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Falta de motoristas qualificados é o novo desafio para o transporte rodoviário de passageiros, que prevê contratar 18% novos profissionais

Ônibus da UTIL, empresa do Grupo Guanabara. Empresa treina condutores para operar veículos como os Double Deckers.

Empresas vinculadas à Abrati investem na formação de novos condutores, reforçando programas internos de desenvolvimento com amplo trabalho de capacitação

ALEXANDRE PELEGI

A previsão de contratar 18% novos motoristas na chegada da alta temporada transformou-se em novo desafio para as empresas regulares do transporte rodoviário de passageiros.

Isso porque a falta de profissionais qualificados é hoje um dos principais motivos de preocupação para as empresas de ônibus, que têm a cada dia se deparado com a crescente dificuldade em contratar.

Sem bons motoristas fica difícil atender ao aquecimento do mercado de viagens, que tem crescido graças à demanda de passageiros que surgem em busca da qualidade dos serviços prestados e para escapar do alto preço das passagens aéreas.

A FTTRESP (Federação dos Trabalhadores em Transportes Rodoviário do Estado de São Paulo), que reúne esses profissionais, comunga da mesma preocupação.

O diretor da entidade, Wilson Santos, reconhece que a qualificação profissional tem sido um grande gargalo há alguns anos na indústria de transformação em geral; agora não é diferente no setor de serviços, em especial no transporte rodoviário de passageiros.

Enquanto o mercado aquece, as empresas de ônibus vão à luta para driblar esse desafio gigante do momento.

É o que fazem as empresas associadas à Abrati – Associação Brasileira das Empresas de Transporte Terrestre de Passageiros, que decidiram não esperar pelo motorista já formado e qualificado e, ao invés disso, investem desde já em sua preparação.

É o método “caseiro” que entra em cena, afinal as afiliadas da Associação acumularam uma vasta experiência a respeito, com bons programas internos de desenvolvimento de novos condutores, amplo trabalho de capacitação, além de acompanhamento e incentivo para novos profissionais.

Reforçando esse cabedal desenvolvido e melhorado com a larga experiência ao longo do tempo, as empresas agora ampliaram também o processo de qualificação de quem chega para trabalhar na função.

Apesar de tudo, as empresas regulares do setor rodoviário seguem entre as que mais empregam trabalhadores.

Um levantamento recente da Codel (Instituto de Desenvolvimento de Londrina), retratou que a Viação Garcia ficou na 11ª colocação das empresas que mais geram empregos em Londrina (PR). Com cerca de 2,5 mil colaboradores, dos quais 929 alocados em Londrina, a empresa integra o Grupo GBS, que reúne ainda a Brasil Sul, Princesa do Ivaí e LondriSul.

ANDORINHA

Dentre os exemplos para encarar o desafio de empregar novos condutores com qualidade e preparo, está o da empresa Andorinha.

Diante de um aumento esperado de 10% no quadro de condutores para esse período, a escassez dessa mão-de-obra qualificada no mercado é o principal desafio.

Para o gerente de Tráfego da empresa, Nelson Ribeiro, para suprir essa falta, a Andorinha possui uma escola preparatória, que atende tanto o pessoal de base – manobristas, motoristas de linhas mais curtas e semiurbano – quanto novos interessados ao cargo.

GUANABARA

Já o Grupo Guanabara, em sua base do Rio de Janeiro, criou o projeto Escola de Aprendizado e Desenvolvimento de Condutores. No local atuam as empresas UTIL, Sampaio e Brisa.

O espaço forma turmas especializadas de motoristas de coletivos rodoviários, a partir da seleção de profissionais que possuem formação, mas pouca experiência e qualificação para operar equipamentos de alta tecnologia, como os veículos Double Deckers.

São formadas turmas com até 15 motoristas que revezam, ao longo de 45 dias, a sua capacitação entre aulas teóricas e práticas nos veículos apenas tripulados com os instrutores.

Passado esse período segue-se uma avaliação, quando então os profissionais se tornam aptos a operar ônibus clássicos em linhas curtas. Para encarar um Double Decker, eles precisarão ter a formação completa, que dura 90 dias, além de todo um acompanhamento de saúde e medicina do sono.

EXPRESSO ITAMARATI

A empresa desenvolve um programa semelhante, com ciclo de preparação variável e dependente do desenvolvimento do colaborador.

Ele é utilizado quando algum colaborador, de qualquer outra função, se interessa pela carreira de motorista.

Neste caso, a Itamarati apoia a mudança de categoria da CNH e oferece toda a preparação e acompanhamento para assumir o cargo.

GRUPO JCA

O Grupo JCA realiza treinamentos recorrentes de acordo com as necessidades de cada motorista.

São aulas que duram em média três dias, reforçam os principais assuntos do Programa Motorista Padrão e atingem pontos essenciais para o profissional como direção defensiva, prevenção de acidentes, economia de diesel, pontualidade, atenção com os ciclistas e reforço nos processos de atendimento ao cliente.

O Grupo conta ainda com a Academia JCA, plataforma de ensino digital que divulga diversos conteúdos educacionais, como o DDS (Diálogo Diário de Segurança), treinamento que deve ser realizado todos os dias pelos motoristas.

SEST SENAT

Embora os desafios sejam grandes para o segmento, o apoio do Sest Senat (Serviço Social do Transporte e Serviço Nacional de Aprendizagem do Transporte) tem sido vital. Com atuação de destaque na formação e qualificação dos motoristas para o mercado, registrou mais de 993 mil alunos matriculados em cursos da instituição.

Apesar disso, a entidade também se prepara para ampliar sua atuação diante do crescente problema do setor, e vem desenvolvendo uma série de ações e projetos para auxiliar as empresas na contratação de profissionais capacitados e, dessa forma, reduzir o déficit de mão de obra.

Mais recentes estão iniciativas que buscam atualizar o portfólio de cursos para acompanhar novas tendências em busca de conteúdos mais dinâmicos e inovadores. Para tanto, a entidade disponibilizou a plataforma Emprega Transporte (www.empregatransporte.sestsenat.org.br) na internet, fazendo a ponte entre o profissional que fez um dos cursos da instituição e as empresas de transporte.

O Sest Senat aposta também na oportunidade para as mulheres, e assinou um acordo com o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos dentro do projeto Qualifica Mulher. O objetivo é garantir capacitação em situação de vulnerabilidade social, ampliando as oportunidades para elas no segmento.

A porta-voz e conselheira da Abrati, Letícia Pineschi, destaca que o setor está muito otimista e espera gerar muitos empregos. Para Letícia, a retomada das viagens, a chegada do fim do ano, trazem um novo fôlego para os empresários do segmento, com expectativa de elevar as receitas.

“Por isso, investimos muito em treinamento, pois além de termos benefícios com a ação, contribuímos para inclusões de mais pessoas no mercado de trabalho com oportunidades de crescimento profissional”.

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

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