fizeram da capital paulista a maior referência do setor na LatBus 2024. Paralelamente ao evento, conferências com especialistas renomados apresentaram desde modelos inovadores de negócios no setor a até as últimas novidades da descarbonização, entre outros temas.
Estimativas preliminares indicam que cerca de 20 mil pessoas encheram os corredores do Expo São Paulo, nos dias 6,7 e 8 de agosto. A LatBus 2024 teve mais de 150 marcas em exposição e visitantes de 28 países. Gigantes do setor de ônibus apresentaram os seus últimos lançamentos, presenteando o público com veículos equipados com tecnologias de última geração.
A começar pela Mercedes-Benz com o modelo eO500UA, lançado na feira, ocasião em que ocorreram as primeiras negociações de 105 unidades para a capital paulista. A fabricante alemã também apresentou o modelo OF 1619 L, de 16 toneladas, que agora recebe suspensão pneumática. Com isso, toda a linha de motores dianteiros passa a ter esta opção que, segundo a Mercedes-Benz, oferece maior conforto e menos custo de manutenção.
Outra novidade do conglomerado alemão foi o LO 1116- Micro-ônibus com maior capacidade e PBT de 1,4 tonelada a mais. Para carrocerias entre 9,2 e 10,4 metros, permite transportar entre 15 a 20 passageiros nas aplicações urbanas e ter entre 4 e 8 assentos nas aplicações rodoviárias.
Marcando forte presença no evento, a Marcopolo apresentou nove modelos no evento com as marcas Marcopolo e Volare. Com a marca Marcopolo foram cinco modelos: o novo Viaggio G8 1050, Paradiso G8 1200, Paradiso G8 1350 e Paradiso G8 1800 DD, todos rodoviários, e o urbano Attivi Integral 100% elétrico, com uma inédita e inovadora configuração interna. A Geração 8 já registra a marca de mais de quatro mil unidades comercializadas, desse total, 2.150 são do modelo Double Decker. Além disso, 850 foram destinados para o mercado internacional. O sucesso dos ônibus desta categoria se deve a fatores como a renovação das frotas por parte das empresas rodoviárias, que buscam o aumento de conforto e segurança para os passageiros. “O sucesso da Geração 8 no Brasil e no exterior é uma realidade. Estamos focados e trabalhando para lançar os modelos G8 na maioria dos mercados nos quais atuamos, inicialmente com a produção no Brasil, agora no México e Colômbia, e exportação para países como a África do Sul, onde recentemente reunimos nossos clientes e parceiros para evento de lançamento”, afirma André Vidal Armaganijan, CEO da Marcopolo.
A Busscar, por sua vez, apresentou o modelo de ônibus de dois andares que integra a linha de produtos denominada NB1: o Panorâmico DD NB1. A fabricante também anunciou que ao longo de 2025, serão lançados os modelos LD (Low Driver, com amplos bagageiros) e 385 da família NB1 .
Na BYD, o destaque ficou com o primeiro ônibus articulado D11B desenvolvido para a cidade de São Paulo e um chassi de D9W.
A Volare, fabricante de ônibus leves da Marcopolo apresentou diversos modelos: o Micro-ônibus híbrido (elétrico + etanol): Attack 9 HVE; o“Super Micro”: Fly 12, com capacidade para 45 passageiros; o Micro-ônibus para operações severas: Attack 8, e o Escolar e fretamento: Attack 10.
O diretor de Operações Comerciais Mercado interno e Marketing da Volare, Ricardo Portolan, disse que diferentes segmentos precisam de modelos específicos. Não basta fazer um único modelo para tudo. É necessário responder às mais variadas exigências e os lançamentos vão atender necessidades que até então não eram plenamente contempladas.
A Eletra Industrial anunciou o lançamento de três modelos de chassis de ônibus elétricos de marca própria. Os veículos serão de 12, 15 e 21,5 metros. O primeiro modelo, que já deve estar rodando experimentalmente em setembro é o articulado de 21,5 metros.
A revelação foi feita pela diretora executiva da empresa, Iêda Oliveira, ao Diário do Transporte, na Lat.Bus 2024. Existem vantagens neste modelo de produção. A fabricação é mais rápida, pelo fato da logística ser mais eficiente. Além disso, o custo total do ônibus tende a cair”, afirma.
A Irizar, por sua vez, apresentou como novidade da marca na Lat.Bus 2024, o i6s Efficient para o mercado brasileiro e toda a América Latina. O modelo, comercializado na Europa há dois anos, recebeu adaptações para a realidade operacional do Brasil e países vizinhos. A fabricante quer atender um segmento de linhas rodoviárias e de fretamento em que é necessário oferecer alto conforto, com redução de custos operacionais em trajetos, inclusive que exigem um gasto maior de diesel por duas características operacionais e topográficas.
Segundo a Irizar, o coeficiente aerodinâmico foi reduzido em 30%. O peso também foi reduzido com a adoção a um tipo de aço mais resistente e mais leve.
A Volvo, por sua vez, anunciou que quer tornar a planta brasileira de Curitiba exportadora de ônibus elétricos para a América Latina. Os veículos que devem ser produzidos no Paraná a partir de 2025, foram apresentados no evento: o Padron BZR 4×2 para carrocerias de até 13,5 metros com capacidade para 90 passageiros e o BZRT nas versões articulada e biarticulada que, na configuração maior, pode ter 28 metros de comprimento e transportar até 250 passageiros.
O presidente da Volvo Buses na América Latina, André Marques, afirmou que serão produzidas no Brasil a partir de 2025, diferentes versões do modelo.
O BZR pode ser de piso alto, com degraus, ou piso baixo com rampa na porta de entrada, denominado BZRLE (Low Entry). “Trata-se do mais recente lançamento global da Volvo Buses, com tecnologia de ponta. O chassi foi apresentado há poucos meses, na Europa, e já estamos disponibilizando em nosso mercado. Em 2025 temos planos de iniciar a produção deste modelo nas suas diversas versões em nossa fábrica de Curitiba”, explicou Marques.
Inúmeros destaques foram apresentados pela Volkswagen na Latbus 2024. Como, por exemplo, o novo modelo de chassi de ônibus 18.320 SH para operações de fretamento rodoviário com ônibus de piso alto, o maior da marca neste segmento. A suspensão é 100% pneumática e o chassi é equipado com motor 6,9 litros, 320 cv de potencia e 1200 Nm de torque. A transmissão automática tem oito velocidades. O chassi pode receber carrocerias de ate 14 metros.
Outro destaque foi o 18.320 L para aplicações urbanas de piso baixo que amplia o portfolio da marca nesse segmento. O veiculo também possui suspensão pneumática. A fabricante também destacou o 22.260 S de 15 metros, que está em nova versão. O veiculo tem uma capacidade para 22 toneladas e pode receber ate 115 passageiros. A Volkswagen também fez o lançamento oficial do seu modelo de ônibus elétrico para o Brasil. Trata-se do e-Volksbus 22L.
Vendas
A tradição da LatBus como um importante polo de negócios no setor de ônibus ficou evidente nesses dias de realização da feira. A Scania, por exemplo, divulgou de forma exclusiva ao Diário do Transporte, o balanço parcial de vendas na Lat.Bus 2024. Até a tarde de quinta-feira, 08 de agosto, ao menos 100 chassis de ônibus foram comercializados.
De acordo com o gerente de Vendas de Soluções em Mobilidade da Scania Brasil, Gustavo Cecchetto, todos os modelos de ônibus rodoviários tiveram vendas na feira, mas novamente o sucesso foi a plataforma de três eixos K410 6×2.
Outro anúncio importante foi feito pelo secretário de Mobilidade Urbana de Porto Alegre, Adão de Castro Junior, em entrevista à aliança jornalística Diário do Transporte/Podcast do Transporte/OTM. Segundo ele, a Prefeitura de Porto Alegre (RS) vai dar início a um projeto para que a cidade tenha BRTs (Bus Rapid Transit) operados integralmente com ônibus elétricos.
Castro disse que a cidade já tem corredores de pavimento rígido, que a prefeitura trabalha na ampliação destas estruturas e já na modelagem de um novo sistema de linhas e terminais. Os ônibus devem contar com eletroterminais para a recarga de baterias. Serão quatro estruturas deste tipo.
Produtos & Tecnologias
O setor de produtos apresentou ampla oferta de novidades. A Transdata, por exemplo, demonstrou o “super aplicativo” AtlasMob + ABT. Além de oferecer todas as funções de cadastro e soluções que facilitam a rotina dos passageiros, o aplicativo também integra o recurso de carteira digital (ABT).
A Marcopolo, por sua vez, teve como destaque uma configuração renovada de ar-condicionado para ônibus rodoviários, em especial para os modelos de dois andares, os DDs (Double Decker). Uma das características da tecnologia é o “dual zone”, que permite que o motorista selecione uma temperatura para seu posto de trabalho e outra temperatura para as áreas dos passageiros, no primeiro e segundo andares.
A Empresa 1 apresentou várias soluções tecnológicas de última geração, entre elas, o Validador Embarcado Sigom Pass SPX800. Além de descontar a tarifa ou confirmar o pagamento, a solução oferece funcionalidades adicionais como gestão de frota e recolha de dados de distância, tempo e localização. Outra inovação foi apresentada pela By Solution, empresa que se dedica ao desenvolvimento de soluções através do uso inteligente da tecnologia que fez demonstrações sobre o uso da Inteligência Artificial (IA) no transporte.
Perda de passageiros
Durante a conferência da NTU foi apresentada a Pesquisa CNT de Mobilidade da População Urbana, que apontou diminuição significativa no percentual de pessoas de usuários de ônibus. Neste ano de 2024, o quantitativo é 14,3 pontos percentuais menor na comparação com 2017, quando a parcela que utilizava esse veículo era de 45,2%. Nesse mesmo sentido, o uso do metrô reduziu de 4,6% para 4,2%.
Segundo a CNT, entre os fatores que podem ter influenciado a queda, estão o aumento da utilização do carro próprio, que passou de 22,2% para 29,6% no período, e a obtenção de moto própria, que também teve um salto significativo. A utilização desta mais que duplicou, saltando de 5,1% para 10,9% em sete anos.
Outro dado revelador é que os aplicativos de transporte têm “roubado” parcelas cada vez maiores de passageiros de ônibus, trens e metrôs. De acordo com o levantamento, que ouviu 3.117 pessoas, em 319 municípios com mais de 100 mil habitantes, de 18 de abril a 11 de maio, entre 2017 e 2024, a modalidade de aplicativos, dentro do grupo de viagens realizadas em veículo particular, teve uma evolução expressiva neste período de sete anos, passando de 1,0%, em 2017, para 11,1%, em 2024.
Descarbonização
Durante o debate da NTU foi feito o alerta de que o Brasil é um dos maiores emissores de gases de efeito estufa do mundo. E que 70% das emissões são feitas por transporte particular, que não transporta nem 30% da população total. Francisco Scroffa, CEO da Enel X, observou que “a transição para um sistema de transporte mais limpo e eficiente é essencial para alcançar os objetivos de redução das emissões e promover uma mobilidade urbana sustentável”.
Ieda Maria, diretora executiva da Eletra, por sua vez, observou, durante a sua exposição, que os ônibus elétricos são uma solução crucial para enfrentar os desafios da mobilidade urbana e da sustentabilidade ambiental. “Eles oferecem uma série de benefícios, desde a redução das emissões de poluentes e gases de efeito estufa até a eficiência energética e a melhoria da qualidade de vida nas cidades. A adoção crescente dessa tecnologia pode transformar o transporte público, tornando-o mais limpo, eficiente e atraente para os usuários, ao mesmo tempo em que contribui para um futuro mais sustentável e saudável para todos”, pontuou.
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes
Rosa M. Symanski, especial para o Diário do Transporte
