Delator diz a Bretas que empresas de ônibus no Rio pagavam propinas desde os anos 90 e que valores podem chegar a R$ 1 bilhão

Dinheiro de propina saía de catracas de ônibus, mas deputados não queriam trocado, dizem depoimentos. Foto: Junior Oliveira (Ônibus Brasil)/Clique na imagem para ampliar – Meramente ilustrativa.

Doleiro contou que fez pagamentos para deputados do MDB em nome da Federação das Empresas de Transporte de Passageiros do Estado do Rio de Janeiro (Fetranspor) e da construtora Odebrecht

ADAMO BAZANI

As empresas de ônibus do Estado do Rio de Janeiro pagaram propinas a agentes públicos e políticos desde os anos 1990, em especial para deputados da assembleia legislativa, e os valores somaram algo em torno de R$ 1 bilhão até metade dos anos da década de 2010.

A informação é do doleiro Álvaro Novis em depoimento realizado nesta quinta-feira, 23 de agosto de 2018, ao juiz da 7ª Vara Federal do Rio de Janeiro, Marcelo Bretas, responsável pela Operação Lava Jato e seus desdobramentos no Estado.

Novis é colaborador da justiça após um acordo fechado pelo Ministério Público Federal.

Entre os beneficiados pelos pagamentos ilícitos feitos com dinheiro oriundo das empresas de ônibus, segundo o doleiro, estão os deputados Paulo Melo e Jorge Picciani.

Álvaro Novis, que depôs como testemunha, segundo a Agência Brasil, disse que realizou pagamentos ilícitos destinados a deputados do MDB em nome da Federação das Empresas de Transporte de Passageiros do Estado do Rio de Janeiro (Fetranspor) e da construtora Odebrecht.

Em algumas ocasiões, ainda segundo o doleiro, os deputados recebiam propinas mais de uma vez por mês.

Segundo o depoimento do doleiro Álvaro Novis, colaborador, o dinheiro vivo saía das garagens e era distribuído por empresas transportadoras de valores. A ordem era trocar as notas mais baixas usadas pelos passageiros por cédulas de maior valor exigidas pelos deputados.

Todo este sistema de coleta e distribuição da propina, segundo o doleiro em depoimento a Marcelo Bretas, era coordenado pelo empresário de ônibus e ex-presidente do conselho de administração da Fetranspor, José Carlos Lavouras.

A corretora Hoya, de Álvaro Novis, disponibilizava os pagamentos, de acordo com o depoimento.

O doleiro disse não saber o motivo exato dos pagamentos de propinas, mas enfatizou, segundo a Agência Brasil: “Se o motivo (dos pagamentos) fosse legal, não precisariam de mim”, disse .

Ainda de acordo com Novis, pelo esquema da Fetranspor era possível identificar os pagamentos feitos aos parlamentares. Senhas e codinomes eram usados para evitar o vazamento dos nomes dos deputados da Alerj- Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro.

Também nesta quinta-feira, prestou depoimento ao juiz Marcelo Bretas, o ex-funcionário da corretora de Novis, que é réu e colaborador no processo, Edimar Dantas, que detalhou as informações prestadas pelo doleiro.

Segundo Edimar Dantas, os deputados cobravam os valores. De acordo com o depoimento de Dantas, o deputado Paulo Melo, do MDB, chegou a solicitar mais de R$ 1 milhão em um único mês. Altos valores assim eram parcelados.

Todos os pagamentos, ainda de acordo com Dantas, eram solicitados em dinheiro vivo pelos parlamentares e foi estabelecido um limite de R$ 500 mil por “questões de segurança”.

Edimar Dantas disse que a Fetranspor e a Odebrecht deixavam o dinheiro à disposição dos parlamentares do Rio de Janeiro e que os pagamentos eram feitos de acordo com as solicitações que chegavam. Não havia pagamentos todos os meses.

OUTROS LADOS:

Em nota à Agência Brasil, a Fetranspor disse que os fatos ocorreram antes da atual administração da entidade.

“A Fetranspor desconhece o teor de uma delação que refere-se a fatos supostamente ocorridos antes da posse do novo corpo administrativo. A Federação permanece à disposição das autoridades para prestar os esclarecimentos necessários às investigações”

A defesa do deputado Paulo Melo disse que “se trata de uma mentira de um delator sem qualquer prova de corroboração” – a respeito do depoimento de Novis.

Já a defesa de Jorge Picciani diz que só se manifesta nos “autos”.

Ambos deputados foram presos na operação Cadeia Velha, que apura o pagamento de propinas a parlamentares para que defendessem interesses de grupos empresariais, como de grandes donos de empresas de ônibus.

Empresários como Jacob Barata Filho, José Carlos Lavouras e Marcelo Traça Gonçalves.

Todos estes empresários foram presos, mas depois foram beneficiados por decisões do ministro do STF – Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, por mais de uma vez.

No dia 15 de agosto, na condição de colaborador, Traça disse ao juiz Federal Marcelo Bretas, que entre 2013 e 2016, os empresários de ônibus do Rio de Janeiro pagaram em torno de R$ 250 milhões de propinas para políticos e agentes públicos para terem as fiscalizações relaxadas e barrarem projetos na Assembleia Legislativa que pudessem criar mais exigências e prejudicar as viações.

Marcelo Traça Gonçalves foi preso em julho do ano passado, durante a Operação Ponto Final, quando também foram presos o então presidente da Fetranspor, que reúne as empresas de ônibus, Marcos Lélis Teixeira, e o maior empresário de ônibus do Rio de Janeiro, Jacob Barata Filho. Todos estão livres graças a decisões seguidas do ministro do STF – Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes.

Marcelo Traça Gonçalves pertence à segunda geração de proprietários da Rio Ita Ltda, que é uma das maiores empresas de ônibus urbanos e metropolitanos do Estado do Rio. Traça se tornou colaborador da Justiça e, segundo bastidores do setor, suas informações assustam outros empresários de ônibus.

No depoimento, Traça disse que os empresários pagavam grandes recursos “por fora” para agentes públicos para que fosse combatido com mais rigor o transporte clandestino feito por meio de vans na capital e cidades da região metropolitana.

O empresário foi além no depoimento e disse que mesmo com a Operação Lava-Jato em curso, o esquema não tinha se intimidado e o “propinoduto” das empresas de ônibus continuava firme.

Os pagamentos só acabaram após a Lava Jato, por meio da Operação Ponto Final, mirar o sistema de transportes.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

1 comentário em Delator diz a Bretas que empresas de ônibus no Rio pagavam propinas desde os anos 90 e que valores podem chegar a R$ 1 bilhão

  1. CLaudia Silva e Silva // 4 de setembro de 2018 às 07:20 // Responder

    tem sobra desse dinheiro com o delator ? Cadê o dinheiro supostamente recolhido , e em posse do doleiro Novis? Sumiu? Coincidência zerar a contabilidade no caixa desse tal doleiro !

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