Operador financeiro de Sérgio Cabral detalha esquema de distribuição de propinas da Fetranspor

Economista Carlos Miranda delatou ao MPF que deputados estaduais recebiam mesada de empresas de ônibus em troca de apoio 

ALEXANDRE PELEGI

O economista Carlos Miranda, amigo do ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral (MDB), descreve em detalhes em seu acordo de delação premiada como funcionava o esquema de distribuição da propina paga pela Federação das Empresas de Transportes do Rio (Fetranspor) aos deputados estaduais do Rio de Janeiro.

Miranda, acusado de ser o operador financeiro do ex-governador Sérgio Cabral (MDB), era quem operava os recursos da conhecida “caixinha da Fetranspor” em nome do político.

O documento que descreve a forma como o dinheiro era repartido entre os deputados que integravam a Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) foi obtido pelo jornal O Estado de SP, e está descrito na edição desta terça-feira, dia 1º de maio, em matéria da jornalista Constança Rezende.

A seguir as principais declarações de Carlos Miranda, segundo a reportagem do jornal O Estado de SP:

– entre 1995 e 2002, época que Sergio Cabral, então deputado estadual pelo Rio de Janeiro, presidia a Alerj, a Fetranspor pagou mesada aos deputados estaduais do Rio de Janeiro em valores que iam de R$ 500 mil a R$ 1 milhão.

– Cabral e o hoje presidente afastado da Alerj, Jorge Picciani (MDB), “eram os principais líderes da Alerj à época”, e conduziam “as negociações” que levavam à distribuição da mesada.

– sem citar os nomes dos deputados beneficiados, Miranda relata que Sergio Cabral ficava com a maior parcela “por ser presidente do órgão”.

– em trecho da delação, fechada com o Ministério Público Federal (MPF), Miranda afirma que “os valores eram colocados em envelopes e distribuídos dentro da Alerj, na sala da presidência ou, eventualmente, nos gabinetes dos deputados beneficiados”.

– a mensalidade paga pela Fetranspor tinha como objetivo o apoio aos interesses da Fetranspor, que congrega dez sindicatos, como o Rio Ônibus. No total, são mais de 200 empresas de transporte por ônibus, que respondem por 81% do transporte público regular no estado do Rio, informa a reportagem.

– o contato de Sergio Cabral era feito por meio de José Carlos Lavouras, ex-presidente do Conselho de Administração da Fetranspor, denunciado na Operação Ponto Final.

– Miranda afirmou ainda que teve contato mais próximo com os pagamentos em 1997, quando Sergio Cabral o convidou para trabalhar na Consultoria de Orçamento e Finanças da presidência da Alerj.

– o esquema recomeçou em 2007, quando Cabral, após vencer as eleições do estado, assumiu o governo do Rio de Janeiro. A partir daí a propina passou a R$ 5 milhões anuais, pagos em parcelas de R$ 420 mil e R$ 380 mil.

– o governador Sergio Cabral recebi ainda o pagamento de “prêmios”, toda vez que atendia a pleitos dos empresários, em negociações que envolviam de reajuste de tarifas, a gratuidades e isenção de IPVA.

– os prêmios giravam, em regra, de R$ 15 milhões a R$ 20 milhões por ano.

– em 2014,  após conceder uma nova prorrogação da concessão das linhas de ônibus, o então governador Cabral recebeu um prêmio de R$ 90 milhões, valor que foi dividido em 12 vezes, com parcelas aproximadas de R$ 1,5 milhões. Os pagamentos seguiram até o dia 17 de novembro de 2016, quando Cabral e Miranda foram presos pela Operação Calicute.

– nesta mesma negociação em 2014, além dos prêmio de R$ 90 milhões para o então governador Cabral, a Fetranspor repassou R$ 6,5 milhões à Alerj e R$ 4 milhões para o Tribunal de Contas do Estado do Rio (TCE-RJ).

A reportagem do Estadão ouviu todas as defesas dos políticos e empresários citados pelo economista Carlos Miranda. Todas afirmaram que as informações prestadas pelo delator não são verdadeiras.

SERGIO CABRAL

Sérgio Cabral é réu em 16 processos da Lava-Jato.

O ex-governador do Rio se tornou réu pela primeira vez em 6 de dezembro de 2016, no âmbito da Operação Calicute. Ele foi acusado pelos crimes de corrupção passiva, lavagem de dinheiro, formação de quadrilha e organização criminosa. Cabral foi preso em novembro de 2016.

No âmbito da Operação Lava Jato, Cabral conheceu sua primeira condenação. O ex-governador foi condenado a 14 anos e dois meses de prisão pelo juiz Sérgio Moro, pelos crimes de lavagem de dinheiro e corrupção passiva.

Em 10 de fevereiro de 2017, após ser acusado de corrupção passiva e lavagem de dinheiro, Cabral foi denunciado pela terceira vez, agora pela Operação Eficiência. O MPF afirma que ele recebeu, em 2011, US$ 16,5 milhões em propina do empresário Eike Batista.

A ficha corrida do ex-governador é longa, e em março deste ano ele e sua esposa, Adriana Ancelmo, foram condenados pela quinta vez. Suas penas atingem até o momento 100 anos e oito meses de prisão.

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

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