Transporte alternativo de Campinas (SP) está ‘em luto’ por mortes causadas pela Covid-19 e problemas financeiros

Permissionários se manifestam por meio de adesivos colados nos ônibus. Foto: Divulgação.

Sistema está com 42% da frota e operadores não recebem por veículos parados

JESSICA MARQUES

O transporte alternativo de Campinas, no interior de São Paulo, se manifesta contra as mortes causadas pela pandemia de Covid-19 na cidade. Por esse motivo, os operadores estão colocando adesivos nos vidros dos ônibus com a mensagem “em luto”.

Além disso, o luto também está sendo manifestado por conta dos problemas financeiros enfrentados pelas empresas em meio à crise provocada pelo novo coronavírus. Atualmente, o sistema está com 42% da frota, mas os operadores não recebem pelos veículos parados.

As informações foram divulgadas por Walter Rocha de Oliveira, presidente da Cooperatas, uma das três cooperativas às quais os permissionários do transporte alternativo estão vinculados. Em entrevista ao Diário do Transporte, o porta-voz informou falar em nome do sistema.

“A manifestação que o sistema alternativo está fazendo para se solidarizar com as pessoas que estão morrendo de Covid-19, especialmente em Campinas, que é onde atuamos, mas também no Brasil e no mundo. Estamos sendo solidários com essas famílias”, disse.

“O segundo posicionamento sobre a manifestação está dentro das condições financeiras. É um trabalho autônomo feito para um serviço essencial. Entendemos que essa condição de pagar só o custo desprestigia a gente e pode causar um colapso em que não conseguiríamos mais nos manter para essa atividade”, explicou também.

De acordo com Oliveira, foi acordado com a Prefeitura que seria feito o pagamento pelo custo dos veículos que estão operando. Contudo, o valor é insuficiente na visão das cooperativas.

“Em relação à questão econômica há falta de iniciativa. Nos reunimos com a Prefeitura para colocar mais carros na rua. Seis pessoas por metro quadrado é inevitável o contato. Pessoas aglomeradas dentro de veículo para o transporte ter fluidez financeira, mas nesse momento inviabiliza. O sistema tinha que estar em praticamente 100% nestes horários de pico. Mas quem vai pagar as contas? As cooperativas precisavam de condições financeiras para colocar os carros para rodar. E se fosse público? De que forma é possível fazer com os permissionários?”, questionou o presidente da Cooperatas.

Oliveira afirmou ainda que o diálogo sempre ocorre. Contudo, ao serem feitas solicitações para a Prefeitura, ao secretário de Transportes e à área técnica, a resposta é sempre que não há dinheiro suficiente para repasses ao transporte alternativo.

QUESTÃO DE SAÚDE PÚBLICA

Na visão do presidente da cooperativa, a questão não é somente financeira, mas de saúde pública. Isso porque quanto menos ônibus em operação, mais aglomeração e risco de contágio da Covid-19.

“Nos horários de pico muitas pessoas vão pra rua e isso está causando aglomerações dentro dos veículos, proporcionando risco para os operadores e para os usuários. A gente tem uma frota parada pra colocar na rua”, afirmou também Oliveira.

Atualmente, o sistema de transporte alternativo de Campinas é composto por três cooperativas, com 247 permissionários. Atualmente, estão operando aproximadamente 105 veículos, mas a frota operante é de 241.

Contudo, também de acordo com Oliveira, a quantidade de passageiros pagantes, que é o que sustenta o sistema, caiu muito. A demanda é de aproximadamente 35% em comparação à quantidade de pessoas nos ônibus antes da pandemia.

“O alternativo está em luto porque temos a tristeza de ver passageiros nossos morrendo, a população, e pela preocupação que todo mundo tem nesse momento de não ter viabilidade econômica para se manter”, finalizou Oliveira.

OUTRO LADO

Em nota ao Diário do Transporte, a Prefeitura de Campinas informou que está empenhada em assegurar o transporte coletivo adequando à população, ao mesmo tempo em que assegura um equilíbrio econômico-financeiro para as empresas que operam no sistema.

Confira a nota, na íntegra:

É importante destacar que a Administração municipal, mesmo nesta situação tão adversa, por conta da pandemia do novo coronavírus (Covid-19), tem realizado árduo esforço para assegurar o transporte público coletivo adequado a toda a população; e promover um equilíbrio econômico-financeiro que permita a operação do sistema.

Campinas tem características bem específicas, como já respondido por diversas vezes. É uma cidade muito “espraiada”, com mais de 800 km² de área; tem distâncias longas entre os bairros mais afastados e o Centro; o sistema de transporte é projetado para atender a todos os cidadãos; e isto tem um custo.

A Empresa Municipal de Desenvolvimento de Campinas (Emdec) avalia, constantemente, o carregamento do sistema de transporte público e realiza, diariamente, os ajustes necessários, visando adequar a oferta de veículos à demanda de passageiros em cada uma das mais de 200 linhas de ônibus. A frota é dimensionada para cada período do dia, de forma a garantir aos usuários o direito ao transporte público em segurança, seguindo as normas preconizadas para evitar a disseminação do novo coronavírus.

Mesmo com a situação financeira tão delicada, o subsídio ao sistema, de R$ 6 milhões mensais, incluindo o PAI-Serviço, está sendo pago em dia. Até adiantado. E não ocorreu nenhum reajuste no valor da tarifa de ônibus.

A complexa equação que envolve demanda x oferta x custos operacionais do sistema é analisada, diariamente, pela Emdec. E as tomadas de decisão são efetuadas de forma a contemplar tudo da maneira mais equilibrada possível. Causa muita estranheza a informação de “ônibus a mais”.

O atual cenário é desafiador para todos os segmentos, não somente para o transporte público. E a Administração municipal age de maneira técnica, consciente, em prol da população, evitando prejudicar os diversos segmentos de negócios; e conforme os ritos legais.

Jessica Marques para o Diário do Transporte

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Comentários

Comentários

  1. Paula disse:

    Muito obrigado Valter por estar por estar nos ajudando sou pé uma permisonaria e sei o quanto estamos vc sofrendo com tudo isso com a falta de colaboração do no governo muito obrigado

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