José Boiko e Estefano Boiko Jr. falam sobre planos das empresas de ônibus, como construção de nova garagem em Maringá. Tecnologia, como check-in digital e aplicativo, também é outro diferencial
ADAMO BAZANI
No mundo dos negócios, há correntes que afirmam que as crises, por mais danosas que possam ser, também se transformam em oportunidades para quem consegue se adaptar e inovar.
O grupo GBS –Garcia Brasil Sul –, com sede no Paraná e que atua nos transportes urbanos, metropolitanos, intermunicipais e interestaduais de passageiros, pode comprovar na prática esta teoria.
Enquanto somente entre janeiro e agosto deste ano, de acordo com a Anfavea – Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores, os licenciamentos de ônibus novos no Brasil caiu 10,4% em relação ao mesmo período do ano passado, o GBS comprou 100 ônibus, fazendo um investimento total de R$ 60 milhões somente para o ano de 2017.
Desde 2013, quando começou a crise econômica brasileira, os emplacamentos de ônibus tiveram redução de mais de 40%.
Enquanto a construção civil recua por 13 trimestres consecutivos, com queda de 2% no terceiro trimestre deste ano em comparação com o mesmo período do ano passado, segundo dados do IBGE divulgados em 1º de setembro, o grupo Garcia Brasil Sul constrói uma garagem em terreno de 27 mil m2, em Maringá, no Paraná, com investimentos de R$ 15 milhões. O novo espaço, com inovações estruturais e soluções ambientais, deve ficar pronto na metade de 2018.
Mas qual é o segredo para um grupo empresarial ir na “contramão” da crise e, não apenas se manter, mas também crescer?
“O diferencial maior é a gestão” – disse o diretor-presidente do GBS, José Boiko, em entrevista exclusiva ao Diário do Transporte.
Investimento em tecnologia para facilitar a vida do passageiro também garante fidelização e ampliação dos negócios. Na entrevista, o diretor vice-presidente do Grupo Garcia Brasil-Sul, Estefano Boiko Jr, destaca um sistema pelo qual, a exemplo da aviação, os passageiros podem fazer o check-in digital ao comprar pela internet, sem necessidade de ir ao guichê para imprimir a passagem.
Desenvolvemos um aplicativo para venda de passagens que já está no ar. Criamos ainda “Check in Digital”, um produto pelo qual o cliente, ao comprar a passagem pela internet, não tem mais necessidade de se dirigir ao guichê para imprimir esta passagem, vai direto para o embarque.
Em época de crise, o grupo de empresas de ônibus conseguiu um crescimento do EBITDA – Earnings Before Interest, Taxes, Depreciation and Amortization, ou seja, lucro antes dos juros (despesas financeiras), imposto, depreciação e amortização, de 15,9% para 23,8%.
Além disso, a empresa garante que até o final de 2017, todo o endividamento da Viação Garcia, assumido dos antigos controladores, estará quitado.
Mas o que esperar do segmento de transportes de passageiros?
“As empresas que fizerem a lição de casa sairão fortalecidas” – disse José Boiko.
Confira a entrevista na íntegra:
Diário do Transporte: O país enfrenta ainda um período de grande dificuldade econômica desde 2013 e alguns setores têm inclusive sentido mais, como o de transportes de passageiros. Entretanto, apesar de também estar neste contexto, é possível perceber que o Grupo Brasil Sul – Garcia (GBS) tem crescido, com aquisições e investimentos. Qual o diferencial?
José Boiko: O diferencial maior é a gestão. Muito cuidado com as despesas da empresa, primar sempre pelo bom atendimento, pela qualidade do serviço, treinamento. Foco contínuo na otimização de custos e melhorias de processos. Ser muito conservador do ponto de vista financeiro e arrojado, inovador, ousado, do ponto de vista de produtos, atendimento e qualidade.
Diário do Transporte: Recentemente, quais foram os investimentos Grupo GBS em frota, ampliações de infraestrutura e em tecnologia?
Estefano Boiko Jr: Agora em 2017 adquirimos 100 ônibus, entre metropolitanos, carros 4 x 2, 6x 2 e 8x 2 um investimento de mais de R$60 milhões. Após a entrega de todos estes veículos, prevista para acontecer até novembro, a idade média da frota passará a ser de aproximadamente dois anos, acreditamos que ficará entre as mais novas do País.
Estamos investindo também em infraestrutura. Adquirimos um terreno de 27 mil m2 em Maringá (PR), para a construção da nova garagem da empresa, com oficinas, escritórios, alojamentos, refeitório, lavador, galpão para encomendas e estacionamento. Um projeto moderno e funcional, com viés ecológico, com aproveitamento de água da chuva, iluminação natural e tratamento de resíduos líquidos. As obras já foram iniciadas e a previsão de término é para julho de 2018. O investimento total será de cerca de R$ 15 milhões.
Encontra-se em andamento um projeto de modernização de guichês, já iniciado no Terminal Rodoviário de Cascavel (PR) e que vai se estender por todos os guichês do Grupo GBS, com novo lay-out: mais modernos, funcionais e confortáveis. Outro projeto é o de criação de salas VIPs nos principais terminais rodoviários onde operamos. E em São Paulo, na garagem da empresa, foi construída uma sala VIP para os clientes que se destinam ou se originam naquela cidade, com instalações para descanso, higiene pessoal e guarda de bagagens.
Na área de tecnologia e inovação tivemos a migração do sistema de vendas de passagens para uma plataforma mais moderna, denominada “Total Bus”.
Desenvolvemos um aplicativo para venda de passagens que já está no ar. Criamos ainda “Check in Digital”, um produto pelo qual o cliente, ao comprar a passagem pela internet, não tem mais necessidade de se dirigir ao guichê para imprimir esta passagem, vai direto para o embarque.
Investimos em equipamentos de entretenimento para os ônibus, pelo qual o cliente pode acessar filmes, música e jogos em seus tabletes ou smartphones. Nossa frota é 100% rastreada e monitorada e foram instaladas câmeras internas nos ônibus para maior segurança, com foco no motorista e na rodovia.
Diário do Transporte: Como surgiu a oportunidade para a compra da Viação Garcia, uma das empresas mais tradicionais do setor rodoviário brasileiro, e como foi este processo?
José Boiko: A empresa foi vendida pela família Garcia – então fundadora e proprietária – para um novo grupo. Após esta venda, ocorreram algumas turbulências na administração e na operação da Viação Garcia. A empresa passava por um período de crise e dificuldades. Houve uma aproximação, inicialmente com o intuito de acordos operacionais, compartilhamento de estruturas, essas coisas ,e a partir disso vislumbramos a oportunidade de aquisição. Como já estávamos instalados em Londrina, havia uma sinergia porque as duas empresas operavam linhas que se sobrepunham, o que traria um ganho de escala para o Grupo. Tudo isto resultou na negociação e aquisição da Viação Garcia.
Diário do Transporte: Atualmente, neste segmento rodoviário, é possível perceber grandes aquisições e fusões. Por exemplo, a Motta comprada pelo Grupo Vega, a Expresso Brasileiro pelo Grupo Águia Branca, e a São Geraldo pela Gontijo, entre outros. A quais fatos pode-se atribuir esta realidade de mercado?
Estefano Boiko Jr: Esta situação já vinha se arrastando por algum tempo. Tanto os interessados em vender, quanto os em comprar, estavam aguardando uma definição do Poder Concedente, que veio com a nova regulamentação, feita pela ANTT em 2015. A partir daí, estes negócios que estavam em compasso de espera passaram a ser levados adiante. Esta regulamentação dá, hoje, possibilidades a empresas que estejam saneadas e em situação econômica saudável de adquirirem outras e fazerem novos investimentos, o que é o nosso caso.
Diário do Transporte: O que esperar do transporte rodoviário de passageiros a partir deste momento no qual o país tenta se recuperar da crise?
José Boiko: O desafio de todas as empresas é superar as dificuldades impostas pela crise, que acaba ocorrendo através de ganhos de eficiência e melhoria na qualidade. As empresas que fizerem a lição de casa sairão fortalecidas e com isto todo o mercado ganha, tanto as próprias empresas, quanto o mercado consumidor.
Outro ponto. Existe uma leve redução na demanda, de um modo geral. Mas por um lado, há uma migração do transporte aéreo para o rodoviário e o desafio é conquistar estes clientes para que permaneçam no rodoviário. E volto a reforçar, isto deve ser através de melhorias, com qualidade no atendimento e produtos.
Diário do Transporte: Como o Grupo GBS vê algumas especificidades do setor, como a cobrança do ICMS das passagens, tributo que não incide sobre a aviação, por exemplo?
Estefano Boiko Jr: Aí existe uma injustiça enorme, porque quem viaja de avião não paga ICMS e quem viaja de ônibus paga. O imposto encarece a passagem de ônibus, fazendo com que seus usuários sejam penalizados .Isso precisa ser corrigido.
Diário do Transporte: Fale um pouco sobre o segmento de urbanos e metropolitanos e a respeito do Refrota.
José Boiko: A atividade principal do Grupo GBS é intermunicipal e interestadual. Na atividade urbana e metropolitana, atuamos nas regiões metropolitanas de Londrina e Maringá. Quanto ao Refrota, o programa criou uma expectativa de movimentação no mercado de transporte, pois o montante de recursos anunciado para financiamento pela Caixa Econômica Federal é muito grande. Porém as empresas não estavam conseguindo finalizar os processos, porque é uma novidade para o agente financeiro , a CEF. É uma nova linha de crédito. No programa havia exigências comuns ao mercado imobiliário, especialidade da Caixa, e ela teve que adaptar o produto ao transporte, totalmente diferente, e isto levou tempo.
Como o nosso credenciamento foi feito já no início do Refrota e o fizemos através do BRDE – Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul, que nos deu todo suporte, isso facilitou o andamento e conclusão do processo, que foi o primeiro a se concretizar, com a entrega dos veículos e pagamento dos fornecedores, tudo já concluído.
Diário do Transporte: Resumidamente, nos conte um pouco da história do Grupo Brasil Sul?
Estefano Boiko Jr: A Brasil Sul surgiu de uma cisão entre quatro sócios da Expresso Nordeste. Em 2004, com esta cisão, dois destes sócios criaram a Brasil Sul, que se instalou em Londrina. A empresa passou a operar as linhas federais anteriormente atendidas pela Nordeste.
A Brasil Sul iniciou com 32 ônibus e sempre primou por operar com frota nova, com os veículos mais completos disponíveis no mercado, com padrão de qualidade diferenciado e sempre buscando inovar, um exemplo é o wi fi nos ônibus, que é oferecido aos clientes desde 2008.
Em 2009, adquirimos parte das operações do serviço urbano em Londrina e a empresa adquirida passou a se chamar LondriSul. Em 2014 assumimos o controle do Grupo Garcia – Viação Garcia, Princesa do Ivaí e Ouro Branco .
Diário do Transporte: Quais os números do Grupo: Empresas que compõem, onde opera, quantidade de veículos e de colaboradores.
José Boiko: O Grupo Garcia Brasil Sul (GBS), atende a sete Estados brasileiros (RS,SC,PR,MS,SP,RJ e MG), conta com uma frota de cerca de 800 ônibus – que rodam mais de cinco milhões de quilômetros por mês -, 2.350 funcionários e têm em seu “portfólio”, as empresas Viação Garcia, Brasil Sul, Princesa do Ivaí e Londrisul.
Até o final de 2017, todo o endividamento da Viação Garcia, assumido dos antigos controladores, estará liquidado.
O resultado é fruto de algumas ações implantadas com mais eficiência na gestão, reduzindo custos e aumentando receitas, que resultou numa evolução do Ebitda que passou de 15,9% para 23,8%. Com isso Iniciamos um processo de capitalização para a possíveis aquisições.
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes
