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Especialistas reagem após declaração de Crivella sobre VLT do Rio

Foto: Divulgação

Para Willian Aquino, da ANTP/RJ, o VLT faz parte de um investimento de reestruturação da cidade, que tem de ser ampliado para melhorar a qualidade de vida dos cariocas

ALEXANDRE PELEGI

A afirmação do prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, de que o VLT carioca é uma “porcaria”, não foi bem recebida por especialistas do setor de transportes.

Relembre: Para Crivella, VLT do Rio é “porcaria”

O consultor Peter Alouche, um dos maiores especialistas em sistemas de transportes metroferroviários do país, acredita o prefeito do Rio deve estar certamente mal informado.

O VLT inserido no Projeto do PORTO MARAVILHA na Cidade do Rio, é considerado pelos urbanistas, a nível internacional, um projeto de transporte urbano de grande sucesso. A exemplo de muitas cidades da Europa, da América Latina e dos EUA, o VLT provoca uma importante renovação urbana nas regiões degradadas das Cidades. Isto me lembra outro Governador do Rio já falecido, que considerava o Metrô uma obra cara e inútil“, afirmou Alouche.

Para o consultor e diretor da ANTP – Associação Nacional dos Transportes Públicos no Rio de Janeiro, Willian Aquino, o VLT do Rio de Janeiro é um grande avanço na integração do transporte.

Ele liga o aeroporto Santos Dumont, estações do metrô – entre as quais 3 importantes para a mobilidade da cidade –, o Terminal Pedro II, onde estão todos os trens de subúrbio, o Terminal Metropolitano de passageiros; ele passa no Centro da cidade, e além disso tem a importância significativa de retirar da região central uma quantidade muito grande de veículos circulando”, descreve Willian.

O consultor questiona: “o VLT não tem a demanda que deveria ter?”, para na sequência explicar os motivos: “Primeiro, houve uma questão de uso do solo no Porto Maravilha que não aconteceu como se planejava, pela crise econômica que o país vive e que todos nós conhecemos”.

Willian cita que existem ainda muitas linhas de ônibus superpostas “que não deveriam estar circulando sobre o mesmo itinerário, fazendo integração”.

Ele lembra que o VLT “devia ter um bilhete integrado com o transporte metropolitano, como os ônibus municipais têm”.

Willian afirma que o VLT deveria, sim, estar com maior frequência, pois desta forma teria maior facilidade para receber passageiros. “Mas ele não pode ter essa frequência maior justamente porque não tem a demanda, o que nos leva a um círculo vicioso”, diz.

Para o consultor e representante da ANTP o VLT é, sim, uma grande iniciativa, e sua rede deve ser ampliada. “Se a prefeitura tem que colocar contrapartida, e isso é verdade, é porque se trata de um contrato de PPP (parceira público-provada). E a PPP é uma das formas de se administrar, da mesma maneira que outros serviços públicos”.

Escolas, hospitais, esgoto, lembra Willian, são serviços que demandam dinheiro público, assim como o transporte coletivo precisa de recursos do município. “O VLT faz parte de uma abordagem de rede, é o início”, diz.

Hoje a gente diz que o Metrô transporta 850 mil pessoas, mas eu me lembro de que quando o trecho dele era pequeno, eram poucas as pessoas transportadas, a maior parte delas viajava sentada”, diz Willian.

“Mas ninguém pensa ‘naquele’ metrô, a gente pensa no metrô que temos hoje, que precisa transportar muito mais gente. Isso é que é transporte público, a visão tem de ser de taxa de retorno econômico, e não apenas retorno financeiro. Dinheiro é para cobrir despesas financeiras, mas os ganhos econômicos estão na diminuição da poluição, na redução do congestionamento, na reestruturação do espaço urbano, na melhoria da qualidade de vida, como, aliás, o próprio senhor prefeito disse, que pretendia administrar a cidade para o povo. E é dessa maneira que deve ser visto e entendido o VLT, como um meio de transporte voltado para o povo. O senhor prefeito tem dito isso quando se refere ao BRT, e a outros modos de transporte sob controle da prefeitura. O VLT faz parte de um investimento de reestruturação da cidade, que tem de ser ampliado para melhorar a qualidade de vida dos cariocas”.

Willian prefere acreditar que o prefeito se expressou mal, devido ao contexto em que a frase foi dita.

Ouça a declaração de Willian Aquino:

https://diariodotransporte.com.br/wp-content/uploads/2019/03/Willian_Aquino.ogg?_=1

 

Outros especialistas do setor metroferroviário ouvidos pelo Diário do Transporte também fizeram observações sobre a manifestação do prefeito Crivella a respeito do VLT:

“O VLT respeita as mesmas regras e políticas tarifárias dos ônibus no Rio. Ou seja, você pode fazer integração gratuita entre os ônibus municipais e o modal. Não há integração entre metrô-trens-barcas e o VLT por um motivo: não existe integração tarifária entre os modais municipais e estaduais no Rio como um todo. No Rio, estado e município, não existe um bilhete único integrado infelizmente, como existe em São Paulo.

A priorização semafórica no sistema VLT existe sim e funciona muito bem. Tanto que é possível ir do píer Mauá até Santos Dumont em 15 minutos, trajeto que de carro ou ônibus no horário de pico demora mais de meia hora. O que falta algumas vezes é a ajuda dos motoristas, que desrespeitam os sinais vermelhos e fecham os cruzamentos.

É importante a extensão do VLT: seria a mesma coisa que em 1974 falar que o metrô de São Paulo era um elefante branco porque ligava somente Jabaquara à Vila Mariana…

Hoje o VLT sofre de alguns males públicos brasileiros: o primeiro é a interrupção do planejamento público em razão de ideologias partidárias; o segundo é o desrespeito aos contratos e à coisa pública; e o terceiro, a necessidade de uma melhor integração tarifária que precisa ser fomentada pelo poder público, para fazer as pessoas não usarem carro e passarem a usar transporte público“.

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

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