Brasil terá de investir pesado em etanol para cumprir meta da COP-21

Estudo da CNI estima que serão necessários aportes de US$ 31 bilhões no setor sucroenergético

ALEXANDRE PELEGI

O Brasil se comprometeu a ampliar para 18% a participação dos biocombustíveis em sua matriz energética até 2030. Este compromisso foi firmado pelo país na Conferência do Clima de Paris (COP-21), em 2015, como necessário para que possa cumprir a meta de emissões de gases de efeito estufa. O acordo fala em “bioenergia” como alvo da meta, o que, no caso brasileiro, restringe-se a duas fontes principais: biodiesel e etanol.

Na semana passada divulgamos estudo realizado pela Embrapa Agroenergia (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento) que aponta que dificilmente o Brasil conseguirá cumprir esta meta. Relembre: https://diariodotransporte.com.br/2017/08/17/estudo-afirma-que-producao-de-biodiesel-nao-sera-suficiente-para-brasil-cumprir-meta-do-acordo-do-clima/

O estudo da Embrapa centrou-se na produção de biodiesel, uma vez que o etanol, segundo avalia a empresa governamental, deverá registrar crescimento anual relativamente baixo até 2030. Logo, sobraria um peso maior para o desempenho do biodiesel, cuja produção hoje está concentrada majoritariamente na soja (70%).

Agora um novo estudo faz as mesmas contas, mas pelo lado do etanol. Encomendado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), este novo trabalho também desenha um cenário nada favorável para que o Brasil consiga cumprir seu compromisso ambiental até 2030.

O trabalho, coordenado pelo professor Marcos Fava Neves, da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA/USP), indica que as usinas sucroalcooleiras terão que investir US$ 31 bilhões para expandir sua produção de etanol até 2030. Este montante refere-se não só a investimentos na aquisição de equipamentos, como na instalação de novas usinas e na renovação de canaviais.

Valor similar já fora apontado em estudo em 2015, desta feita realizado pela Única – União da Indústria de Cana-de-Açúcar, entidade que congrega usinas da região Centro-Sul. O trabalho apontou para investimentos em torno de US$ 30 bilhões, número praticamente similar ao estudo divulgado agora pela CNI.

Se no caso do biodiesel o desafio é gigantesco, quase inalcançável, no levantamento da CNI chega-se quase à mesma conclusão para o etanol. Para cumprir a meta, o estudo estima que seria necessário:

– produzir de 54 bilhões de litros por ano – capacidade de moagem de cana teria que saltar das atuais 942,7 milhões de toneladas por safra para aproximadamente 1 bilhão de toneladas;

– construir de 75 novas usinas até 2030, com capacidade média para processar 3,7 milhões de toneladas de cana por safra cada uma – investimento total de cerca de US$ 26 milhões.

No melhor dos cenários traçados pela Embrapa envolvendo o etanol, partiu-se da suposição que a produção deste biocombustível continuaria a crescer 5% ao ano, o que levaria à produção de 50 bilhões de litros em 2030, ou 6,1% da matriz energética brasileira. Logo restariam ainda 8,3% para a meta assumida em Paris, que teriam de ser cobertos pela produção de biodiesel. Esta situação foi considerada inviável pelo estudo da Embrapa (o percentual de mistura no diesel teria de subir para 48%).

Resumo da ópera: tanto etanol, quanto biodiesel, dependem da produção de cana e soja, respectivamente. O grande desafio está em estimar o potencial de expansão do plantio da soja, principal fonte de produção do biodiesel brasileiro, além da expansão de áreas para o plantio de cana para um crescimento vigoroso na produção do etanol.

O estudo da CNI, divulgado pelo jornal Valor Econômico, mostra o quanto custaria o aumento da produção do etanol. Mas o próprio estudo pondera que apenas isso não é suficiente: o segmento sucroenergético “dificilmente fará grandes investimentos para dobrar a produção se não tiver uma segurança de que a demanda será garantida, pois o setor pode realizar tal investimento e o governo pode focar na produção de energia eólica, por exemplo”.

Fica a pergunta: como o Brasil fará para ampliar para 18% a participação dos biocombustíveis em sua matriz energética, sem causar outros problemas no campo, como mais desmatamento para ampliar as lavouras de cana e soja? E como fazer isso sem uma política energética clara, sustentável e duradoura?

Como citamos aqui, recente estudo divulgado pela Royal Academy of Engineering, por solicitação do governo do Reino Unido, apontou que alguns biocombustíveis, como o diesel produzido a partir de culturas alimentares (no caso brasileiro a soja), produzem mais emissões do que os combustíveis fósseis que substituem. Relembre: https://diariodotransporte.com.br/2017/07/20/estudo-feito-por-universidade-do-reino-unido-conclui-que-biocombustiveis-podem-ser-mais-poluidores-e-emissores-do-que-o-diesel/

A questão ambiental, objetivo da COP-21, precisa ser preservada. Como o Brasil fará isso, é uma pergunta ainda sem resposta.

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transporte

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Comentários

Comentários

  1. Paulo Gil disse:

    Amigos, boa noite.

    Em investir o Barsil é mestre.

    Agora falou em TRABALHAR, eswuece.

    Att,

    Paulo Gil

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