Encarroçadora teve destaque ao desenvolver projeto para a Cometa, mas muitos urbanos da marca foram presentes nas cidades brasileiras
ADAMO BAZANI
Quando se fala em carroceria Striuli, a primeira e mais marcante lembrança é em relação aos portentosos os ônibus da Viação Cometa, que se destacaram nas estradas brasileiras, principalmente no final da década de 1950 e início da década de 1960.
A fabricante aceitou o desafio da Viação Cometa de produzir ônibus de qualidade com os diferenciais presentes nos veículos norte-americanos da GM que tornaram transportadora um ícone na ligação Rio-São Paulo. No final dos anos de 1950, por causa das políticas de proteção à indústria nacional, era praticamente impossível realizar importações de ônibus. Assim, a Cometa queria continuar operando ônibus com padrão superior, mas esses veículos precisavam ser produzidos no Brasil.
No entanto, a encarroçadora de ônibus fundada por Luigi Giovanni Striuli, em 1958, foi além e teve um importante papel no mercado de ônibus urbanos. Entre alguns dos modelos de urbanos que tiveram destaque estavam o Striuli Prímula, do início dos anos de 1960, o Striuli Cityrama, apresentado no Salão do Automóvel de 1966, e o Striuli Granluce, que foi lançado em 1968, sendo o primeiro ônibus de teto plano do País.
As atividades da empresa começaram em galpões na Vila Carrão, na zona leste de São Paulo, mas logo no início dos anos de 1960, a indústria tinha se mudado para uma nova planta em Guarulhos, na Grande São Paulo.
Diversas cidades brasileiras tiveram modelos urbanos da Striuli.
Entre as regiões que a companhia se destacou com seus ônibus, estava o ABC Paulista, nos anos 1950/1960 ainda não na configuração atual das cidades, e na capital, estando presente inclusive na frota da CMTC – Companhia Municipal de Transportes Coletivos.
Na foto abaixo, é possível ver a traseira de um ônibus da EAOSA – Empresa Auto Ônibus Santo André, em Mauá. Com base na imagem, o historiador Mário dos Santos Custódio relembra da presença da marca Striuli na frota das empresas de ônibus do ABC:
O carro 47 é um Striuli e o da frente é um Asirma. Por incrível que pareça, andei nesses carros, indo pra SP. O Striuli tinha a cor marrom claro na saia, na capota e na listra, onde estava escrito MAUÁ – SANTO ANDRÉ – SÃO CAETANO – SÃO PAULO. O restante era branco.
Várias companhias tinham Striulis no ABC, cabendo-me citar de memória a Viação RIBEIRÃO PIRES, cujo design nessa época era exatamente o mesmo, apenas mudando a cor, que era verde escuro na saia, na capota e na listra, onde estava escrito RIBEIRÃO PIRES – MAUÁ – SANTO ANDRÉ – SÃO CAETANO – SÃO PAULO. O restante era branco. Quando a VIRIPISA comprou os Nimbus a cor passou de verde escuro para verde claro.
Lembro-me também da Viação SANTA TEREZINHA, que com seus Striulis na cor azul marinho, vermelho e branco faziam a linha CAPUAVA – PARQUE DOM PEDRO II – via Santa Terezinha. Como é sabido, a SANTA TEREZINHA foi a sucessora do Expresso CAPUAVA.
Além disso, a AVVA – Auto Viação VILA ALPINA, quando inaugurou em meados de 1970 a linha VILA JUNQUEIRA – SANTO ANDRÉ (ponto final na Rua BRAÚNA esquina da R DIAS DA SILVA), também operou com Striulis, diferenciando-se os carros da cor azul clara e amarela para azul- não sei a razão, acho que veio assim da encarroçadora.
Os Asirmas seguiam a mesma pintura. De memória, lembro-me de Asirmas na Auto Viação ANDREENSE, que fazia a linha VILA HELENA – PARQUE DOM PEDRO II via Vila Industrial, nas cores azul clara, azul escura e branca (ponto final na R LUÍS SILVA entre a Rua HORTÊNSIAS e Avenida ANDRADE NEVES), na Viação SÃO CAMILO, que fazia a linha IPIRANGUINHA – PARQUE DOM PEDRO II via Parque das Nações, nas cores azul marinho, amarelo e branco (ponto final na R SETE DE SETEMBRO entre R MANAUS e R CORONEL SEABRA – Em frente ao Corinthians Santo André ‘Corintinha’) e do Expresso SANTA RITA, nas cores azul, amarelo e branco, nas linhas VILA LUCINDA – SANTO ANDRÉ (ponto final na PC LUCINDA FERREIRA), JARDIM ANA MARIA – SANTO ANDRÉ (ponto final na Praça CAMARGOS) e FAZENDA DA JUTA – SANTO ANDRÉ (ponto final na ESTRADA DP ORATORIO, onde hoje se situa o Terminal JD SÔNIA MARIA).
Relembro que o Expresso SANTA RITA fazia apenas a linha FAZENDA DA JUTA – SANTO ANDRÉ. Quando comprou a linha VL LUCINDA da Viação BORDA DO CAMPO e a linha JD ANA MARIA da Transportes Coletivos SÃO FRANCISCO é que começou a ampliar suas linhas. Relembro também que a BORDA DO CAMPO foi antecessora da TRANSBUS, fazendo linha urbana em SBC e a SÃO FRANCISCO operava a linha JARDIM MIRIAM, em SÃO PAULO. Interessante notar que todos tinham pintura semelhante. Os primeiros carros tanto da BORDA DO CAMPO quanto da SÃO FRANCISCO foram Bossas Novas (da Caio).
CMTC E O FILHO ÚNICO DA GATTI:
Na CMTC, os ônibus da Striulli foram usados em diversas linhas.
No final dos anos de 1960, a CMTC chegou a utilizar carrocerias Striul no processo de modernização dos trólebus do sistema da capital paulista. As carrocerias antes equipavam os veículos diesel com mecânica Magirus, que haviam sido desativados.
A encarroçadora Striuli, que em 1969 tinha planos de construir uma fábrica em Curitiba e apresentar um modelo de ônibus de dois andares tanto para o mercado urbano como para o rodoviário, sentiu a crise no setor industrial do início de 1970. Em maio do mesmo ano, a encarroçadora foi assumida integralmente pelo grupo de Paschoal Thomeu, que foi empresário e prefeito de Guarulhos e que também operava ônibus na Capital Paulista. Desde 1966, ele já era proprietário de 50% da Striuli.
Em 1972, as atividades da Striuli chegavam ao final. Antes, porém, um modelo curioso e único – porque teve apenas um veículo – foi uma espécie de despedida em grande estilo. Era um micro-ônibus com design moderno e polêmico para época que foi fornecido para a Gatti Turismo
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes
