Capital paulista tem índice de poluição do ar acima do recomendado pela OMS há duas décadas

Foto: Relatório IEMA. Crédito: Kaique Rocha/Pexels

Análise do IEMA aponta que os poluentes material particulado, ozônio e dióxido de nitrogênio apresentaram concentrações de impacto na saúde até durante a pandemia

ALEXANDRE PELEGI

Respirar na capital do estado mais rico da federação está a cada dia mais perigoso.

Ao contrário de ameaças visíveis, como acidentes de trânsito, a qualidade do ar que o paulistano respira pode prejudicar em muito a sua saúde. Pior: a cidade de São Paulo vem alcançando níveis preocupantes na emissão de poluentes não é de hoje. E curiosamente em grande parte devido ao trânsito…

Este é o alerta de nota técnica publicada nesta quinta-feira, 26 de maio de 2022, pelo Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA).

Como principal fator que afeta negativamente a qualidade do ar na Região Metropolitana de São Paulo, diz o IEMA, está o trânsito de veículos, como carros, motos, caminhões e ônibus.

A análise realizada pelo Instituto mostra que o índice que mede a qualidade do ar que respiramos permaneceu acima dos recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) nos últimos 22 anos.

Para quem apostou que durante o período da pandemia a atmosfera ia ter uma folga da poluição, devido ao fechamento forçado da maior parte das atividades econômicas, ledo engano: em 2020 e 2021 os poluentes atmosféricos material particulado (MP2,5 e 10), ozônio (O3) e dióxido de nitrogênio (NO2) estiveram aquém do que a organização considera seguro para a saúde pública.

Se no período pandêmico a situação já preocupava, com o retorno da economia a seu patamar rotineiro nenhuma estação de monitoramento da qualidade do ar da cidade em 2022 atendeu aos limites estabelecidos pela OMS com relação aos três poluentes.

Pior: em alguns locais da cidade a ultrapassagem foi de quatro vezes o indicado.

Para o gerente de projetos no IEMA e coordenador deste estudo sobre a poluição do ar no município, David Tsai, isso significa que nas duas últimas décadas os moradores de São Paulo continuaram respirando um ar inadequado. “Quanto maior a concentração de poluentes, mais a saúde é afetada”, ele alerta.

A ciência já alerta há anos: os poluentes do ar afetam a saúde tanto de forma aguda como crônica, levando as pessoas a desenvolverem doenças do sistema respiratório como asma, e ainda envelhecimento precoce.

Estimativa da OMS é de que 7 milhões de pessoas morrem por ano em decorrência da poluição do ar no mundo, das quais 300 mil na região das Américas. A poluição afeta todos os órgãos do corpo humano – e demais seres vivos.

David Tsai explica que o objetivo da nota técnica do IEMA é alertar a necessidade de se reduzir as emissões de poluentes em São Paulo. Para isso, precisa-se reduzir radicalmente a circulação de veículos na cidade, investindo em transporte público e transporte ativo, ele diz Tsai.

Trocando em miúdos: quanto mais perto uma pessoa vive ou trabalha em uma via de alto tráfego, mais ela respira esse ar poluído. Nem a estação de monitoramento do Pico do Jaraguá, local de maior altitude e longe das fontes emissoras e dentro de um parque, consegue apresentar recomendações acima do que indica a OMS.

Conclusão: isso mostra que a cidade como um todo é poluída.

MP, O3 E NO2

Pode parecer uma inocente sopa de letrinhas, mas MP, O3 e NO2 representam perigosos poluentes do ar.

Na análise realizada pelo IEMA e hoje publicada oficialmente, é possível ver como as concentrações desses três poluentes evoluíram a cada ano, no período de 2000 até 2021.

Como muitos já sabemos, todos eles guardam estreita relação com a emissão dos veículos automotores, mas também com outras fontes emissoras.

No caso do ozônio (O3), este se manteve em patamares elevados, com variações de ano para ano, sem tendência de queda ou de aumento. É um poluente complexo de eliminar porque se forma na atmosfera devido a diversos fatores, naturais e antrópicos, explica Tsai. Curiosamente ele aumentou de 2019 para 2020, ou seja, piorou na pandemia.

Já o dióxido de nitrogênio (NO2) apresentou redução das suas concentrações na atmosfera sobre São Paulo ao longo dos anos. Pode-se notar uma redução do poluente desde o ano 2000, provavelmente pelo fato de os veículos emitirem menos devido ao Programa de controle de emissões veiculares (Proconve), iniciado em 1986, explica afirma Tsai.

Mas em 2021 a OMS lançou nova diretriz de qualidade do ar, substituindo a anterior de 2005, reduzindo os valores de concentração de poluentes considerados seguros em relação ao impacto à saúde.

Por esses novos valores, a OMS aponta que o dióxido de nitrogênio na cidade está distante do ideal. Como exemplo, a queda do NO2 na estação de monitoramento do Ibirapuera, que no período passou de 41 microgramas por metro cúbico (µg/m3) para 24 – o número mínimo recomendado pela OMS é de 10…

Na estação de monitoramento da Marginal Tietê, diretamente afetada devido à proximidade com a via de tráfego, o registro para NO2 é de 49 (µg/m3), quase cinco vezes mais do que o recomendado.

Já no caso do material particulado (MP), o IEMA avaliou a concentração do material particulado 2,5 (mais fino) e do material particulado 10. Ambos são emitidos pela combustão e também pelos desgastes das peças dos veículos e pelos atritos com a pista.

Pela recomendação da OMS o limite é de 15 microgramas por metro cúbico para o MP10. A estação de monitoramento de Santo Amaro foi a mais limpa da cidade no ano de 2021, com índice 21. Já entre as piores do ano estão Parque D. Pedro II, Perus e Marginal Tietê, com o dobro do recomendado (30).

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

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