Resultado do Chamamento Público, encerrado no dia 17 de abril, ideias e colaborações serão analisadas pela equipe técnica da SPTrans
ALEXANDRE PELEGI/ADAMO BAZANI
A Prefeitura de São Paulo, por meio da Setram – Secretaria Executiva de Transporte e Mobilidade Urbana e SPTrans – São Paulo Transporte S/A, publicou nesta sexta-feira, 05 de maio de 2023, o resultado do processo de “Chamamento Público” destinado a coletar sugestões quanto à implantação do “Projeto Tarifa Zero” no Sistema de Transporte Coletivo de ônibus da capital.
Encerrado no dia 17 de abril passado, o chamamento recebeu 20 contribuições, a maioria de pessoas físicas, com exceção do Centro Cultural São Paulo e do Instituto de Engenharia.
O tema é visto com muita desconfiança por especialistas e há questões que o prefeito Ricardo Nunes ainda não esclareceu como as integrações com os trilhos caso trem e metrô não sejam de graça e a infraestrutra insuficiente na cidade para ônibus, ainda mais com a prefeitura admitindo que vai atrasar a entrega de corredores e terminais e eliminado a meta de 420 km de vias a mais com ônibus.
Para subsidiar as colaborações, a prefeitura abriu os dados do Sistema de Transporte Coletivo para consulta dos interessados.
Ainda de acordo com a publicação desta sexta (05), a SETRAM comunica que as contribuições serão submetidas à equipe técnica da SPTrans “para análise quanto aos estudos internos que estão sendo realizados, podendo ser eventualmente incorporados”.
Veja a seguir a publicação com a relação dos que contribuíram com o projeto:
FRENTE DE PREFEITOS
(ADAMO BAZANI)
Como mostrou o Diário do Transporte, nessa quarta-feira (03) prefeitos de diversas partes do país se reuniram e reiteraram a necessidade da criação de uma espécie de “SUS dos Transportes”.
Enquanto os chefes dos executivos municipais ainda não conseguem sequer recursos fixos para as gratuidades das pessoas com 65 anos ou mais, o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, volta a falar do “tarifa zero” para todos os passageiros dos ônibus municipais.
Segundo nota da prefeitura de São Paulo, Nunes reafirmou o compromisso da gestão municipal com a realização de estudos para viabilização da tarifa zero no transporte da cidade.
“As cidades que instituíram a gratuidade no Brasil tiveram uma melhora na economia. Melhorando a economia, melhorou a questão do emprego. E tem uma questão, inclusive ambiental, já que 66% da emissão de gases de efeito estufa são provenientes dos veículos que circulam pelas cidades” – disse de acordo com a nota.
O tema tarifa zero foi lançado pelo prefeito Ricardo Nunes, que diz que a SPTrans avança nos estudos. Mas ainda há uma série de dúvidas e entraves, como os custos da gratuidade total e as fontes de recursos. O sistema de ônibus em São Paulo custou, em 2022, R$ 10 bilhões e, a estimativa para este ano é ter custos de R$ 12 bilhões.
Ocorre que há a estimativa de estes custos aumentarem ainda mais com o “Tarifa Zero”, porque mais gente irá para os ônibus, o que exigirá ampliação da frota e da infraestrutura de terminais e corredores que já é insuficiente para os 13,2 mil coletivos atuais.
Além disso, pode haver uma migração de passageiros do metrô e dos trens para os ônibus se o sistema de trilhos não for também gratuito. Além disso, na conta dos R$ 12 bilhões não está prevista a inclusão dos ônibus elétricos. Cada veículo elétrico pode custar até R$ 3 milhões e ainda tem a infraestrutura de recarga de baterias e distribuição de energia. Para esta eletrificação, haverá uma fonte específica ou os investimentos iniciais que são altíssimos vão para a conta do sistema e serão assumidos pelo “Tarifa Zero”.
São dez principais dúvidas sobre o “tarifa zero”:
- Tarifa zero vai aumentar em quanto a demanda de passageiros dos ônibus?
- Vai ter de aumentar a frota em quanto?
- Este aumento de frota vai significar um custo total do sistema maior que os R$ 12 bilhões de hoje em quanto?
- Mas não é só a frota: a cidade está preparada para receber (de forma eficiente – destaca-se) mais ônibus? – Terá de reformular linhas? Os terminais e corredores de ônibus atuais são suficientes para uma frota maior?
- Vai ter migração de passageiros do metrô, trem e ônibus metropolitanos se estes não tiverem tarifa zero? Por exemplo, hoje, como Bilhete Único, o passageiro pode pegar o sistema de trilhos e ônibus de forma integrada. Se os ônibus forem de graça e o metrô/trem não, será que as pessoas não vão preferir usar mais linhas de ônibus, mesmo que demore mais, para não pagar o deslocamento.
- Antes de pensar em tarifa-zero, não seria melhor tornar o sistema de ônibus mais racional (não confundir com meros cortes de linhas) para não se subsidiar a ineficiência?
- O debate de tarifa zero não está sendo um “colocar a carroça antes dos bois”, deixando para trás questões mais urgentes, como reorganizar as linhas e os serviços, ampliar a tecnologia de gerenciamento e monitoramento e também aumentar a qualidade e dar mais infraestrutura para os ônibus que não fluem porque ficam presos no trânsito e possuem pouca prioridade no espaço urbano pela quantidade de frota e de pessoas atendidas (que vai aumentar com uma eventual tarifa zero)?
- São Paulo está trocando ônibus a diesel por ônibus elétricos que custam até três vezes mais e necessitam de uma infraestrutura de recarga e distribuição de energia que não existe na cidade. Até a consolidação de uma frota elétrica, isso vai representar um custo muito alto para o sistema vai demandar financiamento só para este fim. Quanto seria este custo e será um dinheiro só para financiar a aquisição, implantação de infraestrutura e operação dos ônibus elétricos?
- O custo dos terminais a mais necessários para uma demanda e frota maiores terão financiamento próprio ou entram na conta do tarifa-zero?
- Como será o controle de demanda? Haverá uma bilhetagem específica com cotas mensais (como é dos idosos entre 60 anos e 64 anos) para coibir fraudes e uso irresponsável do sistema de ônibus?
Alexandre Pelegi e Adamo Bazani, jornalistas especializados em transportes
