Grupo de apaixonados pela história dos transportes viaja pelo tempo no trajeto entre São Paulo e Poços de Caldas
ADAMO BAZANI
Colaborou, Jessica Marques
O que você estava fazendo em 1990? E em 1978?
Provavelmente muitos dos que estão lendo esta reportagem nem tinham nascido em algum destes anos.
Mas dois ícones que, pode-se dizer, “vieram ao mundo” em 1990 e 1978 se encontraram neste sábado, 03 de agosto de 2019: um Marcopolo Viaggio 1100 Geração 4 – Scania K 112CL (1990) e um Ciferal Urbano – Mercedes-Benz LP 1113 (1978).
Certamente, hoje estes ônibus não são mais veículos comuns. São verdadeiras máquinas do tempo que guardam em si muita história e despertam verdadeiras memórias.
E um pessoal muito animado, que admira, pesquisa e revive a história dos transportes se encontrou nestas duas máquinas num passeio todo especial: o Grupo Ônibus e Raridades, que surgiu da união de amigos, muitos que se conheceram no Facebook, realizou um passeio entre a cidade de São Paulo e Poços de Caldas, em Minas Gerais, onde foi realizada a XII Poços ClassicCar, uma exposição de automóveis que marcaram épocas, realizada pelo Clube do Automóvel Antigo da cidade.
Admiradores e pesquisadores dos transportes se reúnem para contar histórias e curtir um dia diferente
Entre São Paulo e Poços de Caldas, a viagem foi feita no Marcopolo Scania. Apesar de seus 29 anos de estrada, o ônibus demonstrava muita disposição na rodovia, fruto do bom cuidado e do verdadeiro carinho do seu proprietário, o jovem motorista de ônibus Diego Felipe da Silva.
Diego, filho de motorista e motorista é
Filho de motorista de ônibus também, Diego conta que desde criança adora ônibus. O nome no veículo “Estância de Prata” remete a uma empresa fictícia que criou quando fazia desenhos dos ônibus, algo muito comum entre os busólogos, pessoas que gostam e pesquisam ônibus.
“Estância de Prata é uma empresa que eu tenho na época de desenhos, fictícia, quem tá no ramo da busologia sabe que na época dos desenhos [se cria empresas]. Eu ficava desenhando, não sabia que já existia. Eu colocava nos desenhos e vou manter agora que consegui realizar meu sonho de comprar ônibus” – disse
Ouça:
Diego tem dois ônibus, este Marcopolo Viaggio Scania que comprou em dezembro de 2018 em muito bom estado da empesa Macacari, de Jaú, no interior paulista, e um Marcopolo Viaggio 950 – Geração 4 – Mercedes-Benz O-371RS, adquirido há três meses.
Ao longo do caminho, muitas histórias eram contadas pelos viajantes, todas embaladas pelo som do ronco do imponente Scania 112, com a carroceria que tem entre as principais características, a porta no meio (em vez da frente) e o banheiro abaixo do salão dos passageiros, ao lado da escada de acesso.
Na estrada, o encontro casual com outros dois ícones que iam para Poços de Caldas: um Flecha Azul –Scania K113CL (1996) e um lendário Ciferal Dinossauro – Scania BR 116 ano 1979/1980
CMA Scania Flecha Azul – 1996
Ciferal Dinossauro – Scania BR 116 ano 1979/1980
Chegando à cidade de Poços de Caldas, a recepção foi toda especial.
A empresa Auto Omnibus Circullare Poços de Caldas Ltda, que faz serviço de fretamento contínuo e eventual, além do transporte municipal, acolheu o grupo de admiradores com um presente: a oportunidade de conhecer e dar um passeio em seu Ciferal Urbano 1978.
O ônibus sempre foi da empresa, desde zero quilômetro, e é um ícone na história dos transportes de Poços de Caldas.
De acordo com o coordenador de qualidade da Circullare, Douglas Danilo Dias, foram mais de três anos para restaurar o ônibus. Algumas peças tiveram de ser feitas artesanalmente.
“Este ônibus fez por vários anos serviço urbano, operou em várias linhas aqui da cidade, depois passou para serviços especiais, passou por transporte escolar e, por último, estava fazendo o serviço numa região de mina. Depois de três longos anos de reforma, de refazer peças do ônibus, muitas nem existiam mais no mercado, este projeto foi concluído. Para nós é um motivo de orgulho ter este veículo porque é o único no Estado de Minas Gerais. Hoje este ônibus está sendo usado em feiras, eventos de automóveis antigos e também num projeto em parceria com a prefeitura para o transporte de alunos das escolas públicas para museus e praças, dentro de um programa para resgate e valorização do patrimônio cultural” – conta
Ciferal Urbano 1978 – restaurado
Ciferal Urbano antes da restauração
Ciferal Urbano durante a restauração
Ativo na restauração do ônibus, o coordenador de tráfego urbano da Circullare, Alcir Rossi, tem sua história de vida e profissão ligada ao veículo, que marcou o início de sua trajetória nos transportes. Ele conta que o ônibus era lugar de namorar na época. Inclusive, Alcir conheceu sua esposa no veículo.
“Quando eu entrei pela primeira vez na empresa, como cobrador, em 1984, esse ônibus era meu de escala. O número era o 120. Quando eu passei para motorista, em 1993, também foi meu primeiro carro de escala (…) O ônibus na época era o lugar que o pessoal tinha para namorar. Em casa não podia ficar junto e dentro do ônibus era o momento de sentar juntinho. Inclusive eu comecei a namorar nele e já são 31 anos de casado” – relembra.
Ouça
Alcir no início da carreira
Alcir relembra início de carreira no posto de cobrador
A Auto Omnibus Circullare Poços de Caldas Ltda foi criada em 1949. Segundo o coordenador de qualidade, Douglas Danilo Dias, atualmente a companhia faz parte de um grupo empresarial.
“ A Circullare faz parte do grupo Omnibus Empreendimentos, com sede em Belo Horizonte. São sete empresas. Aqui em Poços de Caldas, a Auto Ônibus opera 50 linhas urbanas, que atende a todo o município, são mais de três mil horários por dia, com 118 ônibus urbanos mais três vans adaptadas que prestam o serviço de transporte especial. Operamos também na divisão de fretamento e turismo, que é a Auto Viação Circullare, atendemos a vários clientes de fretamento contínuo mais viagens de turismo e pacotes para várias regiões do Brasil” – explicou
Muito bem organizada e limpa, a garagem da Circullare reúne veículos novos, como Apache Vip IV e Marcopolo G7 e já alguns clássicos que ainda estão em combate, como o Monobloco O-400 RSL ano 1994 e um Volvo B10 M EL Buss 340, ano 1992
Volvo Busscar
Monobloco O 400 RSL
Três gerações de Marcopolo juntas: G7, G6 e G5, da esquerda para a direita
O simpático Ciferal Urbano levou os admiradores para a XII Poços ClassicCar, onde foi possível encontrar mais ícones da indústria automobilística: carros, veículos militares, caminhões, motos e, claro, mais veículos de transporte coletivo.
O passeio também foi uma oportunidade de conhecer um pouco da cidade, que é uma estância turística.
Uma boa pedida é passear com o teleférico, que leva ao “Cristo Redentor”, de onde é possível ter uma vista privilegiada de grande parte de Poços de Caldas.
Visão do teleférico e Cristo
Outra página da história dos transportes que pode ser conferida é o monotrilho abandonado de Poços de Caldas.
O pequeno trem com pneus e as vigas de concreto para sustentar este veículo sofrem com o tempo.
Monotrilho: desperdício de dinheiro, mas possibilidade de retorno
HISTÓRICO
Em janeiro deste ano, a Prefeitura de Poços de Caldas, em Minas Gerais, assumiu o monotrilho da cidade. O empreendimento particular foi inaugurado há 18 anos, originalmente concebido como transporte de massa, que já operou como um equipamento de turismo.
Segundo a Prefeitura, em 20 de agosto de 1981 a Câmara Municipal aprovou e o prefeito Ronaldo Junqueira sancionou a lei 3.119, que autorizou a concessão, mediante concorrência pública, para exploração de transporte de massa, por via elevada, com prazo de concessão estabelecido em 50 anos, sem possibilidade de prorrogação e contados a partir da inauguração.
Da inauguração, logo após dada a concessão, o monotrilho de Poços de Caldas, que era o único a funcionar no país no sistema ferroviário de transporte de massa, circulou poucas vezes, apenas como testes. Dos 30 km previstos, apenas 8 quilômetros foram executados, e o trem passou a funcionar como atração turística.
O contrato estabelecia um prazo de 10 anos para que o monotrilho fosse inaugurado.
Em 1991, houve um aditamento do contrato, concedendo um prazo de mais 10 anos para conclusão.
Em agosto de 2000, foi oficialmente inaugurado, durante a realização da Festa UAI, nas proximidades do estádio Ronaldo Junqueira. O transporte funcionou poucas vezes até sofrer uma pane onde 19 pessoas precisaram ser retiradas pelo Corpo de Bombeiros. Em 2003, duas pilastras desabaram e desde então, nunca mais funcionou.
Um impasse entre a construtora e a Prefeitura impediu que a edificação voltasse a funcionar. A concessionária culpava a administração pública pela queda dos pilares de sustentação e solicitava uma análise da estrutura ainda existente. Em 2012, a Prefeitura compôs uma comissão de engenheiros para elaborar um parecer técnico sobre as condições estruturais do monotrilho.
Em 2014, o Ministério Público tentou fazer um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) entre a Prefeitura e a empresa J. Ferreira para resolver o impasse, mas o acordo não foi assinado e o processo ficou na Justiça.
Em 2016, a Justiça determinou que a Prefeitura realizasse obras de contenção dos taludes ao longo da Av. João Pinheiro e criasse planos de contingência para evitar a ruína da estrutura. A última ocorrência foi em 2018, quando parte da estrutura de uma pilastra começou a ceder e teve que passar por manutenção preventiva, a cargo da empresa.
A decisão tomada em 29 de janeiro de 2019, passando a concessão para a Prefeitura, transfere para o Poder Público Municipal a destinação de toda a estrutura do monotrilho.
Já é a sexta edição de passeios do grupo, sempre com veículos e destinos diferentes e novas emoções de velhos tempos a cada viagem realizada.
E vem mais por aí …
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes
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