EXCLUSIVO: Trólebus livraram São Paulo de 14,3 mil toneladas de gás carbônico somente entre janeiro e outubro

Veículos também pouparam o ar de materiais particulados e óxidos de nitrogênio. Foto: Adamo Bazani (Diário do Transporte)/Clique para Ampliar a imagem

Dados são da SPTrans e foram obtidos com exclusividade pela reportagem do Diário do Transporte por meio da Lei de Acesso à Informação

ADAMO BAZANI

A operação dos 200 trólebus na cidade de São Paulo poupou o ar de 14,34 mil toneladas de dióxido de carbono somente entre janeiro e outubro deste ano. Em todo o ano de 2017, se em vez de trólebus houvesse ônibus a óleo diesel operando na mesma linha, seriam lançados no ar, 17,2 mil toneladas do poluente considerado um dos principais responsáveis pelo chamado efeito-estufa, com o aquecimento global, e por problemas de saúde, em especial respiratórios, como asma, bronquite, e o agravamento de diversos tipos de doenças, principalmente em crianças e idosos.

Os dados são oficiais da SPTrans -São Paulo Transporte, gerenciadora dos ônibus da cidade, e foram obtidos pela reportagem do Diário do Transporte, com exclusividade, por meio da Lei de Acesso à Informação.

Os ônibus elétricos conectados à rede aérea de fios também ajudaram a reduzir as emissões de outros tipos de poluentes.

Neste ano, entre janeiro e outubro, os 200 trólebus pouparam os paulistanos de 38 toneladas de NOx – Óxidos de Nitrogênio entre janeiro e outubro, ainda segundo a SPTrans. Em todo o ano de 2017, deixaram de ser emitidas no ar, 46 toneladas de NOx.

Os Óxidos de Nitrogênio são gases nocivos para o sistema respiratório, emitidos em maior quantidade pelos motores a diesel do que pelos a gasolina.

O poluente é relacionado a problemas respiratórios, cardíacos e a alguns tipos de câncer.

Em relação aos MP – Materiais Particulados, a operação dos 200 trólebus de janeiro a outubro foi responsável por livrar a atmosfera de 390 quilos. Em todo o ano passado, deixaram de ser emitidos por causa da operação destes veículos, 470 quilos.

A Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA), diz que material particulado é uma mistura de partículas de diversas origens que podem ser em torno de cinco vezes mais finas que um fio de cabelo. Essas partículas podem ser formadas por compostos químicos orgânicos, ácidos, como sulfatos e nitratos, metais, e até poeira.

A agência classificou materiais particulados em duas categorias: MP 2,5, com partículas de até 2,5 micrômetros. Já o tipo MP10 tem partículas de tamanho entre 2,5 e 10 micrômetros.

A queima de combustível dos automóveis está entre as fontes dos particulados, que podem provocar a morte prematura de pessoas com doenças no coração, ataques cardíacos e arritmia, inclusive em indivíduos saudáveis, mesmo que em menor escala. Problemas respiratórios e até neurológicos também estão relacionados aos materiais particulados.

O especialista em transporte sustentável e colaborador do International Council on Clean Transportation – ICCT (Conselho Internacional de Transporte Limpo), Olímpio Álvares, destacou ao Diário do Transporte, outra vantagem dos ônibus movidos por eletricidade, como os trólebus: a redução da poluição sonora.

“Um dos maiores benefícios ambientais dos ônibus elétricos é o silêncio dos veículos, cujo ruído dificilmente é percebido por onde passam, ao contrário dos ônibus a diesel, uma das maiores fontes da poluição sonora urbana e causa de muito incômodo e reclamação por parte da população. Além disso, o conforto que os ônibus elétricos oferecem aos passageiros é incomparável aos ônibus a diesel, pois há muito menos solavancos e vibração” – disse o especialista.

Os 200 trólebus que operam uma rede de 168 km na cidade são de responsabilidade da Ambiental Transportes, da área 04-Leste Vermelha, do subsistema estrutural. Os veículos fazem a ligação entre parte da zona Leste e a região central.

No passado, entretanto, a rede foi maior.

A cidade de São Paulo foi uma das que mais tiveram trólebus no mundo. Era a de número 22 no ranking de quantidade de veículos e extensão das redes. No ano 2000, chegou a ter 474 ônibus elétricos. A estimativa é de que hoje existam em tono de 44 sistemas de trólebus no mundo, com pouco mais de 35 mil veículos.
Quando as redes de Santo Amaro, Pinheiros, Butantã e da zona Norte foram desativadas, o número destes veículos caiu para 200, fazendo com que a cidade de São Paulo caísse da 22ª posição para 58ª. A desativação começou a ocorrer em 2003, na gestão da então prefeita Marta Suplicy.
As constantes quedas das alavancas dos trólebus e o “impacto visual” dos fios foram colocados como argumentos, além dos custos.
Mas operando em corredores ou em vias com boas condições, o problema da queda das alavancas é minimizado, segundo os fabricantes dos equipamentos. Tecnologias atuais como alavancas pneumáticas e novos sistemas de suspensão dos chassis que diminuem o efeito das oscilações do pavimento, além de hastes flexíveis que sustentam os fios da rede e acompanham a trepidação do ônibus, diminuem os riscos de quedas.

A licitação dos transportes da cidade de São Paulo prevê a inclusão de mais 50 trólebus, mas sem o aumento da rede, apenas com o aproveitamento da estrutura existente.

Para cumprir as metas de redução de poluição, as empresas operadoras devem apostar em outros modelos de ônibus, mas há dúvidas tecnológicas e quanto aos custos.

As alternativas principais no mercado hoje e em estudo são:

– Ônibus 100% elétricos com baterias: fabricados no Brasil pela BYD (Campinas/SP) e Eletra (São Bernardo do Campo/SP).

– Ônibus híbridos (um motor elétrico e outro a combustão): fabricados no Brasil pela Eletra (São Bernardo do Campo/SP) e Volvo (Curitiba/PR).

– Ônibus Dual – o mesmo veículo reúne duas tecnologias diferentes, como trólebus e híbrido e elétrico puro e híbrido, mas com a mesma tração elétrica: fabricados no Brasil pela Eletra (São Bernardo do Campo/SP).

– Ônibus a gás natural e Biometano (gás obtido pela decomposição do lixo e em esgoto): fabricados no Brasil pela Scania (São Bernardo do Campo/SP).

– Ônibus a etanol: podem ser fabricados no Brasil pela Scania (São Bernardo do Campo/SP), embora experiências recentes desagradaram empresas de ônibus da capital paulista.

– HVO – Hydrotreated Vegetabel Oil, ou óleo vegetal hidrotratado, chamado também comumente de biodiesel hidrogenado: não há experiências no Brasil, mas é uma das apostas da Mercedes-Benz (São Bernardo do Campo/SP). Não é necessário mudar os motores dos ônibus atuais.

– Euro 6: As exigências mais rigorosas para que os motores a diesel poluam menos, com base nas normas internacionais Euro 6, já em vigor nos EUA, Europa e no Chile, só devem entrar em vigor no Brasil a partir de 2023. O atual padrão é o Proconve P7, com base nas normas internacionais Euro 5.

– Ônibus a Hidrogênio: A EMTU – Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos, gerenciadora das linhas da Grande São Paulo, juntamente com a operadora Metra chegou a testar quatro veículos no Corredor ABD, na região do ABC Paulista. Mas desde 2016, os quatro ônibus estão parados na garagem. Não há um consenso sobre os custos de operação e produção das células de combustíveis.

TRÓLEBUS NO MUNDO

Iveco Crealis, no IAA 2018, feira mundial de veículos comerciais em Hannover, na Alemanha. Veículo foi eleito “Ônibus Sustentável de 2018” – Foto: Divulgação Iveco

Atualmente são três sistemas brasileiros apenas, o da capital paulista (operado pela empresa Ambiental Transportes entre parte da zona Leste e a região central), o do Corredor ABD (operado pela empresa Metra, com aproximadamente 80 unidades entre as zonas Leste e Sul da cidade de São Paulo e o ABC Paulista) e Santos (com seis unidades na frota, em apenas uma linha, operada pela Viação Piracicabana, mas os veículos pertencem à prefeitura).

São Paulo deveria ter uma das maiores frotas do mundo ainda hoje. Em 1978, o projeto Sistran, organizado pelo engenheiro Adriano Branco, na gestão do prefeito Olavo Setubal, previa ampliação da rede e mais de 1200 veículos.

O vice-presidente do “Movimento Respira São Paulo”, Norberto Pollak, uma entidade em defesa do meio ambiente e da mobilidade limpa, disse ao Diário do Transporte, durante carreata do Dia da Mobilidade Elétrica, em setembro, que no mundo há diversos sistemas de trólebus e bondes que estão sendo modernizados por causa da viabilidade econômica e confiabilidade tecnológica, mesmo com a necessidade da infraestrutura de rede aérea.

“Estive no começo do ano em Seattle, nos Estados Unidos, e em Vancouver, no Canadá, e o trólebus são todos eles de alimentação dupla, ou seja, de bateria lítio e carregam na rede. O motorista recebe por sinal de rádio quando deve abaixar e levantar a alavanca, o que acontece apenas com um toque no painel, não é mais preciso sair do trólebus e puxar lá na parte de trás. Quando você anda nas ruas de Seattle e também de Vancouver, você vê um balé de alavancas subindo e descendo. Isso dá flexibilidade ao trólebus, que evoluiu muito mais que a essência do ônibus ciclo diesel, que é basicamente o mesmo conceito há 40 anos. Várias cidades europeias estão voltando ao trólebus e ao bonde, não o VLT, o veículo leve sobre trilhos, mas ao bonde mesmo, com menos segregação no espaço urbano, mas modernizado.” – disse.

O Movimento quer que no ano que vem, quando o trólebus completa no Brasil 70 anos, haja um evento especial na cidade de São Paulo, que recebeu o primeiro sistema no País. O grupo também pede um novo local para abrigar um museu do transporte público na cidade.
Relembre:

https://diariodotransporte.com.br/2018/09/26/grupo-quer-novo-local-para-museu-do-transporte-em-sao-paulo-e-homenagem-aos-70-anos-do-trolebus/

PRIMEIRA LINHA DO BRASIL:

Trólebus Norte Americano PULLMAN STANDARD na Aclimação em 1949. – Acervo: Movimento Respira São Paulo – Reportagem: Adamo Bazani

A primeira linha do País começou a circular em São Paulo, em 22 de abril de 1949, com trólebus norte-americanos, entre a Aclimação / Praça João Mendes, num trajeto de 7,2 km

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

1 comentário em EXCLUSIVO: Trólebus livraram São Paulo de 14,3 mil toneladas de gás carbônico somente entre janeiro e outubro

  1. Sandro R dos Santos // 28 de novembro de 2018 às 10:07 // Responder

    Bom dia,

    Sobre esta condição, não sei porque Campinas não aderiu a idéia de trolébus, ok, que estão fazendo o BRT, mas futuramente, porque não criarem opções de Trolébus em Campinas, ao invés de VLT e metrô como sempre ouvi falar.

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