ÁUDIO: CNT deve listar rodovias que podem receber faixas de ônibus em trechos urbanos

Declaração é do diretor-executivo da confederação em resposta ao Diário do Transporte, durante a apresentação de pesquisa sobre condições de rodovias no Brasil; 85% das rodovias brasileiras são de pista única, o que pode dificultar estrutura para transportes públicos

ADAMO BAZANI

Quem mora em regiões metropolitanas sente na pele todos os dias. Estar em um ônibus urbano ou metropolitano, preso em um congestionamento ao lado de carretas, caminhões e carros em uma rodovia.

Exemplos não faltam: Do ABC Paulista para a São Paulo; de Guarulhos para a capital, de Osasco para São Paulo, de Fazenda Rio Grande para Curitiba e tantos outros pelo País.

A CNT (Confederação Nacional do Transporte) deve fazer uma listagem de rodovias que podem ter condições de receber faixas exclusivas de ônibus para facilitar o deslocamento do cidadão que precisar ir trabalhar ou estudar todos os dias, sem trazer impactos no transporte de cargas e de passageiros de longa distância.

A informação é do diretor-executivo da confederação, Bruno Batista, em resposta ao Diário do Transporte, que participou da entrevista coletiva de apresentação da mais recente pesquisa sobre as condições das rodovias do Brasil na manhã desta quinta-feira, 02 de dezembro de 2021.

Segundo Batista, um dos grandes desafios é que a maioria das rodovias brasileiras, mesmo as que cortam áreas urbanas, é formada por vias de pista simples e de mão dupla.

“Na pesquisa neste ano, a gente conseguiu fazer dentro do mapeamento da área de geometria, a identificação dos trechos urbanos.  Existe uma extensão bastante grande de rodovias que passam por trechos urbanos, que têm características muito peculiares. A primeira característica é que existe uma mistura do tráfego, o de longo curso e o local, com as pessoas utilizando a rodovia para ir de um bairro a outro. Isso gera uma série de impactos em termos de desempenho. Muitas vezes existe uma intervenção local das municipalidades, com prefeituras instalando semáforos, lombadas, e às vezes isso não está devidamente regulado e não deveria ser assim. Como existe a dificuldade de se construir contornos viários, por causa do preço, como um anel viário, um arco viário e isso custa caro, essa mistura gera impactos, sobretudo para o transporte público. A gente entende que o transporte público precisa ser segregado dentro da área urbana, mas é possível avaliar com bastante cuidado porque dada a escassez de recurso, direcionar investimentos para segregar faixas de rodovias, como a gente viu que 85% da malha é de rodovias de pista simples e de mão dupla, isso pode se constituir num entrave operacional bastante grande. Dentro de nosso escopo de análise, a CNT deve se debruçar um pouco mais no futuro para análise destes trechos urbanos de rodovias e aí sim vai conseguir listar e apontar as soluções possíveis e aquelas que são mais viáveis” – explicou

Ouça:

Além das questões de perda de tempo dos usuários do transporte público em rodovias, essa mescla de tráfego também pode resultar em acidentes.

Os ônibus de características urbanas têm velocidade inferior à dos carros, ônibus rodoviários e até carretas, porque muitas vezes, existem pontos de embarque e desembarque nas estradas. Isso sem contar as características de fábrica e de operação destes veículos: transportando pessoas em pé e com maior necessidade de torque que de potência por causa do para e anda, ou seja, ônibus urbano não foi feito para correr.

Operadores de transportes urbanos e metropolitanos declararam que querem um apoio técnico e até mesmo institucional sobre a questão.

Além de a população perder tempo, os sistemas de ônibus perdem muito dinheiro com congestionamentos, o que vale também para as rodovias.

E perda de dinheiro em sistema de transportes reflete diretamente nas tarifas pagas pelos usuários.

PESQUISA:

A CNT diz que a pesquisa de 2021 sobre as condições de rodovias foi mais abrangente.

Por causa do uso da tecnologia, inclusive com filmagens, e mudanças de metodologia, foram pesquisados 90% da extensão da malha passando de 109 ligações rodoviárias para 505 segmentos rodoviários em relação a 2019.

O total analisado foi de 109.103 quilômetros de rodovias pavimentadas federais e estaduais

Em 2020, não houve a pesquisa por causa dos picos da pandemia de covid-19.

Segundo os dados, a qualidade das rodovias piorou.

De acordo com a pesquisa, cerca de 6 mil km de rodovias deixaram de ser considerados bons ou ótimos em relação ao levantamento consolidado de 2017.

Já 4 mil km a mais entraram para as classificações “ruim” ou “péssimo”

Segundo a CNT, as rodovias federais públicas apresentam queda de qualidade. Após anos de investimentos bem-sucedidos feitos pelo governo federal por meio do programa BR-Legal, sua efetividade parece ter chegado ao fim, uma vez que a qualidade da Sinalização das rodovias mantidas pela União em 2021 (64,7% da extensão com problemas) voltou ao mesmo nível de 2014 (63,1% com problemas), quando do início do programa.

Entretanto, a rodovia melhor avaliada é pública: a SP 320 entre Rubineia e Mirrasol, no interior paulista, com 185 km.

Todas as dez melhores rodovias estão no Estado de São Paulo. Tirando a primeira colocada, a SP 320, as nove melhores são concessões privadas.

As dez piores são de gestão pública e ficam em Pernambuco, Maranhão, Bahia, Amazonas, Acre, Rio Grande do Sul e, a pior, é a o trecho da BR 163 entre Dionísio Cerqueira e São Miguel do Oeste, em Santa Catarina, de gestão federal.

A situação das rodovias gera um prejuízo anual de R$ 4,12 bilhões somente em combustível para os transportadores de carga por causa dos gastos maiores com diesel. São 955,99 milhões de litros de diesel gastos a mais que geram 2,53 milhões de toneladas de CO2.

Segundo cálculos da CNT, seriam necessários R$ 85,2 bilhões para resolver o atual quadro das rodovias.

O levantamento constatou que o Estado Geral de 61,8% da malha rodoviária brasileira encontra-se classificada como Regular, Ruim ou Péssimo. Desse percentual, 91% são de rodovias públicas.

Do total de rodovias no Brasil, apenas 12,4% são pavimentados. Já destas rodovias pavimentadas, apenas 11,1% são de trechos duplicados.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

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