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OUÇA: “É nítido que caiu pedaço e não era excesso de cimento”, dizem especialistas sobre viga de monotrilho de SP; “Há riscos”

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Funcionários do sistema apontam que ao longo da linha 15-Prata têm ocorrido também de mais pedaços se soltarem indo ao encontro de conclusão do MP sobre defeitos nas vias do Monotrilho

ADAMO BAZANI

O Diário do Transporte noticiou em primeira-mão nesta sexta-feira, 23 de setembro de 2022, que uma parte da viga do monotrilho da linha 15-Prata se soltou e caiu sobre a ciclovia na Avenida Luís Inácio de Anhaia Mello, entre as estações Oratório e Parque São Lucas, na zona Leste de São Paulo.

De acordo com o relatório interno de ocorrências do Metrô, parte do concreto se soltou por volta de 21h desta quinta-feira (22).

21h23- Informação – Por meio do COPOM CCS foi informado de queda de pedaços de estrutura no monotrilho – foi solicitado ronda com a VTR nas proximidades entre ORT e SLU e foi constatado queda de pedaços do Pilar 45 na ciclovia – SO2 Buissa ciente para as tratativas

Problemas como este têm sido relatados constantemente por funcionários da linha e vão ao encontro do que o Ministério Público de São Paulo concluiu em outubro de 2021 sobre o estouro da parte interna da roda de um monotrilho que resultou na paralisação por 100 dias do sistema no início de 2020.

Relembre:

https://diariodotransporte.com.br/2022/09/23/imagens-mostram-que-parte-de-viga-do-monotrilho-da-linha-15-prata-se-soltou-relato-tecnico-interno-da-conta-que-pedacos-cairam-em-ciclovia-na-noite-de-quinta-22/

Na resposta ao Diário do Transporte, o Metrô de São Paulo admitiu a situação, mas disse que não havia danos estruturais e que tinha sido realizado um trabalho para a retirada do “excesso de cimento” na viga.

O técnico em edificações formado pela Escola Técnica Getúlio Vargas e arquiteto e urbanista pela FIAM FAAM (FMU), Raphael Toscano, realizou estudos para sua monografia, justamente sobre o monotrilho da linha 15-Prata.

O especialista comentou o caso tecnicamente com o Diário do Transporte e foi categórico em afirmar que o que as imagens da viga do monotrilho mostram não evidenciam que foi retirada do “excesso de cimento”, como tentou argumentar o Metrô.

“Este excesso de concreto não existe quando a gente fala de estrutura. Esta viga do monotrilho é usinada, é pré-moldada, já vem pronta. Como está evidenciado nestas fotos, houve a quebra deste concreto” – explicou

O técnico diz que as imagens mostram que o que ocorreu foi uma quebra da viga.

“O que a gente que é da área pode perceber é que houve uma quebra na aba superior dessa viga de concreto pré-moldado. E é justamente na parte de cima da viga que o concreto recebe a maior compressão de esforços do material rodante, que no caso, é o monotrilho”

“Claramente vemos que a viga sofreu danos de ambos os lados, e na obra, ou posteriormente na instalação, refizeram a viga apenas para manter seu aspecto do perfil. Não há excesso de concreto em uma estrutura. Ou ela não estaria ali.”

O especialista ainda diz que não se trata de um simples “pedacinho” que faltou. Segundo explicou, toda viga tem um tamanho desenvolvido justamente para suportar determinados pesos e determinadas forças e pressões. Quando há esta quebra, há uma diminuição da área, que não é benéfica, mesmo havendo uma espécie de “margem de segurança” nos cálculos.

Toscano ainda explicou a gravidade deste tipo de problema em um sistema como o do monotrilho da linha 15.

“Ter um pedaço da viga desprendida, é como ter um buraco na rua enquanto você anda com um carro. Só que nesse caso, há vários metros do chão. Alguma peça pode quebrar e cair abaixo, na rua, em um sistema que não tem proteção nenhuma”.

O técnico explica ainda que este tipo de problema com a viga pode causar danos e riscos aos trens.

“A viga do sistema possui uma reentrância na terça parte da sua altura que recebe o acoplamento das rodas estabilizadoras laterais do trem, que o equilibram durante a rodagem. Essa aba quebrada de cima faz com que essa aba desapareça, deixando o perfil reto podendo a roda deslizar para cima em caso de movimento brusco do trem. E essa roda deslizando para cima durante o movimento, ao continuar o percurso e encontrar a aba da viga mais à frente, funciona como a roda estabilizadora lateral encontrar um degrau. Quebra na certa.”

O especialista disse ainda que se há alguma quebra da viga ou queda de pedaço, não basta colocar cimento para cobrir a área que falta, o que seria apenas uma solução estética.

Tratam-se de vigas que suportam muito peso e pressão com o movimento dos trens. É necessário fazer um trabalho de restauração de fato, muitas vezes tirando todo o material de concreto até as ferragens internas da estrutura e colocando uma nova concretagem para que toda a peça se torne eficiente e segura de novo.

Raphael Toscano alerta para riscos reais para os passageiros, funcionários e para quem trafega na avenida embaixo, seja a pé, de bicicleta, carro ou ônibus, mesmo estes veículos sendo mais fortes.

“Pode haver uma redução brusca de velocidade do monotrilho e os passageiros caírem justamente pelas rodas do monotrilho passaram por perfis diferentes na viga. Para quem está embaixo, é pior ainda. Imagine um pedaço desse concreto atingindo o para-brisa de um veículo. A altura de onde se solta o pedaço de concreto é outro fator. Ao cair, pela força empreendida sobre o pedaço, peso pode ser tornar dez vezes maior. Dependendo do tamanho deste pedaço, ele pode chegar embaixo com um tal peso capaz de perfurar facilmente o teto de um ônibus, mesmo sendo este um veículo com uma estrutura mais forte que outro carro menor” – explicou.

Também técnico em construção civil, Márcio Augusto Camargo, da ABC Estrutural, consultado pela reportagem, disse que a versão da Companhia do Metrô de São Paulo precisa ser melhor investigada.

“É nítido que caiu pedaço e não era excesso de cimento” – disse o especialista.

Para Camargo, não é comum que após um suposto trabalho de remoção como alegado pelo Metrô, fique uma falha como mostram as imagens

“Tinha de ficar tudo nivelado e dá pra ver que tá faltando mesmo uma parte – opinou

O técnico ainda diz que acha estranho haver remoção de “excesso”, como alegou o Metrô numa obra já feita há muito tempo.

“Normalmente, os excessos são retirados ainda com o cimento antes da cura [fresco] ou pouco tempo depois. Só se teve um reparo recente, mas se teve um reparo recente, é porque teve um problema. Nas imagens, bem no local de onde está faltando uma parte da viga, nada evidencia que tinha sido feito naquela ocasião, um trabalho de manutenção”

O técnico também aponta para outras situações que evidenciam as imagens.

“Há remendos que indicam tempos diferentes de consertos, no lado oposto de onde teria se soltado o pedaço, na mesma viga, o cimento está mais escuro, mais novo aparentemente que o resto da viga. Então, foi feita uma coisa aí. Fora que essa parte que se soltou já tinha sido colocada depois da construção, dá para ver a emenda. Claro, é uma análise só de fotos, mas está muito evidente que esses desgastes precisam ser melhor esclarecidos, assim como o que o Metrô está alegando”

O Sindicato dos Metroviários de São Paulo e Fenametro (Federação Nacional dos Metroviários) dizem que já apontaram diversos problemas sobre o monotrilho, e que estes relatos foram ao encontro de especialistas que opinaram que o projeto não seria adequado para o perfil de traçado e demanda da região.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

Veja as imagens:

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

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