Ícone do site Diário do Transporte

Ônibus elétricos em Londres são retirados de operação preventivamente após incêndio

Fabricante Switch Mobility, subsidiária da empresa indiana Ashok Leyland, tem acusado maioria dos incêndios

Fogo em veículo da frota da operadora GoAhead ocasionou a medida; na capital do Reino Unido, bombeiros adotam protocolo nacional para enfrentar casos desse tipo

ALEXANDRE PELEGI

A TfL (Transport for London), que gerencia o sistema de transporte público na capital do Reino Unido, retirou vários ônibus elétricos temporariamente das ruas depois que um dos veículos de dois andares entrou em chamas em Wimbledon, sudoeste da cidade.

O incêndio no ônibus da rota 200 em Wimbledon Hill Road aconteceu na manhã de quinta-feira, 11 de janeiro de 2024.

A Polícia Metropolitana e o Corpo de Bombeiros de Londres não relataram feridos. A TfL investiga a causa do sinistro.

No entanto, e por medida de segurança, todos os ônibus do mesmo modelo que operam ao longo da rota 200 – entre Raynes Park e Mitcham – foram temporariamente retirados de circulação.

Há uma pressão de parlamentares conservadores sobre a prefeitura de Londres para que todos os ônibus elétricos do mesmo fabricante, Switch Mobility, subsidiária da empresa indiana Ashok Leyland, sejam retirados das ruas até a descoberta da causa do incidente de Wimbledon.

No dia seguinte ao incêndio, sexta-feira (12), um segundo incêndio em ônibus híbrido em North Woolwich, ao leste de Londres, aconteceu por volta das 6h40. Não havia passageiros no ônibus, informou o Corpo de Bombeiros.

OPERAÇÃO TEM PROTOCOLO

Ao contrário de São Paulo, que ainda não tem um protocolo estabelecido sobre como combater incêndio em ônibus elétricos e demais veículos deste tipo, em Londres a realidade é outra. (Leia matéria sobre isso:

ENTREVISTA: Não existe protocolo para combater incêndio em ônibus elétricos e Bombeiros de SP se preocupam com aumento de frota

Em resposta ao Diário do Transporte, que solicitou informações sobre o tema, a Assessoria de Imprensa do Corpo de Bombeiros da capital do Reino Unido relatou seguir as orientações nacionais sobre isso.

Um guia disposto na página do Conselho Nacional de Chefes de Bombeiros detalha como se deve proceder em casos de emergências com veículos com combustíveis alternativos. Pelo que se lê, no entanto, é essencial uma participação direta dos fabricantes, com informações precisas de cada tecnologia e modelo, para que as ações possam ser prontamente tomadas em casos emergenciais. As diferenças de modelos podem atrapalhar as estratégias de abordagem e ataque dos profissionais.

O termo ‘veículo com combustível alternativo’ (AFV, sigla em inglês para ‘Alternatively Fuelled Vehicle’) refere-se a veículos movidos a combustíveis diferentes de gasolina ou diesel.

“Os perigos e as medidas de controle para incidentes envolvendo AFV devem ser considerados juntamente com aqueles que se aplicam a outros veículos rodoviários”, explica o Guia.

Atualmente com mil ônibus elétricos operando na cidade (marca alcançada em agosto de 2023), Londres já enfrentou uma situação assim em maio de 2022, quando a gerenciadora Transport for London (TfL) determinou um recall de 90 ônibus elétricos depois que um incêndio envolveu um deles.

A medida cautelar foi decidida após um incêndio ocorrido no depósito Potters Bar, em Hertfordshire, administrado pela operadora Metroline ao sul da capital. Seis ônibus foram danificados. Com a suspensão da frota de ônibus elétricos, a interrupção afetou cerca de cinco rotas que operavam na região, ligada à capital.

Os ônibus foram fabricados pela Switch Mobility, da Inglaterra, uma subsidiária da empresa indiana Ashok Leyland.

A Switch Mobility soltou uma nota logo após o ocorrido, aconselhando todos os operadores, como medida de precaução, “a não carregarem ou utilizarem veículos que utilizem a mesma tecnologia de bateria dos veículos envolvidos enquanto as investigações continuam”.

Em junho daquele ano os bombeiros foram novamente chamados para debelar um incêndio em outro ônibus elétrico na região de Brixton, zona sul da capital.

O motorista e 20 passageiros deixaram o veículo antes da chegada dos bombeiros. Sem feridos, as chamas foram debeladas em 30 minutos.

Londres atingiu a marca de 1 mil elétricos em agosto de 2023

DOCUMENTO DOS BOMBEIROS DA INGLATERRA

O documento do Conselho Nacional de Chefes de Bombeiros que o Diário do Transporte teve acesso descreve as diferentes formas de alimentação desses veículos (AFVs):

Células de combustível de alta tensão (baterias)

Gás natural comprimido (GNC)

Gás natural liquefeito (GNL)

Biocombustíveis

Células de combustível de hidrogênio

Baterias recarregáveis

Em casos de emergência, ou seja, quando o incidente já está em andamento, o Guia esclarece que os AFVs podem ser difíceis de identificar. “Eles têm marcações externas limitadas que podem ser danificadas em uma colisão e podem ser acionados sem sinais de que o motor esteja funcionando, como ruído do motor ou emissão de gases de escapamento, principalmente quando parado. Embora estes perigos não sejam exclusivos dos AFV, é mais provável que estejam presentes do que em veículos mais antigos ou naqueles movidos por uma única fonte de combustível, gasolina ou diesel”, esclarece o documento.

Os AFVs afetados por colisão, incêndio ou submersão podem apresentar perigos, o que inclui movimentos de veículos descontrolados ou imprevisíveis, a liberação de gases inflamáveis ​​e tóxicos, além da explosão de célula de combustível ou bateria.

Nos sistemas de alta tensão, a carga residual pode permanecer por períodos prolongados após o isolamento, alerta o guia.

Deixando claro que tais perigos também podem resultar de atividades operacionais, o documento cita a liberação de materiais perigosos, incluindo gás liquefeito de petróleo (GLP), hidrogênio e células de íons de lítio, assim como vazamento de eletrólitos das células de combustível.

Ônibus híbrido em Londres, operado pela GoAhead

ÔNIBUS A BATERIA

No caso dos ônibus elétricos que São Paulo está prestes a adotar em larga escala, como promete o prefeito Ricardo Nunes, as baterias recarregáveis ​​podem trazer um complicador a mais: “as marcações dos veículos variam e podem ser enganosas, especialmente se tiverem sido modificadas. Os designs e localizações das baterias também variam, por isso não é possível fornecer aqui um guia para todos os diferentes tipos”.

Muitos veículos contêm bandejas de baterias intercambiáveis, portanto, o próprio tipo de bateria pode ser alterado; por exemplo, uma bateria poderia ser alterada de níquel-cádmio para íon-lítio, o que pode fazer parte de uma atualização da fabricação de veículos. As células da bateria podem estar presentes aos milhares, geralmente localizadas sob o piso do veículo e pesam mais de 500 kg”, pontua o documento.

O acesso às bandejas de bateria em um veículo danificado pode ser limitado. Antes de manusear ou lidar com incidentes envolvendo baterias de alta tensão, o pessoal deve procurar aconselhamento especializado ou considerar as orientações do fabricante para obter informações sobre meios de combate a incêndio apropriados, acesso e isolamento.

Ou seja, a depender do fabricante, as situações de como enfrentar incêndios, por exemplo, podem variar.

Prossegue o documento do Corpo de Bombeiros do Reino Unido:

“A presença de metais reativos, como o lítio, pode provocar a liberação de gases explosivos, tóxicos e de solução alcalina, causados ​​por reação química com água, por exemplo, hidróxido de lítio (LiOH) e hidrogênio (H2). Isso pode parecer vapor.

Em uma colisão, as baterias podem ficar sujeitas a superaquecimento devido a fuga térmica ou vazamento de eletrólitos. Será difícil identificar qual bateria individual ou grupo de baterias está envolvida.

A fuga térmica é um aumento acelerado da temperatura causado por reações químicas, que pode levar a incêndio, explosão, liberação de eletrólito orgânico altamente inflamável que é liberado sob pressão e comportamento imprevisível do fogo. Isto pode ser o resultado de variações de temperatura limitadas a apenas uma ou a um pequeno número de células danificadas e pode causar ignição que ocorre espontaneamente em intervalos de tempo variados”.

Veja a seguir um resumo das orientações:

Medida de controle – imobilizar veículos movidos a combustíveis alternativos

Os AFVs podem usar sistemas de acionamento silenciosos, como motores elétricos, e podem dar partida ou se mover sem aviso quando o acelerador é pressionado ou o freio é liberado. Isto deve ser considerado ao aproximar e imobilizar um AFV. Também é necessário calçar as rodas dianteiras e traseiras e estabelecer:

Os tipos de combustível

O modo de ignição

Como o veículo é ativado, por exemplo, chaves de proximidade, chaves inteligentes ou controles remotos sem chave.

O pessoal deve considerar colocar o veículo em ponto morto para evitar ativação acidental e aplicar o freio de estacionamento, consultando as orientações do fabricante, se necessário.

Medida de controle – Isolar sistemas de alta tensão.

Esta medida de controle deve ser adotada em conjunto com o as medidas de isolamento de sistemas de alta tensão em veículos movidos a combustíveis alternativos. O pessoal deve isolar os sistemas de alta tensão para reduzir o risco de ativação acidental ou eletrocussão.

Fontes de informação como o motorista, orientações do fabricante ou informações armazenadas em terminais de dados móveis podem ajudar na identificação do método apropriado de isolamento de um AFV.

Os métodos comuns de isolamento dos sistemas de alta tensão incluem:

Desconectando a bateria de 12 volts. Observe que alguns veículos podem ter mais de um

Removendo o fusível principal do veículo

Removendo o plugue de desligamento de emergência

Alguns veículos movidos a combustível alternativo possuem sensores no compartimento do motor que isolam automaticamente a alimentação de alta tensão em caso de colisão.

Medida de controle – Estabilizar e acessar veículos movidos a combustíveis alternativos

A estabilização ou acesso aos AFV pode comprometer, danificar ou resultar em contato com linhas de combustível, cabos de alta tensão ou células de combustível. Estes componentes estão normalmente localizados em áreas protegidas sob o veículo ou dentro dos painéis do veículo; no entanto, eles podem se soltar durante uma colisão.

A posição de repouso de um AFV após uma colisão pode não ser convencional devido à sua distribuição de peso. Isto deve ser considerado ao tentar estabilizar um AFV.

O uso de técnicas convencionais pode causar danos às células de combustível ou a outros componentes. Portanto, as técnicas utilizadas devem ser adaptadas, considerando a posição dos perigos adicionais presentes num AFV.

Fonte: Conselho Nacional de Chefes de Bombeiros (NFCC) – Orientação Operacional Nacional – Perigos, Estradas, AFV.

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

Sair da versão mobile