“Economia” com a troca de monotrilho por BRT no ABC deve ser usada para melhorias no trânsito, na CPTM e para o combate às enchentes, defendem especialistas

Publicado em: 11 de julho de 2019

Sistema de BRT de Guangzhou, na China. Governos estão usando sistemas como oportunidade de requalificação urbana. Foto: ITDP – China – Clique para Ampliar

Segundo Governo do Estado, sistema de ônibus rápidos custará menos de R$ 700 milhões e sistema de trens leves com pneus em elevados geraria gastos de quase R$ 6 bilhões para implantação

ADAMO BAZANI

Já que o BRT (sistema de ônibus rápidos em corredores com estações e ultrapassagens) deve custar quase dez vezes menos que o monotrilho (trens leves com pneus que circulam em elevados) para o traçado previsto para a linha 18-Bronze (entre o ABC e a Capital), o dinheiro “economizado” deve ser revertido para melhorias no trânsito e combate às enchentes, dois grandes problemas crônicos na região.

É o que defendem especialistas ouvidos pelo Diário do Transporte em parceria com órgãos regionais de comunicação, como o Repórter Diário e a Rádio ABC.

Há uma semana, o governador de São Paulo, João Doria, e o Secretário de Transportes Metropolitanos, Alexandre Baldy, ao anunciarem a troca de modal disseram que as capacidades de transportes entre monotrilho e BRT se assemelham, mas o sistema de trens leves custaria em torno de R$ 6 bilhões e os ônibus rápidos demandariam menos de R$ 700 milhões para ser implantados.

Os detalhes do projeto de BRT para o ABC devem ser divulgados pelo Governo do Estado de São Paulo no próximo dia 06 de agosto no Consórcio Intermunicipal ABC, em Santo André, entidade que reúne prefeitos da região.

O presidente da ANTP – Associação Nacional de Transportes Públicos, Ailton Brasiliense Pires, diz que a entidade, que reúne especialistas de mobilidade urbana, entendeu que, neste momento, foi vantajosa para a região do ABC Paulista a troca de monotrilho por BRT.

“Nós da ANTP, discutimos esta questão da região ultimamente e entendemos que somos favoráveis a esta mudança em função dos parâmetros colocados: recursos disponibilizados, passageiros transportados e o tempo de implantação. Estes três fatos são muito importantes para tomar decisão” – disse Ailton ao programa Debate em Família, de Luís Carlos, com participação do jornalista especializado em transportes, Adamo Bazani, na Rádio ABC, nesta terça-feira, 09 de julho de 2019.

Ouça:

Segundo ainda o presidente da ANTP, sistemas como do BRT podem alavancar a modernização da linha 10-Turquesa da CPTM, um dos principais eixos de transporte público do ABC, que deve receber mais passageiros. A modernização da linha foi uma das promessas do governador João Doria e do secretário de transportes metropolitanos, Alexandre Baldy, ao falarem sobre um pacote para a mobilidade na região na última quarta-feira, 03 de julho de 2019. A primeira ação foi a colocação de trens mais novos, de dez anos de fabricação, da série 7000, no lugar das composições de 1974, da série 2100. Ailton Brasiliense diz não conhecer os cronogramas do Governo do Estado de São Paulo, mas acredita que em menos de quatro anos uma linha como a 10 Turquesa pode estar completamente modernizada, com padrão semelhante a metrô.

“Eu não conheço o cronograma do governo, da CPTM. Tem de arrumar algumas coisas, como a parte elétrica, a via, sinalização e controle e o trem. Isso tudo faz parte da renovação e ampliação do serviço que tem de ser prestado. Mas acho que no máximo em quatro anos, tem tudo isso pronto, exagerando. É uma prioridade. E ganhou uma prioridade maior até por conta do BRT que vai levar mais passageiros para integrar, tanto a linha 2, como na 10 e na 15 (monotrilho 15-Prata). Essa articulação na região Sudeste [que inclui o ABC] é fundamental e ela [linha 10] tem de estar tecnologicamente muito próxima, um sistema do outro. Não pode ter disparate” – disse Ailton

O Superintendente de Planejamento e Desenvolvimento Urbano do Instituto Mauá de Tecnologia, de São Caetano do Sul, o engenheiro Fábio Sampaio Bordin, diz que o local por onde deve passar o BRT sofre com enchentes, mas o dinheiro poupado, pode ajudar a resolver o problema naquela região.

“Esperamos que com esta destinação dos recursos, esta economia gera maior capacidade de investimentos e possa trazer melhorias que a região do ABC tanto precisa: obras anti-enchente e  controle do restante da malha viária.” – disse o professor.

“Há uma oportunidade de revitalizar toda a área onde vai passar o BRT. Essa ‘sobra’ [diferença entre o gasto com monotrilho e o BRT] para minimizar os efeitos dos cruzamentos ao corredor, não é algo que vai ser feito do dia para a noite. O fato de o corredor passar ao lado de um rio que transborda não é impeditivo para o projeto do BRT, mas esta questão tem de ser levada em conta. Tudo depende de um bom projeto e tem de ser antes da implantação, depois é difícil mudar. Não é o BRT que vai resolver a enchente, mas ele pode ser um indutor de investimentos públicos naquele local” – acrescentou.

O arquiteto e consultor em mobilidade, Flamínio Fichimann, também considera a economia que o Governo do Estado vai ter ao trocar os modais uma oportunidade que grandes gastos com um único modal não proporcionaria.

“O passageiro no monotrilho não é imune à enchente. Como as pessoas vão chegar até ele ou sair da estação se tudo estiver cheio de água no entorno? O monotrilho vai ficar sozinho indo e voltando lá em cima?  E o pátio dele? Porque o monotrilho roda em elevado, mas o pátio dele é no chão. Como é que vai fazer com o sistema alimentador? As pessoas chegam ao monotrilho a pé, de ônibus, de bicicleta e aí, o que vão fazer? O ABC tem problema crônico de enchentes. Essa economia de recursos será uma oportunidade para reverter isso. Precisa tratar efetivamente a questão. Qual a vantagem? Se eu fosse o governador, já que estou trocando um sistema bem caro por um mais barato e com resultados similares, vou usar os recursos, que são limitados, de forma inteligente: obras de piscinão, desassoreamento, microdrenagem, há tipos de asfalto que são permeáveis. Tem muita coisa que pode ser feita” – explicou.

Os especialistas participaram na última semana do programa RDTV – Repórter Diário na TV, com apresentação do jornalista Leandro Amaral e participação do jornalista Adamo Bazani.

Assista na íntegra os dois programas:

 

HISTÓRICO

A Linha 18-Bronze foi projetada inicialmente para ser um sistema de monotrilho, que deveria estar pronto entre o final de 2015 e o início de 2016. O projeto chegou ao quinto aditivo e ainda não há definição sobre o início das obras e a assinatura do sexto.

O maior obstáculo é o financiamento das desapropriações para a implantação dos elevados para os trens com pneus e as estações. Nas contas do Governo do Estado de São Paulo, estas desapropriações devem custar aos cofres públicos em torno de R$ 600 milhões.

Em 2014, o monotrilho da linha 18-Bronze tinha uma previsão de consumir R$ 4,69 bilhões (R$ 4.699.274.000,00) para ficar pronto. O valor, de acordo com a atualização do orçamento pelo Governo do Estado, pulou para R$ 5,74 bilhões (R$ 5.741.542.942,61), elevação de 22,18%.

Os dados são da Secretaria Estadual dos Transportes Metropolitanos e foram obtidos pela reportagem do Diário do Transporte por meio de Lei de Acesso à Informação no início do ano.

Isso significa que cada quilômetro do monotrilho do ABC custaria, se saísse hoje do papel, R$ 365,7 milhões (R$ 365.703.372,14) – sem as correções entre janeiro e junho.

A demanda projetada pelo Governo do Estado para o monotrilho com toda a extensão concluída é de em torno de 340 mil passageiros por dia.

No dia 8 de abril, durante inauguração da estação Campo Belo da Linha 5 Lilás do Metrô, o governador João Doria e secretário de transportes metropolitanos, Alexandre Baldy, disseram que o modelo proposto para a linha 18 seria mudado. Doria também afirmou na ocasião que o modelo pensado para a linha “foi um erro”

Importante registrar que nós vamos modificar esse formato. Houve um erro, a nosso ver, do governo que nos antecedeu, mas ao invés de ficar aqui apenas culpando o passado, vamos tratar de encontrar soluções para o presente e o futuro. Nós teremos um outro formato que não vai exigir 600 milhões de reais de pagamento de indenizações por desapropriações, até porque isso é inviável, nós não temos recursos no orçamento para essa finalidade. Então esse planejamento que o secretário Baldy tem conduzido será apresentado em breve, para que a nova solução a ser apresentada ela seja conclusiva, e não uma opção inviável e que gere apenas expectativas e não fatos reais e concretos”, concluiu Doria na oportunidade, sem, no entanto, falar em troca de modal. – Relembre:

https://diariodotransporte.com.br/2019/04/08/linha-18-do-abc-tera-um-novo-formato-confirma-governador-joao-doria/

No dia 25 de fevereiro, o presidente do Consórcio VemABC – Vidas em Movimento, Maciel Paiva, que ganhou a licitação para o monotrilho, disse que já foram gastos R$ 5 milhões pelas empresas, antes mesmo do início da vigência do contrato da PPP – Parceria Público Privada de construção e operação do modal, para adiantar ações como levantamento das áreas a serem desapropriadas e os procedimentos necessários para posteriormente obter a licença ambiental.

Relembre:

https://diariodotransporte.com.br/2019/02/26/consorcio-vemabc-ja-gastou-mais-de-r-5-milhoes-em-linha-18-e-diz-que-pode-entregar-monotrilho-seis-meses-antes-do-projeto-original/

O Consórcio não descarta ir à Justiça contra o Governo do Estado se houver mudança de modal.

O cronograma de licitação do monotrilho foi o seguinte, de acordo com o Governo do Estado e apresentação do VemABC:

Abertura dos envelopes: 03 de julho de 2014.

– Assinatura do Contrato com o VemABC: 22 de agosto de 2014

– 1º Aditivo Contratual (prorrogação da etapa preliminar): 22 de agosto de 2015; válido até 22 de fevereiro de 2016

– 2º Aditivo Contratual (prorrogação da etapa preliminar): 29 de agosto de 2016; válido até 22 de novembro de 2016

– 3º Aditivo Contratual (prorrogação da etapa preliminar): 24 de novembro de 2016; válido até 22 de maio de 2017

– 4º Aditivo Contratual (prorrogação da etapa preliminar): 18 de julho 2017; válido até 22 de novembro de 2017

– 5º Aditivo Contratual (prorrogação da etapa preliminar): novembro de 2017; válido até 22 de novembro de 2018

O Consórcio VemABC tem a seguinte estrutura acionária: 55% Primav Construções e Comércio S/A (sendo que o grupo italiano Gavio tem 69% e o Grupo CR Almeida responde por 31%), 22% da Construtora Cowan S.A., 22% do Grupo Encalso Damha e 1% do Grupo Roggio, argentino.

No dia 03 de abril de 2019, o Governador de São Paulo, João Doria, e o secretário de transportes metropolitanos, Alexandre Baldy, juntamente com prefeitos do ABC anunciaram a substituição do monotrilho por um BRT (sistema de ônibus rápidos) que, de acordo com estudos que a gestão diz ter realizado, tem eficiência, capacidade e velocidade semelhantes, mas custando 10 vezes menos. Na apresentação, o secretário Baldy estimou que o BRT terá preço de R$ 680 milhões para enquanto monotrilho seria de quase R$ 6 bilhões. O prazo para conclusão do BRT será de 18 meses.

A capacidade inicial do BRT seria de 150 mil passageiros sendo ampliada para 340 mil.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

Comentários

  1. Paulo Gil disse:

    Amigos, bom dia.

    Essa questão do XPTO da linha 18m, além da perda de tempo e da encheção de saco; já passou da hora de ser resolvida.

    Para colocar um ponto final nesta e outras questões relacionadas aos Aerotrens de Sampa e da natimorta linha 13 JADE, faço a seguinte sugestão.

    Têm de se reunir, órgãos de reconhecida capacidade técnica, tais como IPT, CREA, Universidades, Institutos de pesquisa, ABNT, Falcão Bauer e tantos outros, para definirem esta questão de uma vez por todas e bem definida.

    Principalmente em função das constantes enchentes do ABC; não é o só o tipo de modal que tem de ser considerado; pois de que adianta ser o modal XPTO e no dia da enchente o passageiro ficar literalmente ao ver navios ao invés do modal XPTO.

    Explico o porque da minha sugestão, embora eu não seja engenheiro civil.

    Pensem comigo:

    1- Observem o metro azul na avenida cruzeiro do sul, simples prático, objetivo e com colunas com uma altura normal, sendo a pista feita com vigas pré fabricadas, quase um “LEGO”.

    2- Observem a altura descomunal do Expresso Tiradentes.

    3- Observem a altura descomunal dos dois Aerotrens de SAMPA, creio que as da zona sul são mais altas ainda.

    Será que não é possível fazer no ABC, um metro/trem com as colunas e vigas do metro azul e com centenária iguais as linhas Amarela e Lilás?????

    Será que não é possível fazer esse metro/trem com a tecnologia que utilizaram para fazer as pontes do complexo anhanguera cuja obra foi simplesmente fantástica sendo construída sem interromper o trânsito da marginal do Tietê.

    Bom pra mim, dá para fazer sim e sem muita elucubração mental seja técnica ou econômica; mas como a minha palavra não vale nada, peço encarecidamente que pelo menos alguns dos órgãos sugeridos e outros que eu não mencionei por desconhecimento, se ofereçam como voluntário para resolver esta simples e óbvia questão.

    Lembrando que a tecnologia utilizada para construir o metro azul no trecho da avenida cruzeiro do sul foi de 1976; imaginem com a tecnologia de hoje; com certeza as colunas e as vigas poderiam até ser menores.

    Aproveito também para deixar mais uma sugestão a lá Paulo Gil:

    Se o metro/trem for subterrâneo ao invés do passageiro descer 3 ou 4 lances de escadas rolantes ou não; que tal fazer o metro/trem subir ao nível da rua nas estações?

    Se o metro/trem for aéreo que tal ao invés do passageiro subir 3 ou 4 lances de escadas rolantes ou não; que tal fazer o metro/trem descer ao nível da rua nas estações?

    Só me convenço de que minhas sugestões sejam impossíveis se endossadas por umas 5 instituições de reconhecida capacidade técnica.

    Caso contrário ninguém me tira da cabeça de que estas sugestão são possíveis.

    PODER PÚBLICO, ATUALIZE-SE, MODERNIZE-SE E SAIA DO JURASSISMO.

    Att,

    Paulo Gil

  2. Élio J. B. Camargo disse:

    A “Economia” deveria ser usada para fazer mais BRTs: Nas rodovias Anchieta, Raposo, Anhanguera e outras importantes vias com trânsito travado.

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