Ainda cercado de incertezas, monotrilho 15-Prata só vai ter operação parcial a partir do dia 23

Publicado em: 14 de março de 2020

Bombardier não explicou ainda ao público e de forma oficial, a causa de estouro de pneu do seu trem. Uma possibilidade seria que o run flat poderia estar tocando nos pneus

ALEXANDRE PELEGI / ADAMO BAZANI

Com muitas dúvidas ainda a esclarecer, o sistema de trens de baixa/média capacidade, que é o monotrilho da linha 15-Prata, deve começar a funcionar apenas de forma parcial a partir de 23 de março de 2020.

A linha entre São Mateus e Vila Prudente, na zona Leste, deve somente a partir de 14 de abril voltar integralmente.

A informação foi confirmada apenas no início da manhã deste sábado, 14, pela Assessoria de Imprensa da STM – Secretaria dos Transportes Metropolitanos

A possível causa do estouro do pneu, segundo a STM, seria que o run flat poderia estar tocando nos pneus, danificando-os.

A empresa canadense Bombardier ainda não veio a público dar explicações aos usuários dos seus trens.

Entretanto, não há segurança em se basear apenas na versão da canadense Bombardier e do consórcio CMEL, tanto é que o governo do Estado contratou diretamente o Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo S/A – IPT, por dispensa de licitação, para analisar também, e de forma independente, as causas de ruptura de pneus de carga e runflat na frota M da Linha 15 do Metrô. Relembre: Metrô contrata IPT para verificar causa de estouro de pneu do monotrilho

Há ainda muitas dúvidas sobre o conjunto de causas de a linha 15 Prata de monotrilho, um sistema inferior ao de Metrô, dar tanto problema.

Desde sua inauguração parcial em 2014, com mais de quatro anos em atraso, o sistema da Companhia do Metropolitano e dos trens da Bombardier faz os passageiros colecionarem dor de cabeça e até insegurança. Falhas de operação, o estouro do pneu com uma peça pesada quase atingindo uma loja e até batida de trens não são especulações, mas realidade deste meio de transporte com grandes limitações e criticado amplamente por especialistas.


NOTA DA STM

A Linha 15-Prata poderá retomar a sua operação no dia 23 de março, em trecho parcial e horário integral. A previsão para retomada integral, de forma absolutamente segura ao passageiro, tem a previsão para o dia 14 de abril, de acordo com Consórcio CEML e a Bombardier.

O laudo apresentado mostra que o run flat poderia estar tocando nos pneus, danificando-os. A Bombardier está analisando todo o conjunto de rodas de todos os trens, para que as partes e peças que colocam em risco o pleno funcionamento do trem possam ser substituídas.

Outro problema apontado é a necessidade de intervenção na via para acabar com possíveis trepidações e assim evitar que haja risco do run flat possa entrar em contato com os pneus.

O consórcio CEML já iniciou as intervenções necessárias na via e está substituindo as partes e peças dos trens, de acordo com a chegada das mesmas no Brasil, para que a Bombardier possa liberar os trens para retornarem com segurança a operação.


Especialistas criticam modelo de monotrilho para São Paulo e cidades vizinhas

(Adamo Bazani)

Segundo os técnicos e acadêmicos consultados pela reportagem do Diário do Transporte, linhas como 15-Prata (São Mateus/Vila Prudente) e 17-Ouro (Congonhas/Morumbi) deveriam ser atendidas por um modal de alta capacidade, como metrô e trens e não por um meio de média capacidade, como monotrilho.

A linha 18-Bronze (São Bernardo do Campo/Tamanduateí) vai ser substituída por um sistema chamado BRT – Bus Rapid Transit, que consiste em corredores de ônibus com mais capacidade e velocidade maior que os corredores de ônibus comuns, mas com atendimento menor que de um metrô.

As promessas de que as linhas de monotrilho deveriam ser bem mais baratas que do Metrô e de implantação mais rápida não se concretizaram. Todas as linhas deveriam estar funcionando desde 2014, pelo menos, e com preço bem inferior ao Metrô, mas somente a linha 15-Prata opera e constantemente tem registrado falhas graves que comprometem a operação e a rotina dos passageiros. O custo de implantação vai superar R$ 5 bilhões.

Desde o final de semana, mais uma vez os passageiros do monotrilho só contam com ônibus como transporte coletivo porque o monotrilho não funciona.

O problema agora é com os pneus dos trens.

Diferentemente dos trens de alta capacidade do Metrô e da CPTM, que têm rodas de ferro, os trens de média capacidade do monotrilho têm pneus.

Como mostrou o Diário do Transporte, o estouro do pneu do trem M20, quando saía da estação Jardim Planalto, por volta de 6h30 de 27 de fevereiro, colocou em alerta o Metrô e a empresa Bombardier, que suspenderam as operações de 23 composições.

O consultou de transporte, Peter Alouche, disse que monotrilho é sujeito a este tipo de problema e que alertava para as limitações do modal.

“Já alertava para este tipo de problema desde o início da escolha. Registrei meu descontentamento através de muitos artigos técnicos. A possibilidade de estouro de pneus é real neste meio de transporte” – disse o especialista Peter Alouche, que participou ativamente da implantação do Metrô de São Paulo

Já nos anos 1960, o monotrilho tinha sido descartado para a capital e cidades vizinhas.

Em 1966, o então prefeito de São Paulo, Faria Lima, criou o Grupo Executivo Metropolitano – GEM que antecedeu a fundação da Companhia do Metropolitano. Segundo nota na área de Governança Corporativa no site do Metrô, esse grupo contratou um consórcio de duas empresas alemãs (Hochtief e Deconsult), que se fundiu com a brasileira Montreal, formando uma nova empresa, a HMD.

Foi a HMD que realizou a primeira “Pesquisa Origem e Destino”, em 1967, por meio da qual foram projetadas as linhas básicas do Metrô para a cidade de São Paulo, elaborados os primeiros estudos econômicos e o pré-projeto de engenharia, segundo a explicação no site do Metrô.

Assim, o consórcio internacional projetou demandas, que agora se realizaram, para as quais o monotrilho não tem capacidade de atender.

Segundo o arquiteto e urbanista, consultor de transporte, Flaminio Fichmann, em conversa com o Diário do Transporte nesta segunda-feira, 02 de março de 2020, a linha 15-Prata paga por ser laboratório de um monotrilho que a fabricante não possuía.

“Investimos na tecnologia da Bombardier, empresa canadense, que não tinha o “produto” para implantar e atender a demanda da Linha 15 do monotrilho. Ou seja, estamos pagando o desenvolvimento de um novo tipo de monotrilho para uma empresa estrangeira, que está falhando na operação e colocando as pessoas em risco. Hoje podemos afirmar com segurança que eles não cumprirão as especificações do projeto para atender a demanda prevista.”

Fichmann também cita problemas na linha 17-Ouro, que ainda está em construção, em relação a fabricante de trem.

“A Linha 17 Ouro não concluiu o primeiro trecho e não entrou em operação porque a Scomi, outra empresa estrangeira, faliu e não existe previsão para a implantação da linha até o Morumbi, prometida para o início da Copa em 2014. Já gastamos bilhões de reais de modo irresponsável com essa tecnologia.” – disse

Após o rompimento do contrato com o antigo consórcio, o Metrô abriu um novo processo de licitação para o fornecimento de trens de média capacidade e equipamentos e habilitou a chinesa BYD  (Consórcio BYD SKYRAIL São Paulo, formado pelas chinesas BYD do Brasil Ltda; BYD Auto Industry Company Limited e BYD Signal & Communication Company Limited.) para a linha 17, muito embora, o Consórcio Signalling, composto por duas empresas nacionais – Ttrans e Bom Sinal – e uma empresa suíça, a Molinari, tenha oferecido o menor preço.

Na decisão que é alvo de recurso, o Metrô entendeu que o Consórcio Signalling não atendeu o critério de “Patrimônio Líquido”.

Relembre:

https://diariodotransporte.com.br/2020/02/01/metro-habilita-chinesa-byd-para-fornecer-trens-do-monotrilho-da-linha-17/

Mesmo sem fazer uma defesa do BRT, o arquiteto e urbanista, consultor de transporte, Flaminio Fichmann, diz que foi uma boa decisão do Governo do Estado em descartar o monotrilho para a ligação entre o ABC Paulista e a capital na linha 18.

“Muitos irresponsáveis e mentirosos os que estavam apresentando o Monotrilho do ABC como Metrô, tentando enganar a população. Felizmente esse processo foi sepultado e o ABC poderá se abrir para soluções de transporte mais eficientes, seguras e confiáveis.” – completou Flaminio.

O Sindicato dos Metroviários de São Paulo foi a primeira entidade a divulgar que a interrupção do funcionamento do monotrilho ocorreu por causa de estouro em pneu.

O coordenador-geral do Sindicato dos Metroviários de São Paulo, Wagner Fajardo, explicou ao Diário do Transporte que a entidade sustenta que monotrilho é um meio de transporte de média capacidade, para trajetos curtos, limitado, com características de estrutura e operação sem domínio brasileiro e mais sujeito a falhas crônicas.

“Isso já confirma as opiniões que o sindicato vem expondo desde o início da inauguração desse sistema. O sistema de monotrilho é inseguro, tem muitas falhas e, na realidade, fizeram os trabalhadores e usuários de cobaias num sistema que não deveria ser este, mas metrô para garantir um transporte de alta capacidade” – disse

Os especialistas ainda foram unânimes em defender que a prioridade dos investimentos deve ser a ferrovia de alta capacidade conjugada com uma rede de alimentação por ônibus qualificada, formado por BRTs, corredores comuns e faixas, de acordo com a demanda e as condições de infraestrutura de cada região.

Em nota oficial emitida neste domingo sobre o problema de estouro de pneu, a empresa Bombardier diz que técnicos do Canadá foram enviados para o Brasil com o objetivo de verificar o problema e que quer “tranquilizar os passageiros de que os trens do monotrilho do Metrô de São Paulo têm transportado passageiros com segurança e confiabilidade desde que o sistema foi inaugurado em 2014.”

A empresa ainda pediu “desculpas pelo inconveniente necessário.”, ou seja, a retirada de 23 trens de circulação para a análise.

INTERRUPÇÃO DA LINHA 15-PRATA NÃO ERA TESTE DE CONTROLE DE TRENS

Inicialmente, o Metrô dizia que a suspensão da operação se deu por causa de “testes do sistema de controle de trens”, mas o verdadeiro motivo da paralisação da linha 15-Prata, trazido à tona pelo Diário do Transporte e pelo Sindicato dos Metroviários foi o problema com os pneus dos trens.

Segundo o Metrô, ao longo dos testes realizados na linha no fim de semana, foi constatada “a incidência de danos em outros pneus dos trens do monotrilho”

O Metrô relatou ainda que partes dos pneus chamadas “Run Flat” estão causando essa alteração. Esses dispositivos ficam nas rodas e garantem a movimentação do trem em casos de anormalidades, como pneus furados ou murchos.

A estatal disse, por meio de nota, que cobrou da Bombardier e do Consórcio CEML – que construiu a via – providências urgentes para a identificação da causa da ocorrência, a sua correção e que eles arquem com todos os prejuízos decorrentes desta paralisação junto ao Metrô de São Paulo.

Alexandre Pelegi e Adamo Bazani, jornalistas especializados em transportes

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Comentários

  1. Laurindo Martins Junqueira Filho disse:

    A trepidação da via foi uma falha constatada desde a construção da Linha 15. Ela não ocorre em outros monotrilhos construídos fora do País. Era senso comum de que a irregularidade fora do padrão exigido, da viga suporte das rodas, iria causar problemas. Agora, certamente, a Bombardier vai alegar que o problema só ocorreu por causa da construção defeituosa da viga. E o prejuízo vai sobrar para a viúva…

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