Especialista do fórum Mova-Se fala sobre como reverter crise no transporte coletivo no pós-pandemia

Crescimento das cidades e a evolução tecnológica precisam ser considerados pelos gestores da área de mobilidade, segundo o engenheiro. Foto: Eduardo Beleske/PMPA.

Segundo Diego Buss, sistema deve passar por mudanças estruturais para sobreviver

JESSICA MARQUES

Para sobreviver à crise intensificada pela pandemia de covid-19, o sistema de transporte público terá que passar por mudanças estruturais para sobreviver.

A análise é do engenheiro civil e coordenador de Planejamento de Operação de Transporte na EPTC (Empresa Pública de Transporte e Circulação de Porto Alegre), Diego Buss. O especialista também integra o time de especialistas em mobilidade e transportes do Mova-se Fórum de Mobilidade, de Goiânia.

De acordo com o especialista, a adoção de políticas públicas de incentivo ao uso do transporte individual ao longo das últimas décadas e a cultura da população em priorizar o modal fez com que diversas regiões virassem símbolo de “trânsito caótico e de transporte público caro e de má qualidade”.

Por outro lado, ao longo desse mesmo período, o transporte coletivo não sofreu mudanças estruturais que considerassem o crescimento das cidades. Além disso, a evolução tecnológica e os novos padrões de deslocamento de potenciais usuários foram desconsiderados.

Portanto, o resultado desse ritmo lento de inovação no transporte público foi a perda de passageiros, o desequilíbrio nas operações de transporte, o fechamento de empresas e um caos na mobilidade das cidades.

Assim, como na maioria dos centros urbanos, reverter o cenário desfavorável do transporte coletivo e reduzir o congestionamento nas principais vias de circulação de veículos são verdadeiros desafios.

“O transporte coletivo é a única solução comprovada que as cidades devem implantar para reduzir os congestionamentos, os tempos em trânsito, emissão de poluentes e o número de acidentes. É investir em justiça social e melhorar a qualidade de vida de milhões de pessoas”, afirmou Buss.

QUEDA NA DEMANDA

Também segundo o especialista, a queda expressiva da demanda de passageiros transportados em âmbito nacional foi causada especialmente pela falta de priorização do transporte coletivo, de incentivo a utilização do transporte individual e pela ineficaz gestão da operação do transporte.

Para o especialista, a realidade do transporte coletivo em Porto Alegre, por exemplo, não é diferente. “O modal da capital gaúcha perdeu praticamente a metade dos passageiros transportados nas últimas décadas e com a chegada da pandemia o cenário se agravou ainda mais, com redução de até 80% na demanda, acelerando o processo de colapso do sistema”, afirma.

O gráfico a seguir apresenta um comparativo do número de passageiros equivalentes transportados, da frota operacional e da quilometragem percorrida pelo transporte urbano de Porto Alegre de 1994 a 2019, onde percebe-se que apesar da perda de demanda de 45,99%, a frota e a quilometragem foram ampliadas ao longo do tempo, trazendo reflexos no equilíbrio econômico e financeiro da operação do transporte:

Fonte: Adaptado de GPOT EPTC (2019).

Nesse outro gráfico é apresentado o comportamento da demanda de passageiros transportados em Porto Alegre durante a pandemia, onde pode ser observado que abril de 2020 foi o mês mais crítico com perda de até 72% na demanda e que o sistema sofre com uma lenta recuperação de clientes, transportando somente 64% do número de passageiros transportados no período que antecede a pandemia:

Fonte: Adaptado de CPOT EPTC (2021).

PORTO ALEGRE

O especialista Diego Buss explica que, ao longo dos últimos anos, Porto Alegre deu alguns passos importantes ao trazer o tema ‘transporte coletivo’ para o centro do debate. O efeito disso, segundo ele, foi a aprovação e implantação de alguns projetos, tais como a Delegacia especializada no transporte coletivo, GPS e CFTV nos ônibus, implementação do aplicativo de informação em tempo real ao cliente, maior facilidade e conveniência na aquisição de créditos eletrônicos e no processo de integração tarifária e a aprovação dos projetos para redução de gratuidades dentre outras medidas (como a retirada de cobradores e o passe livre).

Apesar de todos os esforços realizados, de acordo com o Diego Buss, essas ações por si só ainda são insuficientes para resolver o problema estrutural do transporte coletivo portalegrense. Para ele, as medidas feitas não são capazes de atrair novos passageiros para o sistema. “Precisamos trabalhar na raiz do problema, transformando viagens lentas, imprevisíveis, desconfortáveis e tortuosas em uma experiência agradável de deslocamento”, explica.

“Não tenho dúvida que mais pessoas escolhem o ônibus quando ele é uma opção útil, quando ele é rápido, acessível e confiável e para que isso se concretize em Porto Alegre precisamos atuar em seis frentes: preço da tarifa, frequência, rede de transporte, rapidez, conveniência e metodologia de planejamento do transporte”, afirma também.

TARIFA 

Ao redor do mundo, 74% dos países subsidiam parte do custo de operação dos seus respectivos sistemas de transporte público. No Brasil, entretanto, essa realidade é distinta. Segundo Diego Buss, não há qualquer destinação de recursos pelo governo federal e são poucos os municípios e estados que colocam algum aporte financeiro no transporte.

O especialista defende que, ao financiar parte das operações do transporte, o transporte coletivo passa a ser uma opção adequada e atrativa, ampliando o acesso à cidade, especialmente para as pessoas de baixa renda.

“É preciso ter em mente que nenhum sistema de transporte de qualidade no mundo é sustentado somente pela arrecadação tarifária. O subsídio inclui socialmente a população carente e, ao mesmo tempo, ajudaria reduzir os congestionamentos e a emissão de gases poluentes”, considera.

INOVAÇÃO

Além disso, Diego Buss chama atenção para o fato de que qualquer serviço deve estar centrado na experiência e jornada dos usuários/consumidor. Ele cita o exemplo do Spotify e do Netflix, serviços que acabaram com a pirataria por entregar conveniência a seus consumidores. Enquanto isso, segundo o especialista, no transporte os problemas na jornada do usuário já começam ao acessar o sistema.

“Os clientes hoje em dia esperam ultra conveniência, por isso precisamos entregar uma experiência de transporte positiva desde o planejamento da viagem ao desembarque. Devemos melhorar o acesso ao serviço, os meios de pagamentos, a qualidade da frota operante, a estrutura de paradas e terminais, introduzir diferenciais de serviços importantes como Wi-Fi e Ar-condicionado. Todos merecem uma experiência de viagem segura, acolhedora e confortável”, exemplifica.

Diego Buss lembra ainda que, oferecer um serviço de transporte ruim acreditando que o passageiro não tentará outra alternativa de deslocamento para sair do sistema é uma ideia equivocada e ultrapassada. Para ele, isso pode ter funcionado no passado, mas atualmente tal premissa já não se sustenta.

“Até mesmo os mais pobres entre os pobres vão buscar uma solução para abandonar o ônibus. Assim, acredito que se Porto Alegre ou qualquer cidade do Brasil que tem o desejo manter ou atrair novos clientes deve modificar a abordagem utilizada para planejar o serviço”, conclui.

Jessica Marques para o Diário do Transporte

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Comentários

Comentários

  1. laurindo junqueira disse:

    !!!

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