De cada 10 reais investidos em infraestrutura de transporte, apenas 2 reais foram para o transporte coletivo

Investimento em infraestrutura sempre privilegiou transporte individual. (Foto: Alexandre Pelegi)

Dados do SIMOB, banco de dados da ANTP, mostram como a injusta divisão do espaço viário no país tem um efeito nocivo na vida de quem usa transporte coletivo

ALEXANDRE PELEGI

Quem anda de automóvel consome 63% do total da energia dispendida na mobilidade urbana, mesmo este modo de transporte sendo responsável por apenas 25% do total de viagens.

Esta é mais uma informação do Sistema de Mobilidade Urbana (SIMOB) da ANTP – Associação Nacional de Transportes Públicos, que coletou dados de cidades com mais de 60 mil habitantes que, juntas, somam 133 milhões de moradores, cerca de 2/3 da população brasileira.

No total as pessoas consomem, por ano, cerca de 11,4 milhões de TEP (toneladas equivalentes de petróleo) nos seus deslocamentos. A TEP é a unidade comum na qual se convertem as unidades de medida das diferentes formas de energia utilizadas no Balanço Energético Nacional.

Quando se trata de poluentes, o SIMOB utiliza a definição da Cetesb/SP, e calcula a emissão de CO (monóxido de carbono), HC (hidrocarbonetos), NOx (óxidos de nitrogênio), MP (material particulado) e SOx (óxidos de enxofre).

No caso dos gases do efeito estufa (GEE), considera-se o CO2eq (CO2, CH4 e N2O).

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Fonte: SIMOB – ANTP

Os poluentes locais emitidos pelos veículos nas cidades em seus deslocamentos somam 161 mil toneladas por ano. A maior parte (58%) é emitida pelos ônibus, seguida pelos automóveis (31%).

Quando se trata somente de gases do efeito estufa (CO2eq), os automóveis surgem como os maiores responsáveis pelas emissões: 31,6 milhões de toneladas de poluentes por ano. A maior parte (67%) é emitida pelos automóveis, seguida pelos ônibus (29%).

A questão da poluição dos ônibus é conhecida, e explicada pela quantidade de viagens que fazem. O desafio está justamente em avançar em tecnologias limpas, o que já vem sendo feito com razoável sucesso pelas principais empresas fabricantes do setor.

Ao lado da tecnologia, a legislação também tem apontado para um transporte futuro mais limpo, como a Lei de Mudanças Climáticas de São Paulo.

Mas o que os dados do SIMOB indicam é a forma como o espaço do viário público vem sendo usado, e quais os efeitos que este uso acarreta para a sociedade.

Um indicador claro disso é o investimento público em infraestrutura de transporte, conforme se observa no gráfico abaixo. Como se pode verificar, os modos individuais de transporte abocanharam quase 80% do total do investimento.

Na estimativa do patrimônio envolvido na mobilidade urbana o SIMOB considera os custos dos veículos e da infraestrutura viária e metroferroviária. Para obter o total dos valores, foram considerados custos de equipamentos novos, que representam o quanto a sociedade precisaria gastar se fosse organizar agora o sistema de mobilidade que está operando hoje.

Ou seja, de cada R$ 10 investidos em infraestrutura de transporte, 2 reais foram para o transporte coletivo, e 8 reais para o transporte individual.

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O consultor da ANTP e responsável pela montagem do banco de dados, o engenheiro e sociólogo Eduardo Vasconcellos, lembra que o sistema viário que permite a circulação das pessoas – seja de ônibus, ou por outros modos individuais de transporte, como carros, motos e bicicletas –, além de custar caro para a sociedade, tem duas características centrais:  ele é fixo, difícil de ser alterado, uma estrutura complexa; e tem um limite de capacidade, o que significa dizer que em algumas situações atinge uma situação de escassez.

O congestionamento é um indicador dessa escassez, quando fica evidente que há mais pessoas querendo circular do que o sistema viário comporta.

Eduardo afirma que do ponto de vista físico nenhuma metrópole do mundo conseguiu acomodar todos os automóveis que possui dentro de seu sistema viário. Ele dá um exemplo dessa impossibilidade espacial:

A cidade de São Paulo tem entre 4,5 e 5 milhões de automóveis, uma das maiores frotas do mundo. No pico da tarde, apenas 600 mil desses veículos estão circulando simultaneamente nas ruas, uma quantidade suficiente para provocar gigantescos congestionamentos, que reduzem a velocidade dos ônibus, aumentam os custos operacionais do transporte coletivo, alongam o tempo de viagem das pessoas que moram na periferia”.

A conclusão de Eduardo é simples, apesar de infelizmente não ser clara para os decisores e formuladores de políticas públicas: como o sistema viário é um bem público limitado, escasso e caro, deveria haver uma discussão aberta sobre como deve ser o seu uso pela sociedade.

Uma das consequências da divisão desequilibrada do sistema viário pode ser observada diretamente no impacto que isso causa no preço da tarifa. Eduardo afirma que o excesso de automóveis nas ruas aumenta o custo operacional dos ônibus em 25%, ou seja, os mais pobres são diretamente penalizados economicamente para que os usuários de automóveis possam circular num espaço que é comum.

No caso europeu, onde os países conseguiram diminuir a desigualdade social, muitas cidades resolveram a questão da escassez do espaço público cobrando caro o uso do sistema viário. O Brasil, país onde a desigualdade social é muito alta, até hoje não discutiu seriamente esta questão.

Para o consultor da ANTP, o Brasil aceita como pacífico o conceito de que o espaço viário é de livre uso para quem quiser. “O máximo que fizemos foi restringir, por meio da cobrança, o estacionamento em algumas áreas da região central das cidades”, diz Eduardo.

Para quantificar a extensão do desequilíbrio no uso do viário, Eduardo cita que mais de um milhão de estacionamentos gratuitos são feitos diariamente nas ruas da cidade. Isso, ele calcula, implica em um subsídio oculto para os proprietários de automóveis de mais de R$ 5 bilhões por ano apenas na cidade de São Paulo.

Essa situação é generalizada não só em todo o país, como em todas as nações em desenvolvimento. No caso da Europa, no entanto, ele conta que é totalmente diferente. Lá, o governo expõe ao cidadão que ele deve pagar os custos reais pelo uso do carro, não só para garantir uma melhor distribuição do sistema viário, como ainda para evitar efeitos colaterais graves, como a emissão de poluentes nocivos à saúde pública.

No Brasil, andar de carro continua muito barato, o que infelizmente implica tornar o ônibus mais caro, mais demorado, menos previsível e, portanto, menos atraente para as pessoas.

Transformando em valores, fica mais claro entender essa diferença: no Brasil, fazer uma viagem de carro de 7 km custa quase o mesmo valor para o automóvel do que o valor pago em uma tarifa de ônibus.

Nas grandes cidades europeias usar o carro é 5 a 7 vezes mais caro do que pagar o transporte coletivo.

Numa entrevista com Eduardo Vasconcellos, responsável pela montagem do banco SIMOB, ele falou sobre os assuntos abordados acima. Assista a essa parte da conversa:

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

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