Presidente da UITP na América Latina defende que setores de ônibus de fretamento e rodoviários entrem de fato na era dos aplicativos

Ônibus de fretamento na zona Sul de São Paulo. – Foto: Adamo Bazani (Clique para ampliar)

Os fenômenos que já desbancaram os táxis tradicionais inevitavelmente vão ocorrer com o transporte coletivo, diz Jurandir Fernandes

ADAMO BAZANI

“Os sistemas de fretamento e os rodoviários serão os próximos a ser absorvidos por aplicativos. Resta a estes setores optarem por desenvolver uma plataforma própria ou passar a prestar serviços a um novo player como aconteceu com os táxis frente à “uberização” ocorrida sobre eles.”

A opinião é do presidente da Divisão América Latina da UITP – Associação Internacional de Transporte Público, e ex-secretário de transportes metropolitanos do Estado de São Paulo, Jurandir Fernandes, que defende que os setores de ônibus rodoviários de linhas regulares e de fretamento entrem definitivamente para a era dos aplicativos, que devem ser muito mais que ferramentas de venda das mesmas passagens que podem ser compradas pela internet ou nos guichês.

A oferta, segundo o especialista, tem de ser sobre a demanda, sobre a necessidade de grupos de passageiros. É a oferta do serviço.

Há pouco mais de um ano, ganhou destaque no noticiário dos transportes o aplicativo Buser, uma ferramenta que proporciona viagens para pessoas que não fazem parte de um mesmo grupo em ônibus fretados que, em geral, percorrem os mesmos trajetos das linhas regulares.

O aplicativo vive às voltas de decisões judiciais, ora desfavoráveis, ora que permitem sua atuação.

As posições são bem antagônicas. De um lado, o Buser se defende dizendo que é uma atividade legal, que só une as pessoas à necessidade de deslocamentos em ônibus regularmente fretados e que grupos também podem se organizar para definir destinos.

De outro lado, as empresas de ônibus dizem que plataformas como a Buser travam uma concorrência desleal, já que as passagens mais em conta do aplicativo são possíveis porque o serviço não tem os mesmos encargos das linhas regulares, como as gratuidades, cumprimento de partidas mesmo com poucos passageiros e pagamentos de taxas, como de embarque nas rodoviárias.

A discussão, entretanto, não se limitar a determinar se atividades como a da Buser são legais ou não.

Em um artigo técnico, enviado ao Diário do Transporte pela Fresp, que é a federação que representa as empresas de ônibus de fretamento do estado de São Paulo, Jurandir Fernandes defende que o setor deve pleitear a modernização das leis.

“Em vez de ficar na retranca achando que o juiz vai apitar o final do jogo e que tudo continuará na mesma, é melhor partir para o ataque. A começar pela modernização da legislação vigente. Que seja adaptada aos novos tempos. É impossível parar a roda da história através de leis arcaicas. É impossível proibir a 200 milhões de brasileiros o uso do Netflix, do Spotify, do AirBnb, da Amazon e de não se comunicarem mais pelo WhatsApp ou Facebook. Não há mais locadoras de vídeos, são raros os que compram CDs musicais, as pessoas alugam quartos e apartamentos em todo o mundo, as livrarias estão definhando. O mundo dos negócios está se digitalizando e há quem pense que tudo não passa de modismo. Incrível!” – enfatiza.

E neste processo, defende o especialista, as empresas de ônibus, de linhas regulares ou de fretamento, devem ter a sensibilidade de entenderem o que o passageiro quer, como fizeram os aplicativos de carros e de ônibus urbanos.

“O importante é começar e se aperfeiçoar com a participação dos seus usuários como faz o CittaMobi, o 99, o Cabify, o Uber, o Blablabla e tantos outros. É o modo Start-Up de inovar e de criar novos produtos e serviços que já está sendo adotado até pelos dinossauros do século XX: GE, Ford, IBM e tantos outros. Não fiquem dois ou três anos desenvolvendo o melhor dos aplicativos. Busquem a inovação e junto com os passageiros vá aprimorando a cada dia a sua proposta. Eles mostrarão o que é preciso melhorar, implementar, criar ou desenvolver.”

Confira o artigo na íntegra:

A Mobilidade e as Plataformas Digitais

Por Jurandir Fernandes*

A mobilidade oferecida como um serviço integrado através de plataformas digitais e de aplicativos reforçará o papel social do transporte público. Cada vez mais as pessoas querem o serviço e não o equipamento. Querem a viagem e não o carro. No dia a dia, ao ir para o trabalho ou para a escola, cada vez mais preferem o transporte público, seja o individual (táxis, aplicativos) ou o coletivo: ônibus, metrô ou trem. Até mesmo para o lazer o comportamento das pessoas está mudando. Um ônibus com ar condicionado, wifi e toillete a bordo é mais econômico, confortável e seguro que um carro. Posso dormir, ler e até admirar a paisagem. Tudo impossível de se fazer ao dirigir.

As inovações em andamento, bem como sua importância num mundo em crescente urbanização, colocaram os transportes na agenda dos governantes, do público em geral, da indústria e do setor de serviços.  Neste cenário, os atores do setor (ônibus rodoviários e urbanos, fretados ou concessionários) precisam demonstrar que estão cientes de sua importância social e econômica e, principalmente, devem demonstrar que são capazes de se adaptarem aos novos tempos. O setor deve liderar este processo de inovação e não tentar impedi-lo!

A população, de posse de mais de duzentos milhões de telefones inteligentes, certamente irá em busca de um transporte também inteligente. É óbvio! Os sistemas de fretamento e os rodoviários serão os próximos a serem absorvidos por aplicativos. Resta a estes setores optarem por desenvolver uma plataforma própria ou passar a prestar serviços a um novo player como aconteceu com os táxis frente à “uberização” ocorrida sobre eles.

Em vez de ficar na retranca achando que o juiz vai apitar o final do jogo e que tudo continuará na mesma, é melhor partir para o ataque. A começar pela modernização da legislação vigente. Que seja adaptada aos novos tempos. É impossível parar a roda da história através de leis arcaicas. É impossível proibir a 200 milhões de brasileiros o uso do Netflix, do Spotify, do AirBnb, da Amazon e de não se comunicarem mais pelo WhatsApp ou Facebook. Não há mais locadoras de vídeos, são raros os que compram CDs musicais, as pessoas alugam quartos e apartamentos em todo o mundo, as livrarias estão definhando. O mundo dos negócios está se digitalizando e há quem pense que tudo não passa de modismo. Incrível!

O importante é começar e se aperfeiçoar com a participação dos seus usuários como faz o CittaMobi, o 99, o Cabify, o Uber, o Blablabla e tantos outros. É o modo Start-Up de inovar e de criar novos produtos e serviços que já está sendo adotado até pelos dinossauros do século XX: GE, Ford, IBM e tantos outros. Não fiquem dois ou três anos desenvolvendo o melhor dos aplicativos. Busquem a inovação e junto com os passageiros vá aprimorando a cada dia a sua proposta. Eles mostrarão o que é preciso melhorar, implementar, criar ou desenvolver.

*Jurandir Fernandes é Presidente da Divisão América Latina da UITP. Engenheiro pelo ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica), mestre e doutor em engenharia elétrica pela Unicamp, foi Secretário dos Transportes de Campinas (SP), diretor de planejamento da Dersa, diretor do Denatran (Departamento Nacional de Trânsito), Secretário Estadual de Transportes Metropolitanos (SP), presidente da ANTP (Associação Nacional de Transportes Públicos). Jurandir escreveu este artigo a pedido da Fresp (Federação das Empresas de Transportes de Passageiros por Fretamento do Estado de São Paulo). 

 

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

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