Funcionários da Volvo também se manifestaram em frente à unidade da empresa em Curitiba (PR). Ação conjunta dos sindicatos de trabalhadores do setor automotivo e autopeças reputa ação como irresponsável, pois vai gerar aumento do desemprego
ALEXANDRE PELEGI
Além dos trabalhadores da Volvo, os funcionários da Marcopolo também protestaram no Espírito Santo, contra a compra de mais de 3 mil ônibus elétricos da China.
Além deles, se manifestaram com panfletagem em frente às fábricas os trabalhadores da Scania e Mercedes-Benz.
Os atos aconteceram nessa terça-feira, 12 de abril de 2022, e compõem uma ação conjunta dos sindicatos de todo o Brasil do setor automotivo e autopeças contra o que creditam ser “a ação irresponsável do governo de Jair Bolsonaro”.
De acordo com o Sindicato dos Metalúrgicos do Espírito Santo (Sindimetal-ES), a compra desses ônibus “vai gerar um aumento ainda maior do desemprego no país”, pois a indústria nacional será fortemente abalada, prejudicando a produção, as empresas brasileiras e a cadeira produtiva como um todo.
Para o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, o objetivo é chamar a atenção para esse debate. “Não adianta saber disso e não fazer nada. Temos que pressionar o Congresso e discutir esse tema em Brasília. Dizer para os deputados e senadores que os trabalhadores na área de ônibus no Brasil inteiro estão com disposição de fazer o que for necessário para brigar pelos seus empregos”, alertou Moisés Selerges.
O diretor executivo da Agência de Desenvolvimento Econômico do Grande ABC, Aroaldo Oliveira da Silva, ressaltou que o Brasil representa hoje 1% da indústria no mundo, enquanto a China é responsável por 25% de toda a indústria mundial.
“Sabemos que a Mercedes e outras empresas já lançaram ônibus elétrico e que a Scania lançou o ônibus a gás com zero emissão de poluente. Temos discutido o assunto com associações empresariais. Sabemos que a chegada de ônibus importado, principalmente da China, desestimula o desenvolvimento e a produção nacional. Além disso, a partir do ano que vem, pode vir caminhão do México sem taxa de importação, são nossos empregos que estão em risco”.
Já para o coordenador da representação na Scania, Francisco Souza dos Santos, o governo demonstra total falta de empatia em relação à indústria nacional e não se preocupa com os trabalhadores.
Na verdade, a iniciativa para viabilizar a importação é do ICCT (Conselho Internacional de Transporte Limpo) e da Organização C-40, rede com 96 das maiores cidades do mundo. Em conjunto, elas capitanearam pleitos de importantes cidades brasileiras (como Rio de Janeiro, Vitoria, Curitiba e São Paulo, dentre outras) junto ao Ministério da Economia para zerar a tarifa de importação, atualmente de 35%.
O Diário do Transporte reportou este assunto nessa terça-feira (12). Relembre:
Para o diretor do Sindimetal, Roberto Pereira, a aquisição de ônibus elétrico de fora equivale à metade da produção anual de todo o país. “É preciso que os ônibus continuem a ser fabricados no Brasil, valorizando a mão-de-obra brasileira, gerando emprego e contribuindo para movimentar a economia”, disse.
Apesar disso, os sindicatos de todo o Brasil do setor automotivo e autopeças reiteram a importância da redução das emissões de gases de efeito estufa.
Em nota conjunta eles “reconhecem a relevância das entidades proponentes, ICCT e C40, bem como do WRI Brasil enquanto apoiador da demanda. Reconhece ainda a urgência do tema e a necessidade de acelerar o processo de difusão dos ônibus elétricos no Brasil, mas não pela importação, e sim pelo seu desenvolvimento e fabricação em nosso país”.
OUTRO LADO
Em resposta a questões encaminhadas pelo Diário do Transporte nessa quarta-feira (13), as instituições C-40 e ICCT afirmam que a transição para frotas elétricas no Brasil é uma medida necessária e uma oportunidade, tanto para qualificação dos sistemas de transporte coletivo quanto para descarbonização. “Hoje, há somente 48 ônibus elétricos a bateria em operação em todo o país. A título de comparação, Santiago e Bogotá têm, juntas, mais de 3 mil ônibus em operação ou já licitados, não fabricados no Brasil”, diz a nota.
Afirmando haver uma demanda “firme e comprovada no Brasil” de pelo menos 3.119 ônibus elétricos até 2024, isso representa pelo menos 1.040 veículos por ano. No entanto, continua a nota, “a indústria doméstica montou apenas 17 ônibus elétricos no Brasil em 2020, valor 85 vezes inferior à demanda projetada para os próximos anos, enquanto as importações são nulas frente à proibitiva alíquota ora vigente de 35%”.
Por fim, ICCT e C-40 garantem que “após o destravamento da demanda local” a substituição da frota atual por ônibus elétricos pode gerar mais de 60.000 empregos diretos, indiretos e induzidos.
BYD E SIMEFRE SE POSICIONAM
A BYD, indústria chinesa que se instalou no país, construindo uma planta em Campinas, tem outra posição.
Segundo o diretor Institucional e head da divisão de ônibus da BYD Brasil, Marcello Von Schneider, há indústrias já instaladas no Brasil com capacidade de atender as necessidades das cidades e operadores de ônibus pelos próximos 3 anos, “e apetite para investir e ampliar em novas unidades de fabricação”.
Schneider ressalta que em sua fábrica em Campinas, a BYD já opera com capacidade para produzir 2 mil chassis para ônibus elétricos por ano.
Além da BYD, ele cita outras indústrias. Somente no Estado de São Paulo são quatro grandes, entre fabricantes de chassis e carroceria de ônibus. Elas serão impactadas diretamente com a proposta de redução de alíquota de 35% para zero na importação de ônibus elétricos. “Estamos falando de milhares de funcionários que podem perder emprego. A proposta atinge em cheio a indústria nacional e os investimentos já feitos e os previstos. O Brasil pode perder sua capacidade de se industrializar e de gerar empregos. Precisamos de medidas que sejam a favor da produção nacional e do desenvolvimento da economia das cidades brasileiras”, afirma Marcello.
Já o SIMEFRE (Sindicato Interestadual da Indústria de Materiais e Equipamentos Ferroviários e Rodoviários), entidade que emite os atestados de existência de similaridade de fabricação nacional, também emitiu nota sobre o assunto, que foi encaminhada ao presidente da FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), Josué Gomes da Silva. (Leia a seguir)
Na carta, o SIMEFRE destaca que a indústria brasileira possui tecnologia e capacitação técnica “para produzir ônibus sobre qualquer tecnologia de tração e também elétricos, seja produzindo as carrocerias ou veículos completos para esta finalidade, além de também exportar ônibus e microônibus para mais de 100 países”.
Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes
