Estudo afirma que produção de biodiesel não será suficiente para Brasil cumprir meta do Acordo do Clima

Enquanto isso, proposta de vereador em São Paulo quer que frota de ônibus da capital rode só com este combustível até 2020

ALEXANDRE PELEGI

Estudo inédito feito pela Embrapa Agroenergia (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento) aponta que dificilmente o Brasil conseguirá cumprir a meta que prometeu na Conferência Mundial do Clima de Paris (COP-21), de elevar para 18% a participação dos biocombustíveis em sua matriz energética até 2030.

ALEXANDRE PELEGI

Conforme noticiamos hoje, a Câmara Municipal de São Paulo volta a discutir nesta quinta-feira, 17 de agosto de 2017, um cronograma para substituição dos atuais ônibus movidos a óleo diesel por modelos com tecnologias alternativas e menos poluentes.

Das propostas em discussão uma delas, apresentada pelo vereador Milton Leite, privilegia o biodiesel. Segundo a proposta, já em 2018, todos os ônibus deverão ser abastecidos com a mistura B 20, ou seja, 20% de biodiesel ao diesel convencional. Já em 2020, todos os ônibus deverão operar com B100 – 100% de biodiesel.

A proposta do vereador, além de ter recebido inúmeras críticas de especialistas, caso seja aprovada terá de enfrentar um cenário nada animador para o biocombustível.

Estudo inédito feito pela Embrapa Agroenergia (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento) aponta que dificilmente o Brasil conseguirá cumprir a meta que prometeu na Conferência Mundial do Clima de Paris (COP-21), de elevar para 18% a participação dos biocombustíveis em sua matriz energética até 2030.

O estudo, obtido com exclusividade pelo jornal Valor Econômico, desenha quatro cenários possíveis para os volumes de biodiesel e etanol que serão necessários para o Brasil cumprir o compromisso assumido com o Acordo de Paris. Segundo a Embrapa, a única forma possível de alcançar o objetivo seria se outras fontes de energia fossem incluídas no processo, como cogeração a partir da queima do bagaço da cana e do carvão vegetal.

E aí começam os problemas. O estudo da Embrapa ressalta que o Acordo do Clima (Cop-21) estabelece que a meta deve ser cumprida com biocombustíveis líquidos, ou seja, álcool e biodiesel.

O problema é que o etanol deverá registrar crescimento anual relativamente baixo até 2030, sobrando assim um peso maior para o desempenho do biodiesel, cuja produção hoje está concentrada majoritariamente na soja, principal grão cultivado no país. Esta fonte responde por 70% do biodiesel produzido.

Os cenários traçados pelo estudo da Embrapa não são animadores, nem para o país, que se comprometeu em atingir a meta determinada pelo Acordo do Clima, nem para o Projeto do vereador Milton Leite.

CENÁRIOS POSSÍVEIS PARA O BRASIL CUMPRIR A META DO ACORDO DO CLIMA, SEGUNDO A EMBRAPA:

Cenário 1 – parte da hipótese de que a produção de etanol continuará a crescer 5% ao ano, até chegar a 50 bilhões de litros em 2030, ou 6,1% da matriz energética brasileira. Nesta perspectiva, o volume de biodiesel necessário para cumprir a meta da COP-21 precisaria atingir 63 bilhões de litros (11,9% da matriz), demandando percentual de 69% de mistura no diesel fóssil (B69). O percentual de mistura obrigatória de biodiesel no diesel é de 8% (B8) atualmente. O estudo considera inviável essa quantidade de biodiesel até 2030.

Cenário 2 – parte da hipótese da taxa de crescimento do etanol dobrar para 10,2% ao ano, o que elevaria o volume produzido a 79,5 bilhões de litros em 2030 (9,7% da matriz energética). Neste cenário caberia ao biodiesel cobrir os 8,3% restantes – neste caso o percentual de mistura no diesel teria de subir para 48% (B48), considerado inviável pelo estudo da Embrapa.

Nos dois cenários citados o grande desafio está em estimar o potencial de expansão do plantio da soja, principal fonte de produção do biodiesel brasileiro. Além, é claro, da expansão de áreas para o plantio de cana, já que se prevê um crescimento na produção do etanol.

Cenário 3 – parte da hipótese de um significativo aumento no percentual da safra de soja usada na produção do biodiesel, que saltaria de 15% para 35%. Neste caso seria possível obter uma mistura de biodiesel de 15% no diesel (B15). Mesmo neste cenário otimista a participação do biocombustível na matriz energética seria de apenas 2,6%. Somando aos 9,7% de presença do etanol na matriz energética brasileira, faltariam ainda 5,7% para o país cumprir a meta. Sobraria para outros combustíveis líquidos fecharem o número, como bioquerosene ou biogás, que não têm escala de produção comercial no Brasil.

Cenário 4 – parte da hipótese de um aumento ainda maior de uso da soja para produção do biodiesel. Mais radical que o cenário 3, a hipótese estima destinar metade de toda a produção nacional somente para o biodiesel. Neste caso seria viável uma mistura de 21% (B21) do produto no diesel até 2030, o que levaria o biodiesel a uma participação de 3,7% na matriz energética.

O alerta que o estudo da Embrapa traz é que o Brasil precisa diversificar urgentemente as matérias-primas com escala de produção para a produção de biocombustíveis. Entram nessa lista gordura animal, algodão, girassol, canola e amendoim.

Como se não bastassem todas estas considerações cabe lembrar um recente estudo divulgado pela Royal Academy of Engineering por solicitação do governo do Reino Unido. Conforme noticiamos, o estudo alerta que alguns biocombustíveis, como o diesel produzido a partir de culturas alimentares (no caso brasileiro a soja), produzem mais emissões do que os combustíveis fósseis que substituem.

O trabalho dos especialistas ingleses analisou o impacto na produção dos biocombustíveis em todo o mundo, incluindo como a demanda por biocombustíveis alimentares desencadeia a destruição de florestas quando os agricultores expandem a produção para áreas adicionais.

O estudo defende que na produção de biocombustíveis um uso mais intensivo a partir de resíduos. Outra alternativa sugerida é a produção de biocombustíveis a partir de lavouras em terras já antropizadas e beirando as grandes lavouras.

Relembre: https://diariodotransporte.com.br/2017/07/20/estudo-feito-por-universidade-do-reino-unido-conclui-que-biocombustiveis-podem-ser-mais-poluidores-e-emissores-do-que-o-diesel/

Se no caso do Acordo do Clima (Cop-21) a meta está definida por protocolo internacional, no caso da cidade de São Paulo, como se sabe, sequer conseguimos cumprir uma lei municipal, a Lei de Mudanças Climáticas, de 2009. Esta lei determinava que a partir daquele ano 10% da frota deveria ser substituída anualmente até que, em 2018, nenhum ônibus mais dependesse exclusivamente de óleo diesel para prestar serviços.

Como se vê, a administração municipal fracassou feio em alcançar uma meta que ela própria definiu. No caso do Acordo de Paris, a situação é muito mais complicada. Fica difícil imaginar o que acontecerá caso seja aprovado o Projeto do vereador Milton Leite.

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transporte

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