OPINIÃO: A Megalicitação de ônibus de São Paulo e seu principal usuário, o pedestre

Foto: Adamo Bazani

MELI MALATESTA

Nesta quinta-feira, dia 24 de outubro, foi noticiado que o TCM – Tribunal de Contas do Município de São Paulo – liberou a licitação de ônibus lançada pela Prefeitura do Município de São Paulo, através da Secretaria de Mobilidade e Transportes.  Esta licitação, orçada em 68 bilhões[1] de reais, traz como principal novidade a chamada racionalização e otimização da atual rede de ônibus, responsável por atender hoje em dia 9 milhões de pessoas.

Quando se fala em racionalização e otimização da rede de ônibus se fala também em aumentar em torno de 4%[2] o número de baldeações ao longo das viagens porque a ideia é concentrar os ônibus maiores de longo alcance nos corredores alimentados por itinerários complementares realizados por veículos menores.  Com isso a previsão é de promover maior eficiência, reduzindo a quantidade de veículos (7%), e aumento da velocidade média e do número de lugares disponíveis (10%).

Entretanto não se falou até o momento se esta super revolução na forma mais utilizada para as pessoas se transportarem na nossa cidade vai também contemplar a preparação dos espaços públicos que acolherão o previsto aumento das baldeações.  Causa apreensão a constatação das dificuldades enfrentadas pelos pedestres antes ou logo depois de se tornarem passageiros:

·       plataformas com largura insuficiente para acomodar com um mínimo de conforto e segurança pessoas que aguardam seu ônibus tentando conviver na busca por espaço com as pessoas que embarcam e desembarcam dos veículos.  Essas manobras de sobrevivência se tornam ainda mais complicadas quando são protagonizadas por pessoas com deficiência, cada vez mais comuns em nossos ônibus, já que finalmente está sendo cumprida a determinação por veículos acessíveis;

·       travessias dos pedestres semaforizadas sendo realizadas em duas etapas nas vias com canteiros centrais que, por imporem ao pedestre longo tempo de espera, ocasionam a formação de expressivos pelotões de pessoas aguardando para atravessarem.  Os transbordos certamente aumentarão a quantidade de gente nas travessias e se não fizer parte do “pacote” a adoção de uma política de programação semafórica que otimize travessias de pedestres, poderá ser esperada situação de insegurança e aumento de atropelamentos;

·       colabora também para isso a área das calçadas que será disponível para acomodar a espera do futuro passageiro que ainda é pedestre para fazer a travessia ou simplesmente fazer parte da conexão entre duas paradas ou pontos de conexão.

Assim, se esta megalicitação responsável pela megarrevolução na forma de se usar ônibus na cidade não contemplar a infraestrutura urbana que acomoda a rede de mobilidade a pé que, por sua vez, alimenta qualquer rede de ônibus, é de se prever a triste perspectiva de aumento dos atropelamentos de potenciais passageiros.  E isto só não ocorrerá se houver tratamento adequado de calçadas, travessias, áreas de espera para travessias e os locais de embarque e desembarque.

De nada adiantará os milhões envolvidos na implementação de um novo sistema de itinerários racionalizados controlados por tecnologia de ponta se houver o acréscimo de deseconomias geradas pelos básicos atropelamentos de seus usuários.

Meli Malatesta (Maria Ermelina Brosch Malatesta) – Arquiteta pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, mestrado em Transporte a Pé na FAUUSP e doutorado em Transporte Cicloviário pela FAUUSP; presidente da Comissão Técnica Mobilidade a Pé e Mobilidade da ANTP. Escreve também para o Blog “Pé de Igualdade”, do site Mobilize.

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