Ícone do site Diário do Transporte

Sinagências questiona portaria da ANTT que restringe relacionamento das equipes de fiscalização com os órgãos de imprensa

Entidade que representa agentes da autarquia federal se diz preocupada com o que chama de “desmonte da fiscalização”, e alerta para risco de aumento da concorrência predatória no setor

ALEXANDRE PELEGI

O Sindicato Nacional dos Servidores das Agências Nacionais de Regulação (Sinagências), que representa os fiscais da Agência Nacional de Transportes Terrestres – ANTT, está preocupado com o desmonte da fiscalização no setor do transporte rodoviário interestadual.

Em comunicado divulgado nesta quinta-feira, 29 de abril de 2021, o Sinagências relata que foi procurado pelos servidores da fiscalização e pela Associação de Servidores da ANTT (ASEANTT), logo após a exoneração do então Superintende de Fiscalização, Maurício Hideo Taminato Ameomo.

Como mostrou o Diário do Transporte, no dia 15 de março passado o Diretor-Geral da ANTT exonerou o Superintendente da Sufis, Mauricio Hideo Taminato Ameomo, e em seu lugar nomeou Nauber Nunes do Nascimento, servidor que já ocupou o cargo em três ocasiões.

A troca ocorreu mesmo com a revolta causada entre os agentes da fiscalização, que eclodiu na sexta-feira, 12 de março. A notícia de que o atual Superintendente da Sufis seria exonerado provocou um abaixo-assinado dos servidores, que até o domingo seguinte havia reunido mais de 350 assinaturas, expressiva maioria dos agentes. O Diário do Transporte teve acesso ao material. Relembre: https://diariodotransporte.com.br/2021/03/15/antt-exonera-superintendente-de-fiscalizacao-e-nomeia-novo-gestor-apesar-de-protestos-da-maioria-dos-agentes/

Mauricio Hideo foi o responsável pela condução da Operação Pascal em todo o país a partir de junho de 2020, que concentrou sua ação no combate ao transporte clandestino de passageiros durante a pandemia. Sob seu comando a ANTT retirou de circulação 1.652 veículos clandestinos, encaminhando ao transporte regular cerca de 50 mil passageiros em todo país, além de arrecadar R$17,8 milhões através da aplicação de 3.242 autos de infração.

Já Nauber Nunes do Nascimento, apesar de ter ocupado o cargo em três outras ocasiões, é fortemente questionado pelos agentes.

No comunicado divulgado hoje, o Sinagências afirma que com a nomeação dos novos nomes para a Superintendência, os servidores perceberam que processos internos, até então públicos, passaram a ser considerados restritos, sem qualquer motivação aparente e contrariando o ordenamento jurídico vigente. O fato causou questionamento do Sindicato, através do Ofício nº 029/2021 (veja abaixo).

O sindicato denuncia a realocação de recursos, “que inicialmente eram destinados ao transporte clandestino, e agora utilizados para outros fins estranhos à fiscalização”.

Outro ponto citado pela entidade é a Portaria Conjunta nº 1, de 7 de abril de 2021. O documento “restringe o relacionamento das equipes de fiscalização com os órgãos de imprensa local, dificultando a divulgação das atividades perante a sociedade durante as ações de fiscalização”.

Como se pode ler na Portaria em seu Artigo 4º, “todo contato de servidores e colaboradores da SUFIS com a mídia deverá ser intermediado pela ASCOM (Assessoria de Comunicação), com ciência do Coordenador de Fiscalização (COFIS) da Unidade Regional (UR), de forma a garantir o adequado atendimento às demandas de veículos de comunicação e a correta divulgação de informações a respeito da Agência”.

O Sinagências alega que impedir a relação direta das equipes de fiscalização com a mídia, como vinha ocorrendo até hoje, dificulta a divulgação das atividades perante a sociedade durante as ações de fiscalização. A entidade afirma que esse relacionamento “visa esclarecer de forma clara e pedagógica, por exemplo, os riscos do uso do transporte clandestino de passageiros”.

Em resposta a essa imposição, a entidade se disponibiliza a divulgar “todo e qualquer conteúdo provido pelos fiscais da ANTT, de modo a assegurar o interesse público na conscientização dos usuários quanto aos riscos da contratação e do uso transporte clandestino de passageiros”.

Por fim, e não pela ordem, o comunicado questiona o Plano Anual de Fiscalização do ano de 2021 – PAF 2021. A entidade afirma que os servidores-fiscais constataram “a supressão das atividades de inteligência, de conscientização dos usuários e do mercado regulado, dos esforços em capacitação de equipes, melhoria e aprimoramento dos normativos e práticas, elaboração de estudos de aprimoramento entre outros”. Como consequência, alega o Sinagências, sofrerão impacto direto o mercado regulado interestadual e internacional de passageiros com o aumento da concorrência predatória e a diminuição da confiabilidade do sistema por parte dos usuários, devido ao aumento do número de acidentes, o que certamente levará à redução de investimentos no setor.

Estas questões também foram denunciadas pelo Sinagências à Diretoria Colegiada da Agência pelo Ofício nº 031/2021 (veja abaixo), informa o sindicato.

Para ler o comunicado do Sinagências na íntegra, acesse o link: https://www.sinagencias.org.br/noticias/desmonte-da-fiscalizacao-da-antt-e-preocupacao-do-sinagencias/

OUTRO LADO

O Diário do Transporte solicitou à ASCOM/ANTT  um posicionamento sobre a manifestação do Sinagências. Leia abaixo a resposta na íntegra:

A ANTT Informa que , até o momento, em relação ao assunto em foco, foram recebidos na Agência, 03 (três) Ofícios do Sindicato Nacional dos Servidores das Agências Nacionais de Regulação – Sinagências e estes serão respondidos também por Ofício ao Sindicato.                        Quanto a citada portaria, o teferido dispositivo disciplina o procedimento para que os fiscais possam falar com a imprensa com o respaldo da área responsável pelo relacionamento institucional da ANTT com os jornalistas, conforme estabelecido no regimento interno da Agência. De acordo com o Art.29:
A Assessoria de Comunicação Social tem como atividades centrais:
IV – Coordenar e supervisionar o desenvolvimento das atividades de comunicação social e de relação com a imprensa, inclusive em apoio às demais Unidades de Processos Organizacionais;
Além do Art.29 acima mencionado, o código de ética da ANTT, estabelecido pela DELIBERAÇÃO Nº 284/09, DE 5 DE NOVEMBRO DE 2009, traz em seu Art.5°, traz a seguinte vedação:
Art. 5º É proibido ao servidor da ANTT:
X – manifestar-se em nome da ANTT para o público externo, sem autorização prévia;
Portanto, a normativa disciplina que o contato com a imprensa deve ser intermediado pela ASCOM, que avalia a pauta juntamente com a Superintendência de Fiscalização e presta o suporte adequado para que o fiscal fale em nome da Instituição.
Em nenhum momento a portaria veda contato direto do servidor com a imprensa.   Apenas normatiza não pode fazê-lo sem a prévia ciência e autorização da ASCOM.  Sem essa autorização, o servidor não poderá dizer que sua manifestação se trata de uma posição Institucional.

Cabe lembrar que esse é um procedimento adotado em diversas entidades públicas e privadas.

Att.
Ascom
Antt

DOCUMENTOS CITADOS NO TEXTO




Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

Sair da versão mobile