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OPINIÃO: Um Novo Transporte Público para uma Nova Realidade

Depois de décadas equilibrando receitas x custos e com pouco para espaço de manobra nesse momento, é chegada a hora de “pivotar” para um modelo de remuneração baseado em oferta do serviço e não em consumo

RAFAEL MOLINA

A discussão não é nova: custos crescentes a cada ano (capital humano, combustível, pneus e peças, depreciação) e receita flat/ constante (demanda estável com tarifa congelada por longos períodos). Assim, o modelo de negócio do transporte público municipal tem caminhado na corda bamba por décadas. O cenário, que parecia complexo, ganhou componentes adicionais na década de 2010: pressões populares para redução de tarifas, carros sob demanda como novos concorrentes e iniciativas de micromobilidade pipocando em forma de patinetes e bicicletas. Em meio a todos esses sinais, o setor foi administrando e acolhendo soluções paliativas que atendessem a necessidade de manter a operação de pé.

Entre tantos candidatos a catalisadores de novas mudanças, de pressões ambientais aos deliveries, passando pela tendência de transformar tudo em serviço, um azarão correu por fora: uma pandemia. O desafio que agora se apresenta ao transporte público não é essencialmente novo: junto a fome e guerra, as epidemias foram por milênios os principais obstáculos ao progresso da humanidade. Mas o período histórico em que isso ocorre é sim excepcional, com países altamente urbanizados, populosos e em processo de transformação digital.

Por ora, em todo o mundo, empresas têm realizado esforços para saírem vivas do outro lado desse desafio: redução de custos, busca de receitas e lobbies por socorros governamentais. Não é diferente no Brasil. Não é diferente no transporte público. Esforços tão intensos que, somados ao fluxo de informações que nos inunda diariamente e a abrupta mudança em nossa rotina imposta pelo isolamento social, marcarão toda uma geração por seus impactos sociais, econômicos e ambientais. O que ocorre agora é uma revisão de costumes, resistências e paradigmas. Entre toques em objetos compartilhados seguidos de banhos de álcool em gel e distanciamento socialmente consensual entre as pessoas, experimentamos uma realidade de maior privacidade, respeito ao espaço próprio, facilitação de acesso a produtos e serviços por meios digitais e flexibilização de jornadas de trabalho em diferentes setores econômicos. Ao fim da pandemia, parece inocente acreditar que as pessoas subitamente irão abrir mão dessas “conquistas”. Ao descobrir que pedir algo de casa é mais barato que o trajeto de ir buscar, ou que a economia em passagens e vales transporte versus a produtividade alcançada em home office uma ou duas vezes por semana compensa, a demanda por serviços de transporte cairá comparado a patamares anteriores de normalidade.

Aos que retornarem ao transporte público, a segurança sanitária passará a ser mais uma preocupação diária, o que pode representar pressões por maior previsibilidade sobre as viagens e suas condições. Assim, soluções de agora para o transporte público que se apoiam em retomada pelo modelo de negócio apoiado em demanda de passageiros são simplistas e pouco realistas. Depois de décadas equilibrando receitas x custos e com pouco para espaço de manobra nesse momento, é chegada a hora de “pivotar” para um modelo de remuneração baseado em oferta do serviço e não em consumo. Se fosse esse o modelo corrente os problemas estariam equacionados no momento: o governo flexibilizaria a oferta até um “x” mínimo que permita a existência de concessionários/ permissionários e pagaria por ela.

Claro que o leitor nesse momento se questiona de onde virá a receita a ser derivada do governo no pagamento dessa oferta. Aqui experiências por todo o planeta podem ser apresentadas: direcionamento de receitas de impostos em combustíveis e veículos privados para o transporte público, captura de receitas de veículos sob demanda, redução de impostos setoriais, receitas de pedágios e multas, receitas do consumo do serviço. Sim, a demanda segue sendo uma fonte de receita. Uma, não a única (“não se coloca todos os ovos em um único cesto”).

Outro campo pouco explorado de potencial receita que pode ganhar relevância nesse contexto são os dados. Por todo o mundo, empresas de diferentes portes, com equilíbrio entre custos e receitas bastante questionáveis, são avaliadas em milhões, por vezes bilhões de dólares. Promovem abertura de capitais baseados em projeções de receitas e não em resultados e fazem jus a aportes vultuosos por investidores. Por quê? Disrupção de setores, alcance de audiência e geração de valor por meio de dados. Por algum motivo o setor que aposentou carruagens e bondes nas grandes cidades brasileiras, com proposta colaborativa e de compartilhamento, que sozinho transporta quase metade da população urbana, com possibilidade de alcance dessa audiência e acesso a seus dados de forma coletiva (sem qualquer conflito com as leis de proteção a dados) ainda hoje flerta tímida com essa roupagem “tec”.

A mudança tem seus custos. A começar por um foco muito maior no que genericamente é chamado até então de qualidade: controlar indicadores como partidas, viagens, atendimento de pontos na linha, quilometragem rodada, tempos de trajeto e/ou intervalo entre veículos; em detrimento a ações de cunho mais intuitivo para maximização da demanda. Isso exige a criação de processos internos, rotinas de comando e controle mais complexas e necessidade de sistemas tecnológicos na operação e controle de variáveis de acompanhamento não trivial, por suas dimensões e escalas. É certo que esse movimento deve trazer maior maturidade inclusive sobre as demandas tecnológicas do setor, que deixam de ser protocolares no atendimento a editais e passam a ser centrais em computação dos parâmetros de oferta do serviço a ser remunerada.

Como toda inovação, a mudança do modelo de negócio do transporte público deve ter seus adotantes iniciais acompanhados por olhares desconfiados de outras empresas e municípios em dúvida e outros bem resistentes. Aqueles que se adaptarem mais rápido são os com maior possibilidade de sustentar seus negócios e se tornarem dominadores nos próximos estágios. Quem mudar antes sobreviverá e sairá fortalecido de crises como essa; quem não mudar…

Rafael Molina – Engenheiro de Gestão e Mestre em Engenharia da Informação pela Universidade Federal do ABC. Mestre em Empreendedorismo pela Universidade de São Paulo. Gestor de Projetos de Inovação da Cittati Tecnologia.

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