Cresce número de mortos no trânsito de São Paulo em ano de pandemia, com 809 pessoas que perderam a vida

Motos representaram quase 40% da frota acidentada

Elevação de mortes entre ciclistas e motociclistas é fruto de novos perfis de deslocamentos e consumo, de acordo com a CET; Cai total de óbitos entre pedestres

ADAMO BAZANI

Mesmo com menos carros nas ruas em grande parte do ano de 2020 por causa das medidas restritivas para conter a pandemia de covid-19, o número de mortes no trânsito da cidade de São Paulo subiu em relação a 2019.

De acordo com relatório anual de acidentes de trânsito da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), 809 pessoas perderam a vida nas ruas e avenidas da capital paulista, o que representa um aumento de 2,2% na comparação com as 791 vidas perdidas em 2019.

Os hábitos de consumo e deslocamento impostos pela pandemia tiveram influência em alguns resultados, em especial quanto à ciclistas e motociclistas

O número total de sinistros, no primeiro ano da pandemia, foi de 9.837. Em relação a 2019, houve uma redução de 29,5% (13.966 ocorrências).

MOTOS:

Os óbitos envolvendo motociclistas estão entre os resultados que mais chamaram a atenção.

Foram 345 motociclistas que morreram, número 16% que os 297 mortos no ano passado.

Segundo a CET, a exemplo do que ocorreu em 2018, os motociclistas foram as vítimas mais frequentes em 2020, superando o número de pedestres (316 mortes) pela segunda vez na série histórica.

Por meio de nota, a companhia diz que o aumento do número de compras por delivery em decorrência da pandemia explica parte deste crescimento.

“O cruzamento das informações da CET com os boletins de ocorrência da Polícia Civil e as declarações de óbito da Secretaria Municipal de Saúde mostra que o momento de pandemia, em que mais entregadores passaram a trabalhar em ruas relativamente vazias, influenciou o aumento. Dentre os motociclistas mortos no trânsito, 92% eram homens, 47% tinham entre 20 e 30 anos, 57% eram motofretistas e 44% eram estudantes (ocupações dentre os motociclistas com os maiores números de vítimas). Os óbitos de motofretistas (incluídos os  entregadores por aplicativo) representam 16% do total de motociclistas mortos em 2020. Em 2019, essa proporção foi de 12%.”

A CET ainda apurou que maior parte das ocorrências fatais com motociclistas aconteceu nos fins de semana, principalmente nas noites de sexta, sábado e domingo e nas madrugadas de sábado e domingo, com números expressivos também nas madrugadas de segunda-feira. Das 345 mortes de motociclistas, 153 ocorreram aos sábados e domingos. Se forem incluídas as mortes que ocorreram nas noites de sexta e nas madrugadas de segunda, esse número sobe para 183 em números absolutos ou 53% do total.

Ainda de acordo com conclusão da CET, o desenvolvimento de velocidades incompatíveis com as vias, desobediência de regras de trânsito, além da falta de experiência de muitos motociclistas que passaram a atuar no ramo de entregas por aplicativo durante a pandemia, foram fatores que elevaram a letalidade dos sinistros.

O relatório mostra enquanto o total de mortes aumentou, o número total de ocorrências caiu de 13.966 para 9.837 e o número total de vítimas caiu de 16.712 para 12.152, na comparação de 2019 com 2020.

Para a CET, entre as causas dos acidentes que resultaram em mortes de motociclistas que mais foram mencionadas nos boletins de ocorrência estão a perda do controle da moto, com 68 registros, imperícia ou imprudência, com 47 registros, e excesso de velocidade, com 36 registros.

Outro dado que chama atenção no estado, de acordo com o órgão, é o fato de os motociclistas estarem envolvidos em 21,8% dos atropelamentos fatais registrados em 2020. Dos 308 atropelamentos registrados ao longo do ano, 67 envolviam motos.

BICICLETAS:

O número de mortes de ciclistas também cresceu, passando de 31 em 2019 para 37 em 2020, alta de 19,35%.

A CET destacou a “influência do ano atípico em decorrência da pandemia, do crescimento da bicicleta como ferramenta de trabalho pelos entregadores de aplicativo e do aumento do número de viagens aferidas pelos estudos específicos e contadores automáticos da CET em três ciclovias”

Na nota, o órgão enfatizou que o resultado demonstra a necessidade de ampliar a rede cicloviária. O plano é acrescentar mais 300 km à malha atual em quatro anos.

“A estatística reforça a importância de a Prefeitura continuar o trabalho de expansão e requalificação da malha cicloviária da capital. Desde o lançamento do Plano Cicloviário, em dezembro de 2019, foram entregues 177 km de novas conexões, que incluem ciclovias e ciclofaixas. Também foram requalificados 320 km das estruturas já existentes. Hoje, São Paulo tem a maior malha dedicada às bicicletas dentre as cidades brasileiras e uma das mais extensas na América Latina, com 681 km de extensão.

Nos próximos quatro anos, com um incremento de 300 km, a malha cicloviária da cidade se aproximará dos 1.000 km de extensão. O objetivo é tornar a bicicleta uma alternativa de transporte viável, segura e saudável a toda a população, seja como único meio de locomoção em trajetos curtos e médios ou como possibilidade de se integrar aos demais modais de transporte, como ônibus, trem e metrô.”

PEDESTRES:

Os dados do anuário mostram ainda que entre 2019 e 2020, o total de mortes envolvendo pedestres caiu na cidade de São Paulo.

A queda foi de 12%, mas os números ainda continuam altos.

Em 2020, 316 pedestres perderam a vida, 43 a menos do que no ano anterior, quando foram registradas 359 mortes.

Segundo a CET, o número de pedestres mortos em 2020 é o menor de que se tem registro na série histórica do município.

Para a companhia, a queda das ocorrências de atropelamentos explica o resultado.

“A redução dos óbitos de pedestres foi influenciada pelo declínio dos atropelamentos fatais. Foram 308, em 2020, enquanto 341 haviam sido registrados em 2019. O número total de atropelamentos (incluindo os fatais e não fatais), vale destacar, segue em queda contínua desde 2012. Naquele ano foram contabilizados 7.044 atropelamentos. Em 2020, foram 1.940 pessoas atropeladas. Uma redução de mais de 70% do total de atropelamentos no período”.

TIPOS DE VEÍCULOS:

O balanço anual revela também que as motos estiveram envolvidas em 38,7% das ocorrências fatais

Os automóveis, por sua vez, tiveram participação de 37,1% nos acidentes que resultaram em mortes.

Juntos, ônibus, caminhões e bicicletas, respondem por 24,2% dos acidentes com mortes

AÇÕES PREVENTIVAS:

Na nota, a CET destacou ações para tentar reduzir os acidentes e as mortes no trânsito, como o programa Motociclista Seguro, Plano de Segurança Viária (Vida Segura), Termo de Cooperação com os operadores de aplicativos de entregas (que ainda será assinado), Plano Vida Segura, Programa de Metas 2021-2024, Territórios Educadores e as Rotas Escolares Seguras, Áreas Calmas, Vias Segura, Campanhas de Comunicação, e a adesão à Década de Ação pela Segurança no Trânsito da ONU (2011-2020)

Desde 2018, a SMT, por meio da CET, em parceria com a Polícia Militar do Estado de São Paulo, vem promovendo o programa Motociclista Seguro. De lá para cá, a ação educativa, que envolve abordagem de motociclistas em pontos estratégicos e o convite para participação imediata em uma palestra sobre segurança, impactou aproximadamente 7.500 motociclistas. Dentre o conteúdo ministrado, informações sobre pilotagem segura, velocidade, frenagem, utilização dos EPIs corretos (capacete, jaqueta e botas) e orientações da maneira adequada de verificar o desgaste dos pneus. Também é oferecida oportunidade para tirar dúvidas e são divulgados os cursos gratuitos oferecidos pelo Centro de Treinamento e Educação de Trânsito da CET. 

O lançamento do Plano de Segurança Viária (Vida Segura), em 2019, marcou o alinhamento do município ao conceito de Visão Zero e Sistemas Seguros. O Plano é o norte da gestão da cidade para o desenvolvimento e implantação de políticas públicas capazes de reduzir o número de sinistros e de vítimas no trânsito.

 Também em 2019, a pasta de Mobilidade e Transportes proibiu o acesso de motos à pista expressa da Marginal Pinheiros, no sentido Castelo Branco. A medida teve como objetivo reduzir as mortes de motociclistas na via, que, por suas características, gerava conflitos entre os motociclistas e veículos muito maiores, tornando-os ainda mais vulneráveis.

A Prefeitura, agora, se prepara para assinar um novo Termo de Cooperação com os operadores de aplicativos de entregas para que o poder público e a iniciativa privada assumam um compromisso em prol da vida. O termo envolve ações de educação, com envio de mensagens sobre segurança e atitudes responsáveis para os entregadores e motoristas parceiros.

“A Prefeitura de São Paulo mantém o compromisso de ampliar as ações em prol da segurança viária na capital e seguirá implantando as medidas do Plano Vida Segura. Nenhuma morte é aceitável no trânsito, como preconiza o conceito de Visão Zero”, afirma o secretário municipal de Mobilidade e Transportes, Levi dos Santos Oliveira. “A atual gestão prevê a execução de dez projetos de redesenho urbano dentre outras iniciativas para que possamos reduzir o índice de mortes no trânsito para 4,5 por 100 mil habitantes ao final dos próximos quatro anos”.

O Programa de Metas 2021-2024 também traz ações que ampliam a segurança de quem utiliza a moto para trabalhar ou como meio de transporte. Dentre elas, a ampliação das Frentes Seguras, um espaço exclusivo para as motos antes das faixas de pedestres, diminuindo o conflito destas com os carros. A formação de um grupo de trabalho intersecretarial para tratar da segurança dos motociclistas também trará resultados a partir da análise das informações e do desenvolvimento de ações para preservação da vida.

Em relação ao pedestre, a Prefeitura, por meio da SMT, tem colocado em prática uma série de medidas, alinhadas ao Vida Segura. O programa Pedestre Seguro ampliou o tempo de travessia de pedestres, em média em 20%, nos cruzamentos e travessias de 50 dos principais corredores viários da cidade. São mais de mil cruzamentos com o tempo de travessia ampliado, beneficiando principalmente os idosos. A reforma de 1,6 milhão de m² de calçadas e a implantação de 4 mil rampas de acessibilidade pela Secretaria das Subprefeituras também melhoram o conforto e a mobilidade dos pedestres, com mais segurança. 

Já os Territórios Educadores e as Rotas Escolares Seguras são desenvolvidos nos locais em que existem estabelecimentos de ensino e envolvem melhoria da sinalização naqueles percursos feitos pelos estudantes e seus acompanhantes.

Outra medida é a implantação das Áreas Calmas nas regiões onde existe um grande fluxo de pedestres em decorrência de estações e terminais de transporte, pontos comerciais de grande atração, serviços e equipamentos públicos ou em áreas estritamente residenciais e de trânsito local. As Áreas Calmas envolvem melhorias no desenho de calçadas e esquinas, sempre com foco na ampliação do espaço do pedestre e de sua segurança; implantação de mais faixas de travessia, avanços de calçada e de travessias elevadas; redução da velocidade máxima para 30 km/h; uniformização da sinalização de trânsito, entre outras medidas que protegem os mais vulneráveis e torna os espaços mais amigáveis ao convívio.

As Vias Seguras também focam no redesenho da geometria do viário, em prol da segurança, com foco nas grandes avenidas da capital paulista.

Vale destacar também a redução de velocidade máxima de 50 km/h para 40 km/h adotada recentemente em 24 vias da capital com foco na diminuição da letalidade dos sinistros de trânsito. Entre 2018 e 2020, essas 24 vias sozinhas somaram 645 acidentes, 737 feridos graves e 34 mortes.

As ações educativas e de conscientização também ocupam espaço importante no conjunto de medidas voltadas à redução de lesões e mortes no trânsito. Durante este mês de maio, para engajar a população no movimento Maio Amarelo, a Prefeitura, por meio da SMT, organizou uma programação prioritariamente online, em respeito às restrições sanitárias necessárias neste momento de pandemia.

O destaque dentre os eventos em andamento é a série de quatro webinars realizada em conjunto com a Iniciativa Bloomberg de Segurança Viária Global, por meio da Vital Strategies. O impacto da pandemia na mobilidade de grandes cidades, a mobilidade ativa, as áreas 30 km/h e as questões de gênero e de segurança relacionadas ao transporte fazem parte dos assuntos discutidos em quatro painéis. O último deles nesta quarta-feira (26).

No ambiente digital, peças com imagens e mensagens alusivas ao cuidado com o próximo e a preservação da segurança de todos são publicadas nos perfis oficiais da SMT, da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) e da SPTrans.   

Pelas ruas da cidade, a CET espalhou mensagens relacionadas à segurança viária e de prevenção à covid-19 durante a pandemia por meio de painéis móveis de mensagens variáveis e faixas de vinil. Nos terminais de ônibus da SPTrans, banners, cartazes e mensagens sonoras abordam esses mesmos temas.

Década de Ação pela Segurança no Trânsito da ONU (2011-2020)

O ano de 2020 é também o último ano da Década de Ação pela Segurança no Trânsito da Organização das Nações Unidas (ONU), cuja meta era reduzir os sinistros e mortes no trânsito em 50% no período. A cidade de São Paulo alcançou uma redução de 40,7% no número de vidas perdidas no trânsito no período. A redução mais expressiva foi a de pedestres mortos, com 48,8% de redução. A morte de motoristas caiu 40,6%; motociclistas caiu 32,6%; e de ciclistas 24,5%.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

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