Diretor Regional do PNUMA diz que situação ambiental na América Latina vai piorar de forma drástica por causa do aumento da frota de automóveis movidos a gasolina
ALEXANDRE PELEGI
A situação ambiental na América Latina vai piorar nos próximos anos devido ao aumento da frota de veículos convencionais. A afirmação foi feita por Leo Heileman, Diretor Regional do Programa da ONU para o Meio Ambiente (PNUMA) na América Latina e Caribe.
Heileman, no entanto, afirmou que tal situação só não ocorrerá caso os governos da região aumentem sua aposta nos veículos elétricos.
Em entrevista à Agence France-Presse (AFP) o diretor da ONU afirmou que as cidades da América Latina e Caribe estão sofrendo uma poluição atmosférica muito forte, concluindo que este problema “vai se intensificar de forma drástica“.
A declaração do dirigente vem na sequência de um alerta feito nesta semana pela ONU de que a frota de veículos nas cidades da América Latina e Caribe está se expandindo mais rápido que em qualquer outra zona do mundo, e poderá triplicar nos próximos 25 anos. Tal situação, segundo o dirigente, poderá redundar “num colapso das infraestruturas” e em um “aumento proporcional de emissões poluentes“.
O acordo de Paris sobre as mudanças climáticas, orquestrado para limitar o aumento da temperatura do planeta, corre sério risco nesse quadro. “Se não fizermos políticas para a mobilidade elétrica, vai ser mais difícil atingir essas metas“, indicou Heileman.
O diretor do PNUMA afirmou que a forma de evitar este dramático cenário é apostar no transporte elétrico, tanto público como privado.
A matéria da AFP cita estudos que apontam que se a frota atual de ônibus e táxis de 22 cidades latino-americanas fosse substituída imediatamente por veículos elétricos, o resultado seria uma economia de quase 64 bilhões de dólares em combustível até 2030.
Mais que economizar dinheiro, a mudança na tecnologia veicular reduziria poluentes, 300 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente, o que evitaria a morte prematura de 36.500 pessoas.
Heileman reforçou a importância do transporte elétrico em massa. “Isso é essencial para reduzir o problema. O outro ponto é ajustar a forma em que podemos trabalhar à distância para reduzir a demanda de transporte“, citando o teletrabalho como outra maneira de reduzir os deslocamentos nas cidades.
Enquanto isso, no mundo todo, já circulam 3 milhões de automóveis elétricos de passageiros, o dobro do que havia em 2016. Até 2040 se espera que 55% dos novos veículos vendidos sejam movidos a eletricidade.
EXEMPLOS
O diretor do PNUMA citou alguns exemplos de aposta em projetos de eletromobilidade em países latinos:
Medellín (Colômbia) – prepara a implementação de 1.500 táxis elétricos para 2020,
Chile – trabalha para inserir na rede de transportes mais de 2.000 ônibus elétricos em 2025.
Uruguai – construiu estações de recarga elétrica em 300 km de suas principais estradas turísticas, a primeira rota regional dessa classe, e exonerou os veículos elétricos de uso comercial de taxas de importação.
Argentina – baixou as tarifas para os carros elétricos de 35% para 2%.
México, duas empresas adiantaram projetos para fabricação de veículos à bateria.
Na América Central, a Costa Rica lidera, segundo a ONU, os planos para a transformação do sistema de transporte, enquanto o Panamá acaba de apresentar seu primeiro ônibus elétrico.
Heileman afirmou haver muito interesse dos governos, “mas um problema grave é o financiamento“. A saída, segundo ele, seria a formação de alianças entre os setores público e privado para impulsar medidas.
ESTIMATIVAS
A América Latina deverá chegar até 2050 a uma frota de 200 milhões de automóveis convencionais. A consequência será um aumento na demanda de combustíveis e nas emissões de gases que causam o aquecimento global.
Enquanto especialistas acreditam que a substituição dos veículos tradicionais não deve ocorrer no curto prazo, devido ao alto custo dos veículos elétricos, Gustavo Máñez, da ONU Meio Ambiente, aposta na direção oposta, e diz haver boas razões para isso.
“Quase todo mundo na região tem acesso a tomadas em casa ou no trabalho, e considerando que os veículos estão estacionados mais de 90% do tempo, poderiam ser carregados quase em todos os lugares a um custo quase 10 vezes menor que o dos combustíveis fósseis“, ele afirma.
Em resumo, a questão ambiental, ao menos na América Latina, ainda não se sobrepôs à questão econômica. O apelo da ONU, correto e no tempo certo, precisa antes chegar aos ouvidos dos decisores e formuladores das políticas de transporte das cidades do continente latino. Investir em transporte público limpo e de qualidade é uma reivindicação antiga dos setores de transporte.
Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes
